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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

A essa numerosa parcialidade, da qual era chefe incontestado Bento Gonçalves da Silva, o homem de maior influência na província, aderiram sinceramente não só os liberais da campanha como a classe militar, decaída do antigo lustre com a política democrática e pacífica, inaugurada pela revolução de 7 de abril. 

Assim, por uma contradição muito freqüente em política, dois interesses opostos, mas ofendidos, se reuniam para destruir o obstáculo comum. É o efeito dos governos fracos e perplexos como foi o da regência trina; sofrem ao mesmo tempo a irritação dos aliados e o desprezo dos adversários. 

Por muito tempo Bento Gonçalves, apesar da sedução do mando supremo, que sorria à sua ambição, resistiu às instâncias do grupo republicano. A história lhe fará essa justiça: que sua energia, a lealdade de seu caráter, e o grande prestígio de seu nome, contiveram a revolução, desde muito incubada no ânimo da população. 

Porventura não atuaria  no espírito do coronel o princípio monárquico tão fortemente quanto o sentimento da nacionalidade e sobretudo da dignidade da raça. Como brasileiro devia repugnar-lhe a comunhão com os povos de origem espanhola, que ele, veterano encanecido nas pelejas, havia combatido desde os primeiros anos. 

Nem podia escapar à sua perspicácia o futuro que estava reservado ao Rio Grande, na sonhada confederação. Fora preciso cegar-se completamente para não conhecer que o novo estado seria mais uma presa do caudilho feliz, que nos devaneios de sua ambição aspirava à restauração do antigo vice-reinado de Buenos Aires, para trocar então por uma coroa o chapéu de ditador. 

Receoso da agitação que se manifestava na província, o governo da regência chamara à corte Bento Gonçalves, e afirma-se que ele voltara disposto a empregar sua influência em bem da ordem pública. A verdade é que, embora acusado de excitar os ânimos, não se aproveitou para proclamar a revolta de tantas ocasiões que lhe ofereceram repetidos motins, especialmente o de 24 de outubro de 1834. 

Bem longe de defender a revolução, a julgou talvez com extrema severidade. Não foi unicamente um crime político, um atentado à integridade do Império, foi mais do que isso: foi um grande erro que felizmente não se consumou. A separação do Rio Grande seria um sacrifício de sua nacionalidade, que brevemente ficaria absorvida, senão aniquilada pela anarquia das repúblicas platinas. Não se decepa um membro para dar-lhe força. 

A história, superior às paixões, restabelecerá a verdade dos fatos. Não é meu propósito antecipá-la. Dessa página apenas destaco o vulto do homem que figurou como protagonista da tragédia política, em cuja cena também se representou o drama simples e obscuro que me propus narrar. 

Sucediam-se os dias na vaga expectativa de um acontecimento, que parecia inevitável, quando correu a notícia da demissão de Bento Gonçalves, apeado pelo presidente dos dois comandos, o do 4º corpo de cavalaria e o da fronteira de Jaguarão. Esse e outros atos de energia teriam sopitado a resistência, cuja fraqueza contagiava os auxiliares da administração. A mudança do presidente, talvez com uma concessão a Bento Gonçalves, reanimou seu partido, sem contudo satisfazê-lo. 

A demissão do coronel foi considerada como um desafio lançado pelo governo à revolução; e portanto estabeleceu-se na campanha uma convicção de que o rompimento dessa vez era inevitável. Esse ato enchera a medida do descontentamento. 

Manuel soube da notícia em uma estância próxima, onde a trouxera um peão chegado naquele momento de Bagé. Entrando em casa, achou a mãe e Jacintinha sentadas numa esteira a trabalhar. 

— O coronel foi demitido! 

Não se disse mais palavra. Todos compreendiam o alcance do fato. Passado o primeiro movimento de surpresa, Francisca levantou-se e foi procurar a mala velha de João Canho; enquanto a filha tratava de arranjar a roupa do irmão, a velha limpava a reiúna, encostada e sem serventia desde 1812. Manuel de seu lado revistava seus arreios, o laço e as bolas, consertando ou substituindo as peças estragadas. 

Estes preparativos de longa ausência, talvez eterna, duraram dois dias. Ao cabo deles, o gaúcho abraçou a mãe e a irmã, que se debulhavam em pranto, e montando no Juca, partiu a galope acompanhado da Morena e mais tropilha. 

Em caminho soube que o coronel já não estava em Jaguarão, e se retirara à sua estância. Seguiu, portanto, na direção de Camacã, onde chegou ao cabo de oito dias de jornada. 

Bento Gonçalves tomava seu mate chimarrão passeando na varanda.

— Então, que novidade é esta? 

— Eu assim que soube, vim. Bem si que meu padrinho não precisa de mim; mas o coração me pedia. 

— E por que não hei de precisar de ti, rapaz? disse Bento Gonçalves abraçando-o. Estava justamente eu à procura de três camaradas valentes e prontos para tudo. Assim arranjo-me contigo que vales por três, mas tens um corpo só, o que não dá tanto na vista como um farrancho de capangas.  

(continua...)

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