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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

De repente as duas criaturas se confundiam, ou antes se transfundiam. Esse vulto gracioso de menina crescia, tornava-se donzela e revestia as prendas que ele invejava da Morena, para uma bonita moça. E daí, dessa alucinação dos espíritos, surgia um sonho ou visão, que um poeta chamara seu ideal; mas para o rude gaúcho era apenas seu feitiço. 

Essa visão tinha o moreno suave e o sorriso fagueiro da menina que ele vira em Jaguarão; mas sobretudo, a cintilação do olhar que lhe traspassara o coração como a faísca de um raio. 

Depois de semelhantes desvarios, ficava o gaúcho preso de um estranho acanhamento. Não se chegava para as duas criaturas; nem mesmo se animava a deitar-lhes os olhos. Se acaso alguma delas vinha fazer-lhe uma das costumadas carícias, o esquisito rapaz se afastava corando. Em compensação redobrava seu carinho pelo poldro. Abraçava-o com transportes veementes, e o envolvia da mística efusão paternal, que é uma refração do amor conjugal. Quando o homem estreita o filho ao coração, ele sente palpitar naquele tenro seio duas vidas; a primitiva donde ele gerou-se, que é uma vida dúplice e mútua, e a recente, borbulha ainda aderente ao tronco por dois pontos, a teta materna e a mão do pai. 

Não obstante o crescimento precoce de Juca, não quis Manuel embotar esse vigor nascente: deixou que se expandisse livremente na plenitude da natureza selvagem. Aos três anos porém atingira o potro seu completo desenvolvimento. Aquela gentileza infantil dos primeiros pulos cedeu ao arrojo viril do salto e ao passo altivo do corcel. O casco batia e escarnava o chão com ufania; já a pupila incendiava-se com os fogos da paixão, e o relincho, que ele soltava aos ares, tinha a máscula vibração do clarim.  

Enfim estava Juca um mancebo. 

Quem já provou o contentamento de se reviver no filho homem, compreenderá o que sentiu Manuel nesses dias. Pela primeira vez montou ele o soberbo ginete, e deu algumas voltas pelo campo. Insensivelmente lhe acudiu a lembrança daquele tempo em que seu pai, João Canho, o levava, a ele novato, em sua companhia para habituá-lo a viajar. 

Tinha Juca a beleza da mãe com que se parecia na elegância do talhe e esbelteza da forma. Entretanto sob essa estampa, igualmente fina e delicada, palpitava uma estrutura mais nervosa e robusta. A mesma roupagem dourada não tinha as suaves ondulações da baia; ao contrário, inflamava-se com vivos e brilhantes reflexos.  

 

XII 

CAMARADA 

 

Enquanto aí nesse canto desliza a existência obscura e tranqüila do Canho no seio da família, além ensaia-se o drama terrível que breve há de ensangüentar a província e transformá-la em um campo de batalha. 

Desenvolvia-se nesse momento o prólogo da revolução, que não tardaria a romper. 

Desde 1832, quando se realizou em Jaguarão o desarmamento de D. Juan Lavalleja pelo coronel Bento Gonçalves da Silva, plantaram-se na província os germes de uma conspiração, no sentido de proclamar a independência da república. O caudilho oriental tinha empregado os maiores esforços para fomentar essa propaganda, que favorecia seus planos de trêfega ambição. 

Data desse tempo a criação das sociedades secretas, ramificadas por todos os pontos da província. Aí se preparavam, sob a invocação de liberdade, os elementos políticos para a revolução, cuja tendência real havia de ser determinada no momento pelos homens de influência, que assumissem a direção dos acontecimentos. 

Retirando-se da província, onde permanecera algum tempo, Lavalleja, de volta a Buenos Aires, obteve para o futuro estado a proteção secreta de Rosas, já elevado à ditadura, pela necessidade da salvação pública, como o declarou o congresso. Acompanhara ao caudilho o Fontoura, que tão saliente papel veio a representar na república de Piratinim. Naturalmente assistiu ele às conferências onde se planejou a grande Confederação do Prata, formada dos três estados independentes: de Buenos Aires sob a ditadura de Rosas, Montevidéu sob a ditadura de Lavalleja, e Rio Grande sob a ditadura de Bento Gonçalves. 

Nesse partido que se preparava para a resistência armada, havia uma fração que era francamente republicana, e aspirava à independência para formação de um estado unido da grande  Confederação do Rio da Prata. O espírito republicano dominava essa fração a tal ponto que desvanecia de momento a repugnância tradicional das duas famílias da raça latina. Mais tarde essa antipatia se teria de manifestar, como sucedeu com a Cisplatina. 

Neto e Canabarro eram a alma da opinião republicana. 

A outra fração muito mais numerosa do partido da resistência não tinha idéias de separação e independência. Limitava-se a restaurar e manter o que chamava liberdade, palavra tão vaga na linguagem dos partidos, que em seu nome se cometem os maiores atentados contra a lei e a justiça. 

(continua...)

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