Por Martins Pena (1848)
MARIANA – Isso lhe digo eu sempre, e ela o faz. Olhe, compadre, quanto a isso puxou cá à pessoa... O meu defunto não via bóia comigo...
CENA VII
Os mesmos e FELISBERTO.
FELISBERTO – Adeus, tia; vou-me embora.
MARIANA – Vem cá, rapaz.
FELISBERTO – O que quer?
MARIANA – Ó compadre, você não achará um arranjo para este rapaz?
SOUSA – Fraco empenho sou eu, comadre.
FELISBERTO – Não preciso de arranjo.
MARIANA – É melhor trocar as pernas por essas ruas como um valdevinos, em risco de ser preso para soldado? Andar sempre pingando e sem vintém para comprar uma casaca nova? Vê como os cotovelos desta estão rotos, e esta calça, como está safada.
FELISBERTO – Assim mesmo é que eu gosto... É liberdade! Cada um faz o que quer e anda como lhe parece. Não nasci para me assujeitar a ninguém.
MARIANA – Ai, que modo de pensar é esse? Então, compadre, não descobre nada?
SOUSA . – Eu? Só se ele quer também pedir esmolas; posso arranjar-lhe uma opa.
MARIANA – Lembra muito bem. Ó sobrinhozinho, queres pedir esmolas?
FELISBERTO, insultado – Pois tia Mariana, acha que eu nasci para pedir esmolas? Isto é insultar-me! E o Sr. Sousa...
SOUSA – Eu digo: no caso de querer...
MARIANA – Estou vendo que nasceste para príncipe... Já te não lembras que teu pai era malsim?
FELISBERTO – Isto foi meu pai; eu não tenho nada com isso.
SOUSA – Pedir para os santos é uma profissão honesta.
MARIANA – Que não desonra a ninguém. Veste-se uma opa, entra-se pelas casas...
FELISBERTO, à parte – Entra-se pelas casas...
MARIANA – ... bate-se à escada, e se se demoram a vir saber quem é, assenta-se o homem um momento, descansa...
FELISBERTO, embebido numa idéia, sem ouvir a tia – Entra-se pelas casas...
MARIANA – ... vem o moleque ou a rapariga trazer o vintenzinho...
FELISBERTO – Pois bem, tia, quero-lhe fazer o gosto; pedirei hoje esmola; até para ver se o ofício me agrada.
MARIANA – Sempre te conheci muito juízo, sobrinhozinho. O compadre arranja-lhe a opa?
SOUSA – Fica a meu cuidado.
MARIANA – Muito bem. E dê-me licença, que vou acabar de me vestir. (Sai.)
CENA VIII
SOUSA e FELISBERTO; [e depois JORGE.]
FELISBERTO, à parte – Não me lembrava que opa, às vezes, dá entrada até o interior das casas...
SOUSA – Vamos?
FELISBERTO – Quando quiser. (Encaminham para a porta do fundo; Jorge entra e passa por entre eles.)
SOUSA, para Jorge, quando passa – Um seu criado, Sr. Jorge. (Jorge não corresponde o cumprimento e dirige-se para a porta da direita.)
FELISBERTO, voltando-se – Malcriado! (Jorge, que está junto à porta para sair, volta-se.)
JORGE – Hem?
FELISBERTO, chegando-se para ele – Digo-lhe que é um malcriado!
JORGE, com energia – Isso é comigo?
FELISBERTO – É sim.
JORGE, vindo para a frente da cena. – Há muito tempo que eu procuro esta ocasião para nos entendermos.
FELISBERTO – Muito estimo. (Arregaça as mangas da casaca.)
SOUSA – Acomodem-se...
JORGE – O senhor tem tomado muitas liberdades em minha casa.
FELISBERTO – Primeiramente, a casa não é sua; e segundo, hei de tomar as liberdades que bem me parecerem.
SOUSA – Sr. Felisberto!...
JORGE – O senhor entra por aqui e não faz caso de mim?
FELISBERTO – E que figura é o senhor para eu fazer caso?
SOUSA – Sr. Jorge!... (Metendo-se no meio.)
JORGE – Chegue-se para lá; deixe-me, que estou zangado. O senhor fala com minha mulher em segredo, na minha presença...
FELISBERTO – Faço muito bem, porque é minha prima.
JORGE, gritando e batendo com os pés – Mas é minha mulher! E sabe que mais? É por consideração a ela que agora mesmo não lhe esmurro estas ventas. (Sai com passos largos.)
FELISBERTO – Anda cá! (Quer segui-lo; Sousa o retém.)
SOUSA – Aonde vai?
FELISBERTO, rindo-se – Ah, ah, ah! Não sei aonde foi a prima achar este côdea para marido. Tenho-lhe dito muitas vezes que é a vergonha da família.
SOUSA – É um homem sem princípios!
FELISBERTO – Eu regalo-me de não fazer caso nenhum dele... (Ouvem-se gritos dentro.) Ouça, ouça! Não ouve esses gritos? É a tia e a prima que andam com ele às voltas. Ah, ah!
SOUSA – Deixá-lo, e vamos, que se vai fazendo tarde. (Saem ambos, rindo-se.)
CENA IX
Entra JORGE desesperado.
(continua...)
PENA, Martins. Os Irmãos das Almas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2161 . Acesso em: 30 jan. 2026.