Por Aluísio Azevedo (1882)
— Que deseja o senhor de mim? perguntou ela com voz trêmula, ao aparecer entre as folhas da janela mal aberta.
— Desejo dizer-te o que sinto por ti; o que sofro; contar-te os meus tormentos e pedir-te que me ames, que te compadeças do meu desespero e da minha dor!
— Era só isso o que desejava?...
— Não me trate com essa frieza, Cecília; lembra-te da passada ventura; lembra-te dos nossos primitivos amores!
Cecília não respondeu.
— Não me dás então uma palavra?! insistiu Pedro Ruivo ao fim de uma pausa.
— Que lhe hei de dizer? Nada tenho absolutamente para lhe comunicar... O senhor ameaçou-me de perturbar a paz de minha casa, de envergonhar-me aos olhos da sociedade, de tornar conhecida a única falta que cometi, de incompatibilizar-me enfim com meu marido, se eu não consentisse em lhe falar. Pois bem: eu tive medo de suas ameaças e cá estou. Se com isto não se dá por satisfeito, faça então o obséquio de dizer o que ainda quer de mim; mas tenha a bondade de apressar-se porque este ar frio da noite pode causar-te mal...
— Bem! visto isso, preferes que eu publique o nosso segredo, não é verdade?! Queres que amanhã todos saibam que sou o pai de teu filho?! Pois eu te farei a vontade!
— Valha-me Deus! disse Cecília, deveras impacientada. Como posso preferir semelhante coisa, se cá estou; se consenti, bem a contragosto, em falar-lhe a estas horas e nestas circunstâncias?!
— Isso não basta! Tu bem sabes que o verdadeiro amor não se contenta com tão pouco! Minha ameaça continua de pé, se me não deixares aproximar de ti!...
— Nesse caso, respondeu Cecília, com um gesto de resignação, o remédio que tenho é abaixar a cabeça e sujeitar-me à sua vingança. O senhor dirá o que quiser, fará o que bem entender! Pela minha parte, lancei mão do que estava dignamente ao meu alcance para evitar uma calamidade; nada consegui, paciência!
Não me posso queixar de ninguém!
— Não! deves queixar-te de ti mesma, porque com uma palavra tua, com um sorriso, eu cairia a teus pés, escravo e submisso.
— Se ainda tem alguma esperança a esse respeito, pode perdê-la. Eu não me desviarei dos meus deveres.
— Cecília, reflete um instante!
— É justamente porque muito refleti sobre isso, que me sinto agora tão segura na minha resolução.
— És cruel!
— Não, sou razoável; nada lucraria em esconder uma falta com outra maior. Em vez de uma teria duas! Pois o senhor que me não perdoa a única culpa que cometi em minha vida, e essa porque fui crédula e inocente, quanto mais se possuísse o segredo de uma outra, perpetrada agora, quando já conheço os homens e tenho alguma experiência das coisas!...
— Sim, disse Pedro Ruivo, dominado pelas palavras de Cecília; mas é que as duas faltas se destruiriam mutuamente, e eu passaria do papel de acusador ao de cúmplice, tendo, por conseguinte, tanto empenho quanto tens tu em esconder o nosso mistério...
— Não! prefiro a sua raiva, a sua guerra, a toda e qualquer cumplicidade entre nós dois!
— Não me amas então?
— De certo que não!
— Nesse caso entrega-me meu filho!
— Não tenho em meu poder nada que lhe pertença!
— Cecília, é perigoso zombar dessa forma com a minha cólera! — Faça o que entender!
E Cecília retirou-se, fechando a janela.
— Escuta! disse ainda Pedro Ruivo, mas não recebeu resposta alguma. O jardim havia caído de novo no triste silêncio da noite; só se ouvia o confuso sussurrar de algumas árvores que se espreguiçavam na sombra.
Como sabe o leitor, Tubarão presenciou aquela cena, sem contudo ouvir o sentido da conversa dos supostos namorados; e perseguiu Pedro Ruivo, tendo de bater-se com os dois sujeitos que a este guardavam as costas.
No dia seguinte o marinheiro levantou-se da cama, sem ter dormido, saiu de casa antes que os mais acordassem. Sentia-se muito acabrunhado: a decepção que lhe causaram as cenas da véspera empolgava-lhe o coração com uma formidável mão de ferro.
— Não há que hesitar! pensava o pobre homem na sua brutal compreensão do dever. O remédio que tenho é despachá-la e levar o pequeno ao comandante!
Mal porém assentava nesta deliberação, logo lhe assistia um profundo desgosto de não poder justificar de qualquer modo o procedimento de Cecília e convencer-se afinal da sua inocência.
Neste estado de hesitação, entrou em uma hospedaria para almoçar, certo de que, durante o almoço, se decidiria por qualquer partido. Tubarão, como todo o homem do mar, não tinha o hábito de raciocinar andando pela rua. Só podia concentrar as suas idéias em pleno isolamento, ou assentado no fundo de alguma taverna, com os cotovelos fincados à mesa e a cabeça segura por ambas as mãos. Às vezes era-lhe até necessário fechar os olhos como se só quisesse olhar para dentro do cérebro, sem desperdiçar nenhuma partícula da sua atenção com os objetos externos.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.