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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

— Hoje em Jaguarão; e daqui a oito dias, Deus sabe aonde! Talvez contigo, pai, lá em cima; murmurou o gaúcho engolfando os olhos no límpido azul do céu.  

Meia hora não tinha decorrido, que o gaúcho levantou-se de um salto, e tirou do céu da boca o som com que a gente do campo costuma falar aos animais. A tropilha que pastava ali perto, conduzida pelo morzelo, aproximou-se gambeteando.

— Cá, Ruão! 

Arreado o animal, pulou o gaúcho na sela e atravessando o rio, partiu a galope. 

Seriam cinco horas e meia, quando no azul diáfano do horizonte se desenhou iluminada pelo arrebol da tarde a torre da igreja do Espírito Santo, que servia de matriz à vila de Jaguarão. 

Receoso talvez de que o último raio do sol se apagasse, deixando-o ainda em caminho, o gaúcho afrouxou as rédeas ao Ruão, que lançou-se como uma flecha. 


III 

O AGOURO 

 

Sobre uma pequena ondulação, que cingem de um e outro lado dois pequenos córregos, está assentada a cidade, então vila de Jaguarão, à margem esquerda do rio do mesmo nome. 

Naquela tarde do dia 29 de setembro de 1832, havia no povoado uma agitação, que indicava algum fato extraordinário. Os habitantes em turmas enchiam as ruas, e especialmente a das Palmas, que fica fronteira ao quartel. 

A razão desse ajuntamento, e do alvoroto que se percebia entre o povo, podia conhecê-la quem se desse ao trabalho de escutar as falas daqueles bandos de curiosos.  

— Foram batidos? 

— Completamente. Rivera caiu sobre eles que foi uma lástima. 

— E Bento Gonçalves os prendeu? 

— Não vai desarmá-los? 

— Ande lá, acudiu um tropeiro, que o Lavalleja é um duro. Há de tirar a desforra. 

Com efeito, Juan Lavalleja, o herói da independência de Montevidéu, sua pátria, tendo-se revoltado contra o Presidente da República, Frutuoso Rivera, fora afinal derrotado pelas forças legais e obrigado a passar a fronteira. 

Pisando território brasileiro foi o caudilho intimado pelo coronel Bento Gonçalves, comandante da fronteira do Jaguarão, para entregar as armas, ao que submeteu-se sem resistência.  

Fronteiro ao quartel, e em face da nossa tropa, formou a força rebelde. Os soldados com o semblante carregado esperavam o momento solene de depor as armas. O sentimento dessa humilhação era partilhado por grande parte da população, imbuída de certo espírito militar.  

Lavalleja dirigiu a seus companheiros de infortúnio palavras de animação, que produziram efeito contrário. A cólera concentrada prorrompeu em queixas amargas e violentas recriminações. 

Afinal consumou-se o ato. Os soldados deixaram as armas em terra, e foram recolhidos presos ao quartel. D. Juan Lavalleja entregou a espada ao coronel Bento Gonçalves, que o hospedou em sua casa, enquanto não lhe dava destino. 

Dispersava-se o povo, comovido pela triste cerimônia, quando o galope do cavalo de Manuel Canho ressoou no princípio da Rua das Trincheiras. 

O gaúcho apeou à porta de uma venda que dava pousada. Depois de recolher seus animais ao potreiro, e guardar os arreios no canto que lhe destinaram, sentou-se no alpendre e pediu uma cuia de mate. 

Já sabia o que desejava. O coronel estava na vila; logo mais, quando ele tivesse dado as providências sobre o destino da gente desarmada, iria o rapaz procurá-lo. 

No alpendre estava diversas pessoas conversando sobre o acontecimento do dia: 

— Se é verdade o que dizem, observou um seleiro com ar de mistério, o coronel não desarmou o homem lá muito pelo seu gosto. 

— Ora esta do Lucas Fernandes! Se ele não quisesse, quem o obrigava? Não é assim? 

— Decerto! 

— Ainda não é tempo. 

— De quê? perguntou um ferrador. 

— Olhem; desta ninguém me tira. O coronel antes queria ter filado o Frutuoso, do que o Lavalleja! 

— Mas por quê, Félix? 

— Vocês verão. 

O coronel Bento Gonçalves da Silva, veterano da guerra da Cisplatina e comandante da fronteira de Jaguarão e Bagé, era então o homem mais respeitado em toda a campanha do Rio Grande do Sul. Franco e generoso, bravo como as armas, vazado na mesma têmpera de Osório e Andrade Neves, montando a cavalo como o Cid campeador, era Bento Gonçalves o ídolo da campanha. 

Os homens o adoravam; as mulheres o admiravam. O mais sacudido rapaz achava coisa muito natural que as moças bonitas chegassem à janela para ver passar o elegante velho, com seu talhe alto e espigado, e seu peito amplo e bombeado como a petrina do brioso ginete. 

(continua...)

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