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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

Por mediação do bondoso desembargador, obteve o Nunes alvará de solicitador de causas nos auditórios do Porto. Ganhou boas relações. Era esperto, zeloso e pagava-se regularmente. Chamou para a cidade a mulher e os dois filhos Alugaram casa na Rua de Trás as duas famílias. Davam-se muito bem, e gastavam economicamente os 750$000 réis das Botelhas, de meias com os salários de procurador. O Veríssimo frequentava à noite o café das Hortas, jogava o quino e, de vez em quando, ia ao café da Rua de Santo António ouvir os demagogos dos manos Passos, que o festejavam e catequizavam. Dava-se com os Navarros, com o Almeida Penha, com os Peixotos vidraceiros Ele, sobpondo ao reconhecimento os escrúpulos de espião, contava ao conselheiro Leite, cabralista intransigente, os planos dos setembristas, os clubes, as lojas de carbonários, as tramóias arranjadas em Braga pelo barão do Casal, muito setembrista, padre Alves Vicente, de combinação com o Passos José, com o Faria Guimarães, com o médico Resende, com o Damásio, com o Alves Marfins. O governador civil, visconde de Beire, estava em dia com as conspirações da Viela da Neta – aquele baluarte da Liberdade que demorava paredes meias com os escombros do Deboche, não grifado, muito à francesa; –tudo acabado hoje em dia, e soterrado debaixo de uma loja de modas, de um café e de uma taverna – o vitalismo soez e chato da decadência.

Veríssimo arrecadava uma gratificação, umas seis libras mensais, mesquinha paga dos serviços que fazia à ordem, à tranquilidade cívica da Rua das Flores e das Congostas.

Na contra-revolução de 9 de Outubro de 46, quando foi preso o duque, José Passos encontrou o Veríssimo na Praça Nova, chamou-lhe patriota, pôs-lhe a mão no ombro, sacudiu-o pelas lapelas, e disse-lhe que movesse, que agitasse as massas, porque o duque estava a desembarcar. Os sinos tangiam a rebate, a plebe ondeava para Vilar, num restrugir de tempestade, quando o Veríssimo e o Nunes procuraram o conselheiro Fortunato, que tiritava de medo com as suas enxúndias espapadas entre as filhas, numa consternação. Disseram-lhe que se iam armar para se constituírem sentinelas da segurança do seu benfeitor. O conselheiro abraçou-os muito comovido, numa excitação apopléctica.

Depois formaram-se os batalhões nacionais. Veríssimo e Torcato foram promovidos a tenentes do batalhão da Vista Alegre. Quando foi da refrega de Valpaços tinham compreendido inteligentemente que a retirada de Sá da Bandeira, da veiga de Chaves, era a fraqueza precursora de uma derrota. Conheciam o pérfido espírito do 15 e do 3 de infantaria – previram a traição. Tinham pensado maduramente os dois tenentes, sem entusiasmo, com a prudência dos quarenta anos apalpados pelos reveses de vinte batalhas. Resolveram desertar quando os batalhões de linha se passassem para as forças reais. Travou-se o encontro de Valpaços. Com os dois regimentos que mim turbilhão e a gritos de Viva a Rainha se abraçaram às vanguardas do Casal, também eles, por debaixo do fogo do seu batalhão, se passaram, dando vivas à Carta Constitucional. Eram a obra da prudência e do conselheiro Fortunato Leite.

Quando o barão de Casal foi espostejar os miguelistas a Braga, os dois tenentes apresentados pediram vénia ao general para servirem na coluna do visconde de Vinhais; – que tinham repugnância de pelejar cara a cara com os seus parentes bandeados nas guerrilhas do padre Casimiro José Vieira e do padre José da Laje. A vergonha impunhalhes o dever de doirar a mentira. Não lhes pareceu decente irem acutilar nas mas de Braga o Cristóvão Bezerra, de Bouro, e o abade de Calvos e o padre Manuel das Agras. Não poderiam ver sem mágoa a soldadesca a dar saque aos dinheiros das senhoras Botelhas.

Ainda assim não puderam esquivar-se a perseguir os realistas da comitiva de MacDonald, desde Vila Real até Sabroso; mas não desembainharam as espadas, porque o visconde de Vinhais os admitiu ao seu quartel-general, e os cadáveres que encontraram pela serra do Mezio até Sabroso, onde pereceu acutilado o caudilho escocês, eram façanhas das guardas avançadas. Os dois tenentes não deram nem tiraram gota de sangue nesta luta fratricida. Um triunfo a seco.

Concluída a guerra civil pelo convénio de Gramido, depositaram as armas e pediram empregos. O conselheiro Leite, o Casal, o Vinhais, o Alpendurada, o Carneiro Geraldes, o Joaquim Torcato, o centro cabralista recomendou-os à consideração magnânima de Sua Majestade. O Nunes, como sabia do foro, foi despachado escrivão de direito para a Estremadura, Veríssimo Borges obteve uma fiscalização rendosa dos tabacos e sabão em Trás-os-Montes; depois foi transferido, com vantagem, para a alfândega de Viana do Minho; e por último para uma direcção aduaneira do Ultramar. Ainda vivia há poucos anos, porque um jornal da localidade, debaixo de um símbolo fúnebre – um anjo curvado e deplorativo sobre a sua urna, enlutada pelas madeixas de um chorão – publicava:

Veríssimo Borges Camelo da Mesquita dá parte aos seus numerosos e respeitáveis amigos que foi Deus servida chamar à sua divina presença, hoje pelas 5 horas da manhã, sua chorada esposa D. Libânia de Covas Borges da Mesquita, a cujo cadáver, etc. Pelo seu profundo estado de consternação pede desculpa de cumprimentos.

O jornal, depois de uns adjectivos lúgubres e velhos como a morte, acrescentava:

A Ex.ma Srª D. Libânia, que todos choramos com seu Ex.mo viúvo, era uma senhora de esmeradíssima educação, pertencia à ilustre família dos Covas; – modelo no trato insinuante com que cativava o respeito e a amizade de todas as pessoas desta Ilha, que tiveram a fortuna de a conhecer. Receba S. Ex.mo Sr. ConselheiroDirector os nossos mais sentidos pêsames pela desgraça que acaba de o ferir implacavelmente.

Veríssimo e Nunes podem ainda viver, porque eram robustos de corpo e de alma.

XIII

(continua...)

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