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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Em face uma da outra, Amália triunfava. Ela era a aurora; e sua rival o crepúsculo suave e encantador. Assim Julieta timidamente, envolta no seu perfume de modéstia, afastava-se; e a sombra gentil e melancólica ia-se desvanecendo até esvair-se no fulgor que derramava a formosura da rival. 

 

Foi então que Hermano sentiu uma dor agudíssima, como se lhe arrancassem vivo o coração. Arrojou-se com todo o ímpeto de seu amor para chamar a esposa, que se separava dele pela eternidade. Era ela a primeira amada, e nesse momento a única. A ela devia pertencer exclusivamente; por isso iam unir-se outra vez; a morte que os tinha apartado não tardaria em ligá-los de novo, revertendo-os um ao outro. 

 

— Julieta! exclamou ele em um grito de ânsia. 

 

A esposa o tinha ouvido ali. Ali estava ela a seu lado. A luz desaparecera e os seus raios se haviam transformado em estrelas. Foi ao trêmulo dessa luz celeste que ele divisou a sombra amada. Ela trazia o seu traje favorito de baile, o mesmo com que a viu da primeira vez. 

 

Julieta lhe cingira o colo com o braço e ele sentia o doce contato do talhe gentil na sua espádua e no seu flanco. Depois a voz terna e queixosa da esposa murmurou-lhe ao ouvido como um arpejo: 

 

— Ingrato!... 

 

— Perdão, Julieta, perdão! Confesso que Amália me fascinou; mas o que eu amei nela foi unicamente a tua lembrança, a tua alma que às vezes eu ouvia em seus lábios, e via em seus olhos. O que era ela, e só ela, a sua beleza, essa eu a admirava; mas enchia-me de terror. Resistia à tentação, refugiando-me em teu amor; e se tu não me amparasses, teria sucumbido! Salvei-me, preservei minha alma; ela está pura como a deixaste, e vai reunir-se à tua pela eternidade. Eis o momento. Recebe-me em teu seio; não me deixes mais um instante neste mundo, pois aqui mesmo, perto de ti, próximo a infundir-me no teu ser, eu a vejo, eu a sinto, a ela, a Amália; e tenho medo que venha arrebatar-me de ti, e separar-nos para sempre. 

 

A voz de Julieta murmurava-lhe então ao ouvido: 

 

— Não tenhas este receio, meu Hermano. Queres saber por que tu vês Amália, em mim, em tua Julieta? É porque ela te ama como eu te amei, com igual paixão. Ela e eu não somos senão a mesma e única mulher que tu sonhaste. Podes dar-te a ela; é como se te desses novamente a mim. Vi que estavas triste e só no mundo; que a minha lembrança não te bastava, e então revivi em Amália, transmiti-lhe minh' alma para que fosse tua esposa; para que tu me adorasses em uma imagem viva, que te retribuísse, e não em uma estátua de cera. 

 

— Embora; estou cansado de viver; quero reunir-me a ti, em espírito, desprendendo-me dessa materialidade impura, que pode subjugar a alma, e arrastá-la ao crime. Amália é minha esposa perante os homens; e desde que nela está a alma de minha Julieta, ela é também minha esposa perante Deus; poderia pertencer-lhe legitimamente, porque te pertenceria a ti; mas essa poderosa sedução de sua beleza, se eu a sofresse de outra mulher?... Não passaria de novo pelo martírio que me atormentou?... Melhor é nos reunirmos no céu; recolhe a alma que deste a Amália, e leva-nos com ela. 

 

A voz melodiosa suspirou outra vez: 

 

— Queres morrer, meu Hermano? Queres deixar o mundo? Pois bem, dá-me tua alma: deixa-me absorvê-la na minha, e confundi-la que não formem senão uma só. Então abandonaremos a terra e iremos esconder-nos no seio de Deus, que nos criou. 

 

Então Hermano sentiu uns lábios que se embebiam nos seus e hauriam-lhe a vida. Esse beijo ideal foi como a inalação do espírito que animara o seu corpo e que, absorvido por Julieta, o desamparou. Desde esse momento ele não foi mais do que uma múmia. 

 

E assim, como um corpo ermo de vontade e pensamento, seguiu Julieta, ou melhor diria, a alma gêmea em que se tinham condensado a sua e a da esposa. Atravessaram uma série de anos; eram os de sua existência, cujo curso haviam remontado, e agora de novo repassam. Todas as fases de sua história, ele as reviveu com uma mulher que não era nem Julieta, nem Amália; mas as duas vazadas em um só molde. 

 

O passado e o presente se travavam e confundiam. O seu primeiro casamento, que fora de manhã, e o segundo, que celebrara à noite; as noivas, de tipos tão diversos; aqueles dois toucadores, um azul e branco, e outro rosa e ouro; todas essas coisas se haviam identificado. 

 

A mulher que ele amara tinha a beleza de Amália e a alma de Julieta. Com essa mulher percorreu toda a sua vida até aquele momento em que resolvera deixar o mundo para consumar o consórcio da eternidade. 

 

Uma nuvem branca e nítida vendava-lhe o céu. Ali estava um objeto cuja forma não distinguia; parecia-lhe  um altar; uma pira, onde o fogo ia consumir-lhe o corpo, depurando a alma e preparando-a para a bem-aventurança. 

 

(continua...)

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