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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

— Deixa-me, deixa-me, que tudo isto é viver... Não vejo o céu há tanto tempo! Sinto-me ressuscitar aqui, Constança! Por que não tenho eu respirado todas as noites este ar? Eu poderia viver alguns anos? Poderei, minha Constança? Pede tu, pede muito à minha Virgem Santíssima! Vamos orar ambas! Vamos, que o Simão não morre... O meu Simão vive, e quer que eu viva. Está no Porto amanhã, e talvez já esteja...

— Quem, minha senhora?!

— Simão; o Simão vem para o Porto.

A criada julgou que a sua ama delirava, mas não a contrariou.

— Teve carta dele a fidalga? — tornou ela, cuidando que assim lhe alimentava aquele instante de febril contentamento. — Tive... Queres ouvir?... Eu leio...

E leu a carta, com grande pasmo de Constança, que se convenceu.

— Agora vamos rezar, sim?... Tu não és inimiga dele, não? Olha, Constança, se eu casar com ele, tu vais para a nossa companhia. Verás como és feliz, Queres ir, não queres?

— Sim, minha senhora, vou. Mas ele conseguirá livrar-se da morte?

— Livra; tu verás que livra; o pai dele há de livrá-lo... e a Virgem Santíssima é que nos há de unir. Mas, se eu morro... se eu morro, meu Deus!

E, com as mãos convulsivamente enlaçadas sobre o seio, Teresa arquejava em pranto.

— Se eu não tenho já forças!... Todos dizem que eu morro, e o médico já nem me receita!... Então melhor me fora ter acabado antes desta hora! Morrer com esperanças, ó Mãe de Deus!

E ajoelhou ante o retábulo devoto que trouxera do seu quarto de Viseu, ao qual sua mãe e avó já tinham orado, e em cujo rosto compassivo os olhos das duas senhoras moribundas tinham apagado os seus últimos raios de luz.

CAPÍTULO XIV

Anunciara-se Tadeu de Albuquerque na portaria de Monchique, ao dia seguinte dos anteriores sucessos.

Sua prima, primeira senhora que lhe saiu ao locutório, vinha enxugando as lágrimas de alegria.

— Não cuide que eu choro de aflita, meu primo — disse ela. — O nosso anjo, se Deus quiser, pode salvar-se. Logo de manhã a vi passear por seu pé nos dormitórios. Que diferença de semblante ela tem hoje! Isto, meu primo, é milagre de duas santas que temos inteiras na claustura, e com as quais algumas perfeitas criaturas desta casa se apegaram. Se as melhoras continuarem assim, temos a Teresa; o céu consente que esteja entre nós aquele anjo mais alguns anos...

— Muito folgo com o que me diz, minha boa prima — atalhou o fidalgo. — A minha resolução é levá-la já para Viseu, e lá se restabelecerá com os ares pátrios, que são muito mais sadios que os do Porto.

— É ainda cedo para tão longa e custosa jornada, meu primo. Não vá o senhor cuidar que ela está capaz de se meter ao caminho. Lembre-se que ainda ontem pensamos em encontrá-la hoje morta. Deixe-a estar mais alguns meses; e depois não digo que não leve; mas, por enquanto, não consinto semelhante imprudência.

— Maior imprudência — replicou o velho — é conservá-la no Porto, onde, as estas horas, deve estar o malvado matador de meu sobrinho. Talvez não saiba a prima?... Pois é verdade: o patife do corregedor saiu a campo em defesa dele, e conseguiu que o tribunal da Relação lhe aceitasse a apelação da sentença, passado o prazo da lei; e, não contente com isto, fez que o filho fosse removido para as cadeias do Porto. Eu agora trabalho para que a sentença seja confirmada, e espero consegui-lo; mas, enquanto o assassino aqui estiver, não quero que minha filha esteja no Porto.

— O primo é pai, e eu sou apenas uma parenta — disse a abadessa — cumpra-se a sua vontade. Quer ver a menina, não é assim?

— Quero, se é possível.

— Pois bem, enquanto eu vou chamá-la, queira entrar na primeira grade à sua mão direita, que Teresa lá vai ter.

Avisada Teresa de que seu pai a esperava, instantaneamente a cor sadia que alegrava as senhoras religiosas se demudou na lividez costumada. Quis a tia, vendo-a assim, que ela não saísse do seu quarto, e encarregava-se de espaçar a visita do pai.

— Tem de ser — disse Teresa. — Eu vou, minha tia.

O pai, ao vê-la, estremeceu e enfiou. Esperava mudança, mas não tamanha. Pensou que a não conheceria sem o prevenirem de que ia ver sua filha.

— Como eu te encontro, Teresa! — exclamou ele, comovido. — Por que me não disseste há mais tempo o teu estado?

Teresa sorriu-se, e disse:

— Eu não estou tão mal como as minhas amigas imaginam.

— Terás tu forças para ir comigo para Viseu?

— Não, meu pai; não tenho mesmo forças para lhe dizer em poucas palavras que não torno ao Viseu.

— Porque não, se a tua saúde depender disso?!...

— A minha saúde depende do contrário. Aqui viverei ou morrerei.

— Não é tanto assim, Teresa — replicou Tadeu com dissimulada brandura. — se eu entender que estes ares são nocivos à tua saúde, hás de ir, porque é obrigação minha conduzir e corrigir a tua má sina.

— Está corrigida, meu pai. A morte emenda todos os erros da vida.

(continua...)

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