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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Do que você, Aurélia? Há de ser difícil que se encontre em todo o Rio de Janeiro outra moça que tenha a sua educação. Lá mesmo, por Paris, de que tanto se fala, duvido que haja. 

- Obrigada! É esta a sua franqueza, D. Firmina? 

- Sim senhora; a minha franqueza está em dizer a verdade, e não escondê-la. Demais, isso é o que todos vêem e repetem. Você toca piano como  o Arnaud, canta como uma prima-dona, e conversa na sala com os deputados e os diplomatas, que eles ficam todos enfeitiçados. E como há de ser assim? Quando você quer, Aurélia, fala que parece uma novela. 

- Já vejo que a senhora não é nada lisonjeira. Está desmerecendo no meus dotes, acudiu a menina sublinhando a última palavra com um fino sorriso de ironia. Então não sabe, D. Firmina, que eu tenho um estilo de ouro, o mais sublime de todos os estilos, a cuja eloquência arrebatadora não se resiste? As que falam como uma novela, em vil prosa, são essas moças românticas e pálidas que se andam evaporando em suspiros; eu falo como um poema: sou a poesia que brilha e deslumbra! 

- Entendo o que você quer dizer; o dinheiro faz do feio bonito, e dá tudo, até saúde. Mas repare bem, os seus maiores admiradores são justamente aqueles que  não podem pretender sua riqueza; uns casados, outros já velhos... 

- Quando pela primeira vez fumaram perto da senhora, não sentiu alguma coisa, um atordoamento?... Pois o ouro tem uma fumaça invisível, que embriaga ainda mais do que a do charuto de Havana, e até mesmo do que a desse nojento cigarro de papel, com que os rapazes de hoje se incensam. Toda essa gente que rodeia um velho ricaço, ministro, senadores e fidalgos, de certo não espera casar-se com a burra do sujeito; mas sofre a atração do dinheiro. 

- Agora mesmo, Aurélia, você está me dando razão e mostrando sua instrução. Quem há de dizer que uma menina de sua idade sabe muito mais do que muitos homens que aprenderam nas academias? E assim é bom; porque senão, com a riqueza que lhe deixou seu avô, sozinha no mundo, por força que havia de ser enganada. 

- Antes fosse! Murmurou a moça recaindo em sua meditação. 

D. Firmina ainda proferiu algumas palavras em continuação da conversa, mas notou que a moça não lhe prestava a menor atenção, antes parecia esquivar-se de qualquer impressão exterior, para mais profundamente reconcentrar-se. 

Então com o tacto dessas almas feitas para a domesticidade moral, ergueu-se; e trocando alguns passos pela sala, disfarçou a reparar nas estatuetas de alabastro e vasos de porcelana colocados no mármore vermelho dos consolos. 

Assim de costas para a conversadeira, mostrava-se despercebida daquele enlevo de Aurélia, a quem de certo havia de contrariar, quando voltasse da distração à presença de uma pessoa a escrutar-lhe nos gestos o segredo dos pensamentos. 

Não teriam decorrido cinco minutos quando ouvia D. Firmina um som trépido e cristalino, que ela bem conhecia por tê-lo muitas vezes escutado. Voltou-se e viu Aurélia, cujos lábios de nácar vibravam ainda com o harpejo daquele ríspido sorriso. 

A gentil menina surgira de sua pensativa languidez, como uma estátua de cera que transmutando-se em jaspe de repente, se erigisse altiva e desdenhosa, desferindo de si os lívidos e fulvos reflexos do mármore polido. 

Ela caminhou para as janelas, e com petulância nervosa, suspendeu impetuosamente as duas venezianas, que pareciam um peso excessivo para sua mão fina e mimosa. 

A torrente da luz precipitando-se pela abertura das janelas, encheu o aposento; e a moça adiantou-se até a sacada, para banhar-se nessas cascatas de sol, que lhe borbotavam sobre a régia fronte coroada do diadema de cabelos castanhos e desdobravam-se pelas formosas espáduas como uma túnica de ouro. 

Embebia-se de luz. Quem a visse nesse momento assim resplandecente, poderia acreditar que sob as pregas do roupão de cambraia estava a ondular voluptuosamente a ninfa das chamas, a lasciva salamandra, em que se transformara de chofre a fada encantada. 

Depois de saturar-se de sol como a alva papoula, que se cora aos beijos de seu real amante, a moça dirigiu-se ao piano e estouvadamente o abriu. Dos turbilhões da estrepitosa tempestade cromática, que revolvia o teclado, desprendeu-se afinal a sublime imprecação da Norma, quando rugindo ciúme, fulmina a perfídia de Polião. 

(continua...)

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