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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Hermano freqüentou a casa do Coronel Soares. Pouco mais de mês depois do seu primeiro encontro com Julieta, manifestou-lhe os seus sentimentos, que aliás já eram conhecidos da moça, e pediu-lhe um consentimento, que tinha razão de esperar. 

 

Ela ficou um momento pensativa; depois disse com o tom grave de uma convicção profunda: 

 

— O casamento é uma fatalidade. 

 

Como Hermano interrogava-lhe o semblante para conhecer o sentido de suas palavras, ela acrescentou: 

 

— Meu marido há de pertencer-me de corpo e alma, como eu a ele, e para sempre. É assim que entendo o casamento. 

 

— Penso da mesma maneira. 

 

— Para sempre é eternamente. 

 

— Compreendi todo o seu pensamento, Julieta, e não imagina o meu júbilo por encontrar tão perfeita identidade de sentimentos na mulher a quem amo. Sempre acreditei que o casamento não deve ser uma simples união social, mas a formação da alma criadora e mãe, da alma perfeita, de que nós não somos senão as parcelas esparsas. Essa alma uma vez formada, só Deus a pode dividir e mutilar. 

 

O casamento realizou-se pouco tempo depois; e os noivos foram morar na casa de São Clemente, a qual tinha sido preparada com esmero para recebê-los. 

 

Abreu acompanhou sua filha de criação. Ele a tinha recebido em seus braços ao nascer, e contava não deixá-la senão quando Deus o chamasse. 

 

Capítulo 3 

 

Aquela casa de São Clemente foi para os noivos o ninho do amor e da felicidade; mas o ninho perene, sem estações, sem primavera, sem lua-de-mel. 

 

Essa ardente efusão de duas existências durava desde o primeiro instante, não tinha lapsos nem desmaios. 

 

Hermano aproximava-se dos trinta anos, e vivera muito nesse tempo. Julieta aos vinte anos não conhecia o mundo; e seu coração virgem era um manancial de ternura. 

 

Que diálogo inefável entre aquela inteligência pródiga e essa inocência ávida de saber, rica de afeto? 

 

O passado de Hermano, desde a primeira infância até o casamento, Julieta queria vivê-lo, dia por dia, hora por hora, se fosse possível, para amar seu marido em cada um desses momentos anteriores a ela. 

 

O presente não lhe bastava. nem o futuro. Carecia de remontar-se à origem dessa existência que lhe 

pertencia, para soldá-la ainda mais intimamente a si, de modo que não lhe fosse possível marcar a época de sua união. Então o casamento teria sido apenas a consagração social do vínculo de duas almas gêmeas 

 

Por seu lado Hermano sentia também a necessidade de vazar no coração ingênuo e casto da esposa, como em um crisol, os seus pensamentos, as idéias de que a sociedade o imbuíra; e assim apurar sua consciência naquela chama celeste. 

 

Sua individualidade, escoimando-se da liga mundana, apagando os traços de uma mocidade fácil, identificava-se de mais em mais com o espírito puro e imaculado da moça; e embebia-se nele como o raio do sol que se infunde na seiva da árvore e gera a flor. 

 

Hermano e sua mulher freqüentavam a sociedade onde os chamavam suas relações. Iam, porém, aos divertimentos unicamente para se desobrigarem de um dever de cortesia e posição; ou talvez para certificarem-se de que nada faltava à sua felicidade. 

 

Depois de uma ou duas horas passadas no teatro ou nos salões, recolhiam-se pressurosos à sua casa e ao seu amor. 

 

Duas vezes por mês reuniam as famílias de sua amizade. Essas longas noites, em que se deviam a seus convidados, eram uma ausência, uma separação para eles. Tinham o mundo entre si. 

 

Que saudades não sentiam um do outro nesses momentos; e com que anelos encontravam-se de novo na sua querida solidão? 

 

Amália era então uma criança de nove anos. No dia do casamento tinha vindo do colégio passar o domingo com a família. À noite vira a chácara vizinha iluminada e os noivos que chegavam com grande acompanhamento de carros. 

 

Reparando na elegância e garbo do par que subia as escadas de pedra alcatifadas de fino tapete, a menina pensou no dia de seu casamento; e desejou que seu noivo fosse tão lindo como aquele. 

 

Nos outros domingos que passava em casa, quando chegava à janela, via os noivos sempre juntos passeando no jardim, ou sentados em um banco à sombra dos bambus. 

 

Um dia ardeu-lhe a curiosidade de espiar os aposentos da noiva. O fundo da chácara dava para a montanha; e o declive fora cortado em socalco com terraços que se sucediam em degraus. 

 

(continua...)

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