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#Comédias#Literatura Brasileira

Verso e Reverso

Por José de Alencar (1857)

Ernesto — Deixe ver. (Abre o papel) Ah! uma subscrição! Por isso é que os tais amigos se puseram todos ao fresco, fazendo-se desentendidos; um tinha pressa, o outro esqueceu os óculos. (Fecha) Desculpe, minha Sra.; não posso dar nada; tenho feito muitas despesas.

D. Luísa — Pouco mesmo que seja; tudo serve. É para fazer o enterro do meu pobre marido que expirou esta noite e deixou-me ao desamparo com oito filhinhos... — Pobre mulher! Para esta não há um benefício! Mas diga-me, seu marido nada possuía? A Sra. não tem parentes?

D. Luísa — Nem um; não tenho ninguém de quem me valer. Acredite, Sr., que para chegar a este estado de recorrer à piedade dos que não me conhecem, foi preciso ver meus pobres filhinhos nus, e chorando de fome, os coitadinhos.

Braga (dentro do balcão) — Temos choradeira!

Ernesto — Corta o coração, não acha? Torne, minha Sra.; sinto não poder dar mais; porém não sou rico. (Dá uma nota)

D. Luísa (Examinando a nota) — Cinco mil-réis!... (Olha Ernesto com ar de zombaria e sai).

Ernesto — E esta! Nem sequer um obrigado; julga que não lhe fiz favor?

Braga — Ora o Sr. ainda deixa-se lograr por esta gente?

Ernesto — E o Sr. não viu? Por que não me avisou?

Braga — Não gosto de me intrometer nos negócios dos outros.

Ernesto — Boa moral!... Oh! mas esta não aturo.

(Vai sair correndo e encontra-se com Teixeira, Júlia e D. Mariana que entram)

CENA XII

Ernesto, Teixeira, Júlia, D. Mariana, Braga

Ernesto — Ah!...

Júlia — Ernesto!

Teixeira — Bom dia, sobrinho.

Ernesto — Adeus, meu tio. D. Mariana... Como está, prima?

Júlia — Boa, obrigada.

Ernesto — Anda passeando?

Júlia — Não; vim fazer algumas compras.

Teixeira — Júlia, enquanto ficas vendo as fazendas com D. Mariana, vou à Praça e já volto.

Júlia — Sim, papai; mas não se demore.

Teixeira — um instante! (Sai)

Braga (fora do balcão) — O que deseja V.Ex.a?

Júlia — Alguns cortes de musselina e barege.

Braga — Temos lindíssimos, do melhor gosto, chegados no paquete, da última moda; hão de agradar a V. Ex.a; é fazenda superior.

Júlia — Pois deite-os lá dentro que já vou escolher.

Braga — Sim, Sra.; V.Ex.a há de ficar satisfeita. (Sobe a cena com D. Mariana).

Ernesto — Como, prima! A Sra. já tem excelência?

Júlia (sorrindo) — Aqui na corte todo o mundo tem, Ernesto. Não custa dinheiro.

Ernesto — Entendo! Entendo! Mais esta singularidade para as minhas notas.

Braga (dentro do balcão à D. Mariana) — Sim, minha Sra.; tenha a bondade de esperar um momento; já venho mostrar-lhe fazenda que há de agradar-lhe.

(Júlia senta-se)

CENA XIII

Ernesto, Júlia, D. Mariana, depois Braga



Júlia — Diga-me, Ernesto, como tem achado o Rio de Janeiro?

Ernesto — Quer que lhe confesse a verdade, Júlia?

Júlia — Decerto, primo; não há necessidade de encobrir. Já sei que não gostou?

Ernesto — Ah! Se fosse só isso! (D. Mariana desce)

Júlia — O que é mais então?

Ernesto — Sinto declarar; mas o seu Rio de Janeiro é um verdadeiro inferno!

D. Mariana — Com efeito, Sr. Ernesto!

Júlia — Não diga isto, primo.

Ernesto — Digo e repito; um verdadeiro inferno.

Júlia — Mas por quê?

Ernesto — Eu lhe conto. Logo que cheguei, não vi, como já lhe disse, no aspecto geral da cidade, nada que me impressionasse. Muita casa, muita gente, muita lama; eis o que há de notável. Porém isto não é nada; de perto é mil vezes pior.

Júlia — E depois? Quando passeou?

Ernesto — Quando passeei? Por ventura passeia-se no Rio de Janeiro? O que chama a senhora passear? É andar um homem saltando na lama, como um passarinho, atropelado por uma infinidade de carros, e acotovelado por todo o mundo? É não ter um momento de sossego, e estar obrigado a resguardar os pés de uma carroça, o chapéu de um guarda-chuva, a camisa dos respingos de lama, e o ombro dos empurrões? Se é isto que a senhora chama passear, então sim, admite que se passeie no Rio de Janeiro; mas é preciso confessar que não são muito agradáveis esses passeios.

Júlia — Já vejo que o primo não gosta da sociedade; é mais amigo da solidão.

D. Mariana (no balcão vendo fazendas) — Pois em um moço admira.

(continua...)

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