Por José de Alencar (1875)
- Deus ouviu minha súplica. Agora posso morrer descansada.
A moça escutara, sem interrompê-la, a exposição que D. Emília lhe fez das vantagens de um casamento com Abreu. Nas palavras de sua boa mãe, não somente sentiu os extremos de uma ternura ardente; reconheceu também o conselho da prudência.
Não obstante, sua resposta foi uma recusa formal.
- Tinha resolvido aceitar o primeiro casamento que minha mãe julgasse conveniente, para sossegar seu espírito e desvanecer o susto que tanto a consome. Meus sonhos de moça, que bem mesquinhos eram, sacrificava-os de bom grado para vê-la contente. Agora tudo mudou. Não posso dar o que não me pertence. Amo outro.
- Sei, o Seixas. E tens certeza de que ele se case contigo?
- Nunca lhe perguntei, minha mãe.
- Pois é preciso saber.
- Eu não lhe falo nisso.
- Pois falarei eu.
Efetivamente, essa noite, quando Fernando chegou, D. Emília dirigiu a conversa para o ponto melindroso. No primeiro ensejo interrogou o moço acerca de suas intenções. Fez valer o argumento formidável da sombra que um galanteio ostensivo projeta sobre a reputação de uma menina, quando não o perfumam os botões de laranjeira a abrir em flor. Lembrou também que a preferência exclusiva afugentava os pretendentes, sem garantia de futuro.
Seixas perturbou-se. Por mais preparado que esteja um homem de sociedade para essa colisão deve comovê-lo a necessidade de escolher entre a afeição e as conveniências. Ainda mais, quando para furtar-se ao dilema, esse homem delineou uma vereda sinuosa, por onde se arraste como réptil, serpenteando entre o amor e o interesse.
Assevero-lhe, D. Emília, que minha intenções são as mais puras. Se ainda não as tinha manifestado, era por aguardar a ocasião em que possa realizá-las de pronto, como convém em semelhante assunto. Minha carreira depende de acontecimentos que devem efetuar-se neste ano próximo. Então poderei oferecer a Aurélia um futuro digno dela, e que lhe invejem as mais elegantes senhoras da corte. Antes disso não me animarei a associá-la a uma sorte precária, que talvez se torne mesquinha. Amo sinceramente sua filha, minha senhora; e esse amor dá-me forças para resistir ao egoísmo da paixão. Prefiro perdê-la a sacrificá-la.
- Este procedimento de sua parte é muito nobre, sr. Seixas. Não podia com efeito dar maior prova de estima a Aurélia, do que renunciar a ela para não servir de obstáculo a um enlace, que há de fazê-la feliz.
Ditas estas palavras, a valetudinária senhora a quem a conversa havia fatigado em extremo recolheu-se ao interior. Fernando ficou na sala aturdido com a conclusão que tivera a conversa, tão outra da que ele havia esperado.
De feito acreditara que D. Emília, embalada na esperança do futuro brilhante por ele dourado com palavras maviosas, e comovida pelos acentos de sua paixão, o deixaria cultivar docemente o amor perfeito, aí, no canteiro dessa pobre salinha, mal alumiada por um lampião mortiço.
Erguendo-se afinal, o moço dirigiu-se ao canto da sala, onde Aurélia trabalhava inteiramente absorta em suas reflexões, e alheia à cena que se acabava de passar, da qual entretanto era ela o assunto, e quem sabe se a vítima.
Que motivo tinha a inexplicável indiferença da moça naquele momento? Talvez ela própria não o soubesse manifestar. É possível que as conseqüências da conversa preocupassem mais seu espírito, de que as palavras trocadas entre sua mãe e Seixas.
- Que significa isto, Aurélia? Perguntou o moço.
- Ela é mãe, Fernando, e tem o direito de inquietar-se pelo futuro de sua filha. Quanto a mim, sabe que amo sem condições, e nunca lhe perguntei onde me leva esse amor. Sei que ele é minha felicidade, e isto me basta.
No dia seguinte D. Emília comunicou à filha o resultado da conversa que tivera com Seixas, e reiterou os seus conselhos com as razões do costume.
- Se eu tivesse a desgraça de perdê-la, minha mãe, sua filha já não ficaria só. Teria para ampará-la além de sua lembrança, um amor que não a abandonará nunca.
A viúva deixou escapar um gesto de dúvida.
- Creia, minha mãe; o desejo de conservar-me digna do homem a quem amo, me protegeria melhor do que um marido acaso.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.