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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

E, certo de que o filho era um instrumento seguro para os seus projetos, escreveu uma extensa carta a Cecília, na qual procurava pintar o arrependimento que o pungia nessa ocasião, as saudades que o arrebatavam para ela, e o desejo apaixonado de ver e de beijar o seu querido filhinho. "Contento-me com pouco" dizia ele; desejo apenas, uma outra vez, contemplar o inocente fruto dos nossos amores infelizes. Sei que deve haver no seu coração, Cecília, muito ressaibo de desgosto; mas, se soubesse quanto tenho sofrido por amor disso, perdoava-me tudo! Oh! sofri muito! os remorsos não me desampararam um só instante o coração. Chorei muita lágrima! amarguei muito soluço! Entretanto era preciso resignar-me ao destino sombrio, que eu mesmo preparara para mim. Fui culpado! fui muito culpado, mas o arrependimento foi maior que a culpa. Não lhe peço que me ame; não lhe peço até que me perdoe, contanto que, se ainda existe no seu coração alguma coisa daquela ternura compassiva de outrora; se senão apagaram de todo aqueles piedosos sentimentos, que faziam da senhora uma santa e que depois fizeram de mim um mártir pelo remorso de não a ter adorado como devia e de não a ter merecido em castigo da minha maldade e da minha cegueira; se ainda existe no seu coração algum resíduo dessas virtudes, permita, por quem é, permita, pelo amor que tem naturalmente ao lindo ser que lhe saiu das entranhas, que eu abrace meu pobre filhinho! Estou convencido de que as lágrimas de um pai desgraçado não terão em resposta a indiferença e o desprezo... Oh! só agora acredito na cólera divina!"

Seguiam-se ainda algumas considerações sobre a fatalidade, sobre o destino e outros pretextos de que se costumam servir os sedutores malandros, terminando a carta por um formidável "Adeus", com ponto de admiração e reticências.

Pedro Ruivo contava seguro o efeito daquele chorrilho de falsidades.

— Em lendo isto, calculava ele, as lágrimas saltam-lhe dos olhos, e Cecília abre-me logo os braços. E, se assim não fosse, para que diabo servia então manterse a gente a aprender um bocado de retórica?...

Mas enganou-se: Cecília leu a carta sem a menor comoção e não deu resposta.

Depois de cinco dias encontraram-se de novo na rua: Desta vez o Ruivo não esperou que ela o lobrigasse, foi ao seu encontro; mas sofreu nova decepção, porque tinha como certo o sobressalto e o espanto de Cecília, quando esta aliás lhe falou sem se perturbar absolutamente.

— Que frieza!... disse consigo o velhaco, mordido no seu amor-próprio.

E vaidosamente procurou descobrir naquela própria indiferença um certo cunho de afetação, que traduzia o medo feito por ele a Cecília.

— Não quis então responder à minha carta?...

— Não, senhor. — E por quê?...

— Porque assim o entendi.

— Não consente então que eu de vez em quando abrace esta criança?...

— Não, e por quê?

— Por quê?! Ora essa! porque é meu filho!

— O senhor está gracejando com certeza!...

— Cecília! nega então que eu seja pai de seu filho?! — Com licença.

E a senhora afastou-se muito tranqüilamente.

Pedro Ruivo ficou deveras pasmado com aquela indiferença.

— Além de tudo, pensou ele, gesticulando sozinho, tem a finória o cinismo de negar que sou eu o pai do pequeno!... Ora esta! Confesso que não a supunha tão matreira!...

E depois de cogitar um plano de ataque, bateu com a mão na testa, e exclamou:

— Ah! Tenho uma idéia!

CAPÍTULO XIII

AS MÃES DE GREGÓRIO

O plano de Pedro Ruivo era atemorizar Cecília, ameaçá-la com um escândalo, obrigá-la a ceder pelo medo.

Aquele homem, que desprezara a ocasião em que a bela rapariga lhe franqueara a alma, impregnada de todos os perfumes da inocência e do amor, sentia-se agora estimulado brutalmente por um árdego desejo de possuí-la. A mesma fisionomia, os mesmos olhos, a mesma boca, o mesmo cabelo; tudo que dantes lhe parecia nela vulgar e sem interesse, agora ressurgia defronte do seu desejo por um prisma novo de sedução. A resistência de Cecília, o nenhum caso que ela mostrou pela aproximação de Pedro Ruivo, a sua desdenhosa indiferença, tão sincera e legitima quanto fora o primitivo arrebatamento, do seu amor, caíram sobre o coração do perjuro, espremendo-lhe de dentro todas as fezes da maldade.

— Se não consentires em falar comigo, escreveu ele, depois de outras tentativas, farei público o segredo de nosso filho; contarei a história do nosso amor e atrairei sobre tua cabeça a cólera de teu marido. Amo-te, já o sabes perfeitamente; não é meu filho o que me arrasta para ti, és tu própria! Se me quiseres atender, terás em mim um escravo submisso; se não quiseres, podes então contar com um inimigo implacável. Escolhe! Amanhã à noite estarei debaixo de tua janela; se me não apareceres, juro-te que farei o que disse. Não tens pretexto de recusa: teu marido está em caminho para o Brasil; previno-te de que qualquer cilada contra mim urdida, recairá sobre ti, que és a mais compromissível nesta empresa."

Essa ameaçadora carta produziu o efeito há tanto ambicionado pelo Ruivo: Cecília teve medo; teve medo e foi à entrevista, como já sabe o leitor.

(continua...)

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