Por Aluísio Azevedo (1884)
E fazia cálculos, apresentava cifras muito bonitas — três tosquias por ano — mais de quinhentos por cento de lucro! E citava os carneiros preferíveis ao Brasil, falava com entusiasmo no merino espanhol, melhorado pelos métodos zootécnicos, o merino da Saxônia, o Bambouillet, o merino da Mauchamp, o merino Soyeuse, os de Lanraguais, os dishley de Montcavrel, o negretti eleitoral! E se o Borges também quisesse explorar a carne do carneiro, podia importar da Inglaterra os Soutdown, os Dixley, os Dixley-Leicester, conhecidos pelo nome de — raça precoce, e cujo esqueleto diminui na razão do aumento das banhas e da carne.
Acumulava termos técnicos; fazia divisões de espécies, lembrava os carneiros braquicéfalos e os carneiros dolicocéfalos.
O Borges sucumbia debaixo dessa terminologia estranha aos seus ouvidos.
— E o leite?! gritava o espanhol. — Quem poderia Impedir que o Barão, com o leite de suas ovelhas, viesse a fazer concorrência aos célebres queijos de Roquefort?... E o comércio das peles?... Para o cortume das peles bem se podia aproveitar com vantagem a casca de certas árvores brasileiras muito abundantes e não fazer como o Rio da Prata, que exporta as suas peles em bruto.
— Enfim, Sr. Barão, para V. S. ter Idéia do lucro fabuloso que vamos fruir com os nossos carneiros, basta considerar que, só com o produto do esterco, vendido pela mínima, temos quase salvo o capital! Berion trata disso minuciosamente! Leia o grande veterinário Sanson! Leia José Hernandez!
O Borges só compreendeu que era o único carneiro explorado naquela empresa, no dia em que viu o espanhol desaparecer, levando consigo o dinheiro que lhe pôde apanhar.
Dizia-se que havia fugido para S. Paulo; Borges, sem perda de tempo, tomou o caminho dessa província; mas os seus esforços foram baldados — ninguém lhe soube dar notícias do gatuno.
Contudo, a viagem sempre lhe aproveitou alguma coisa: pareceu-lhe que em S. Paulo faria dinheiro; o caso era achar um amigo que lhe desse a mão, e dispôs-se a labutar com o mesmo ardor de quando principiou a vida.
— O mesmo ardor!... Ah! mas nesse tempo não conhecia ele outra preocupação que não fosse o seu trabalho! Nesse tempo não tinha vícios, não tinha desgosto, não tinha inimigos, não tinha responsabilidades sociais!
— Onde iria ele agora descobrir a coragem e a resignação que dantes possuía?!... Como levantar-se às seis da manhã e só deixar o serviço às seis da tarde?!
Entretanto, estava disposto a principiar de novo a existência; chegou mesmo a fazer algumas propostas de construção; agora toda a dificuldade era descobrir o tal amigo que o ajudasse!
Voltou à corte; percorreu os bancos, consultou vários negociantes — nada! A viúva Perdigão cortava-lhe todas as vasas.
Mas ainda havia o Barroso. — Era Impossível que este também lhe virasse as costas.
Procurou-o.
— Homem, filho!, respondeu o austero marido de Sabina. — Para falar-te com franqueza, não vieste bater a muito boa porta — não estou, para que digamos, em estado de arriscar a quantia que desejas; mas enfim... havemos de ver...
— Porém é necessário tratarmos disto quanto antes!... observou o Borges. Estou com a corda no pescoço; tenho de seguir de muda para S. Paulo até o fim do mês; não posso ficar nem mais um instante no Rio de Janeiro!
— Havemos de ver!... Havemos de ver!... E como vais tu com tua mulher?
— Assim, assim... Ela ultimamente está mais meiga e menos caprichosa.
Mas então prometes que para a semana realizamos o negócio?
— É possível! É possível! disse o Barroso fugindo ao assunto. Pois lá a minha Sabina continua no mesmo. Não! nisso tenho sido feliz...
O barão tornou a puxar a conversa para o seu negócio. O outro afinal, prometeu ajudá-lo.
Mas, desde esse dia, Borges principiou a não encontrá-lo em parte alguma, até que uma vez, indo procurá-lo em casa, antes das sete da manhã, e tendo penetrado familiarmente pela chácara, ouviu o amigo ordenar à mulher em tom misterioso:
— Dize-lhe que não estou. Ora sebo! Não gastasse o que tinha! Ninguém está disposto a se amolar pelos outros!... Fosse mais poupado, fizesse como eu! É boa!
Borges voltou na ponta dos pés, sem esperar a resposta. Ia aniquilado, desiludido.
— Pois até o Barroso?!... O único amigo em que ele ainda depositava confiança! o seu velho camarada dos primeiros anos! o seu companheiro de lutas! o seu "outro eu"! também lhe voltava o rosto, também o repelia?! Oh! Com efeito!
Chegou à casa desorientado, perdido. Já lá estava uma carta anônima à sua espera, para mais lhe envenenar a ferida.
— Era do Guterres, naturalmente; talvez da viúva Perdigão, talvez do Barradinhas!
O pobre homem, depois de lê-la, atirou-se à cama, desesperado, mordendo os travesseiros para abafar os soluços e não ser ouvido pela esposa.
Esta, porém, correu ao encontro dele, tomou-o nos braços, consolou--o com os seus beijos e procurou transmitir-lhe a sua coragem.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.