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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

"Simão, meu esposo. Sei tudo... Está conosco a morte. Olha que te escrevo sem lágrimas. A minha agonia começou há sete meses. Deus é bom, que me poupou ao crime. Ouvi a notícia da tua próxima morte, e então compreendi porque estou morrendo hora a hora. Aqui está o nosso fim, Simão!... Olha as nossas esperanças! Quando tu me dizias os teus sonhos de felicidade, e eu te dizia os meus!... Que mal fariam a Deus os nossos inocentes desejos?!... Porque não merecemos nós o que tanta gente tem?... Assim acabaria tudo, Simão? Não posso crê-lo! A eternidade apresenta-se-me tenebrosa, porque a esperança era a luz que me guiava de ti para a fé. Mas não pode findar assim o nosso destino. Vê se podes segurar o último fio da tua vida a uma esperança qualquer. Ver-nos-emos num outro mundo, Simão? Terei eu merecido a Deus contemplar-te? Eu rezo, suplico, mas desfaleço na fé quando me lembram as últimas agonias do teu martírio. As minhas são suaves; quase que as não sinto. Não deve custar a morte a quem tiver o coração tranqüilo. O pior é a saudade, saudade daquelas esperanças que tu achavas no meu coração, adivinhando as tuas. Não importa, se nada há além desta vida. Ao menos, morrer. Se tu pudesses viver agora, de que te serviria? Eu também estou condenada, e sem remédio. Segue-me, Simão! Não tenhas saudades da vida, não tenhas, ainda que a razão te diga que podias ser feliz, se me não tivesses encontrado no caminho por onde te levei à morte... E que morte, meu Deus!... Aceita-a! Não te arrependas. Se houver crime, a justiça de Deus te perdoará pelas angústias que tens de sofrer no cárcere... e nos últimos dias, e na presença da..."

Teresa ia escrever uma palavra, quando a pena lhe caiu da mão, e uma convulsão lhe vibrou todo o corpo por largo espaço. Não escreveu a palavra! Mas a idéia da força parou-lhe a vida. A freira entrou na cela a pedir-lhe a carta, porque o correio ia a partir. Teresa, indicando-lhe, disse:

— Leia, se quiser, e feche-a, por caridade, que eu não posso.

Nos três dias seguintes Teresa não saiu do leito. A cada hora as religiosas assistentes esperavam que ela fechasse os olhos.

— Custa muito morrer! — dizia algumas vezes a enferma.

Não faltavam piedosos discursos a divertirem-lhe o espírito do mundo, Teresa ouvia-os, e dizia com ânsia:

— Mas a esperança do céu, sem ele!... Que é o céu, meu Deus?

E o apostólico capelão do mosteiro não sabia dizer se os bens do céu tinham comum com os do mundo as delícias que falsamente na terra se chamam assim. Aquelas sutilezas espirituais que vêm com algumas espécies de física, assim à maneira dos últimos lampejos da vital flama, tinha-as a enferma, quando acontecia falarem-lhe as religiosas na bem-aventurança. Às vezes, se o capelão, convidado pela lucidez de Teresa, entrava os domínios da filosofia, tratando como tema a imortalidade da alma, a inculta senhora argumentava em breves termos, com razões tão claras a favor da união eterna das almas, já deste mundo esposas, que o padre ficava em dúvidas se seria herético contestar uma cláusula não inscrita em algum dos quatro evangelhos.

Maravilhava-se já a medicina da pertinácia daquela vida. Tinha a abadessa escrito a seu primo Tadeu, apressando-o a ir ver o anjo ao despedir-se da terra. O velho, tocado de piedade e por ventura de amor paternal, deliberou tirar do convento a filha, na esperança de salvá-la ainda, Uma forte razão acrescia àquela: era a mudança do condenado para os cárceres do Porto. Deu-se pressa, pois, o fidalgo, e chegou ao Porto a tempo que a religiosa, amiga da outra de Lamego, entregava à doente esta carta de Simão:

"Não me fujas ainda, Teresa. Já não vejo a forca, nem a morte. Meu pai protege-me, e a salvação é possível. Prende ao coração os últimos fios da tua vida. Prolonga a tua agonia, enquanto te eu disser que espero. Amanhã vou para as cadeias do Porto, e hei de ali esperar a absolvição ou comutação da sentença. A vida é tudo. Posso amar-te no degredo. Em toda a parte há céu, e flores, e Deus. Se viveres, um dia serás livre; a pedra do sepulcro é que nunca se levanta, Vive, Teresa, vive! Há dias, lembrava-me que as tuas lágrimas lavariam da minha face as nódoas do sangue do enforcado. Esse pesadelo atroz passou. Agora neste inferno respira-se; o esparto do carrasco já me não aperta em sonhos a garganta. Já fito os olhos no céu, e reconheço a providência dos infelizes. Ontem, vi as nossas estrelas, aquelas dos nossos segredos nas noites da ausência. Volvi à vida, e tenho o coração cheio de esperanças. Não morras, filha da minha alma!"

Ia alta a noite, quando Teresa, sentada no seu leito, leu esta carta. Chamou a criada, para ajudá-la a vestir, Mandou abrir a janela do seu quarto, e encostou as faces às reixas de ferro. Esta janela olhava para o mar, e o mar era nessa noite uma imensa flama de prata; e a Lua, esplendidíssima, eclipsava o fulgor dumas estrelas que Teresa procurava no céu.

— São aquelas! — exclamou ela.

— Aquelas que, minha senhora? — disse Constança.

— As minhas estrelas!... pálidas como eu... A vida! ai! a vida! — clamou ela, erguendo-se, e passando pela fronte as mãos cadavéricas — Quero viver! Deixaime viver, ó Senhor!

— Há de viver, menina! Há de viver, que Deus é piedoso! — disse a criada — mas não tome o ar da noite. Este nevoeiro do rio faz-lhe grande mal.

(continua...)

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