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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Olhou a ,manhã, que estava de uma transparência admirável. A chuva da véspera limpara a atmosfera; corria fresco. Os bondes passavam cheios de empregados públicos; viam-se amas-de-leite acompanhando os bebês; senhoras que voltavam do banho de mar, o cabelo solto, uma toalha no ombro.

Aquele movimento era comunicativo. Amâncio sentiu vontade de sair e andar à toa pelas ruas. Todo ele reclamava longos passeios ao campo, por debaixo de árvores, em companhia de amigos.

Foi para o lavatório cantarolando; o sono completo da noite fazia-o bem disposto e animado.

Mal acabara de se preparar quando bateram de leve na porta. Era uma mucamazinha, que já na véspera lhe chamara por várias vezes a atenção durante o jantar.

Teria quinze anos, forte, cheia de corpo, um sorriso alvar mostrando dentes largos e curtos, de uma brancura sem brilho.

Vinha saber se o Dr. Amâncio queria o café antes ou depois do banho.

Amâncio, em vez de responder, agarrou-lhe o braço com um agrado violento e grosseiro.

Ela pôs-se a rir aparvalhadamente.

* * *

Às dez horas, ao terminar o almoço, estava já resolvido que o rapaz, naquele mesmo dia, se mudava definitivamente para a casa de pensão.

Com efeito, pouco depois, no escritório do Campos, dizia a este, cheio de maneiras de pessoa ajuizada, “que afinal descobrira em casa da família de um amigo o cômodo que procurava”. Agradeceu muito os obséquios recebidos das mãos do negociante, desculpou-se pelas maçadas que causara naturalmente e pediu licença para despedir-se de D. Maria Hortênsia.

O Campos, logo que soube qual era a casa de pensão de que se tratava, aprovou a escolha, citou pessoas distintas que lá estiveram morando por muito tempo, e recomendou ao estudante — que lhe aparecesse de vez em quando; que não se acanhasse de bater àquela porta nas ocasiões de apuro, porque seria atendido, e, afinal, perguntou se Amâncio queria receber a mesada, já ou mais tarde.

— Como quiser... respondeu o provinciano, sem ter aliás a menor necessidade de dinheiro. E foi embolsando a quantia.

D. Maria Hortênsia recebeu-o com muito agrado. A irmã não estava em casa. Conversaram.

Ela sentia que Amâncio se retirasse assim tão depressa; — mas, quem sabe? Talvez não se desse bem ali; não fosse tratado como merecia...

O estudante protestava, jurando que não podia ambicionar melhor tratamento do que lhe dispensaram; reconhecia, porém, que já causava muito incômodo, e por conseguinte devia retirar-se. Não queria abusar.

Hortênsia afiançava e repetia que ele não dera incômodo de espécie alguma.— Tudo aquilo era feito com muito gosto!

Agora parecia mais familiarizada com o provinciano. Chegou a dirigir-lhe gracejos; disse, com um sorriso de intenção, que “sabia perfeitamente o que aquilo era!... O que eram rapazes! — Não se queriam sujeitar a certo regime; só lhes servia pagodear à solta! Enfim!...tinham lá a sua razão... Se ela fosse rapaz faria o mesmo, naturalmente!”

Amâncio estranhou que tais palavras viessem de quem vinham, e, não querendo perder a vaza, retorquiu com febre: “Que Hortênsia estava enganada a respeito dele, que não o conhecia! Se, à primeira vista ele parecia um pândego ou um sujeito mau, não o era todavia no fundo! Ninguém amava tanto a família; ninguém desejava o lar com tanto ardor e com tanto desespero! Oh! Que inveja não tinha do Campos!...que inveja não tinha de todo homem, a cujo lado enxergava uma esposa bonita e carinhosa!...”

Hortênsia agradeceu com um sorriso.

— Oh! Quanto fora injusta!...prosseguiu Amâncio, como rosto esfogueado de comoção. — Quanto fora injusta! O seu ideal, dele, era justamente o casamento; era possuir uma mulherzinha, cheirosa e meiga, com quem passasse a existência, ditosos e obscuros no seu canto, vivendo um para o outro, ignorados, egoístas, não cedendo nenhum dos dois, a mais ninguém a menor particularzinha de si,— um sorriso que fosse, um olhar amigo, um aperto de mão!

— Que rigor! Exclamou Hortênsia, tomando certo interesse pelo que dizia o estudante. — Que rigor! Não o supunha assim, seu Amâncio!...

— Oh! Era assim que ele entendia o verdadeiro amor!...,

E, cada vez mais quente:

— Era assim que ele amaria! Era assim que ele cercaria de beijos o anjo estremecido que o quisesse recolher à tepidez consoladora de suas asas! Era assim que sonhava a existência de duas almas gêmeas, soltas no azul, gozando a voluptuosidade do mesmo vôo!...

— Pois é casar-se, meu amigo... aconselhou a mulher do Campos, pasmada de ouvir Amâncio falar daquele modo. — Não o fazia tão prosa!...

E, como era preciso dizer qualquer coisa, acrescentou muito amável:

— Quem sabe se alguma fluminense já não lhe voltou o miolo!...

Ele confessou que sim, sacudindo tristemente a cabeça. E, de tal modo exprimiu o seu amor por “essa fluminense”, tão ardente e tão apaixonado se mostrou, que Hortênsia instintivamente se ergueu, a olhar para os lados, sobressaltada como se tivesse cometido uma falta.

Não quis saber de quem se tratava.

(continua...)

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