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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

PEDRO - É só o que sabe fazer; enredo da gente! Nhonhô não vê que é de brincadeira. Olhe este livro; tem pintura também; mulher bonita mesmo! (Abre o livro.)

JORGE - Deixa ver! Bravo!... Que belo! (Tirando um papel.) Que é isto?

PEDRO - Um verso!... Oh! Pedro vai levar à viúva!

JORGE - Que viúva?

PEDRO - Essa que mora aqui adiante!

JORGE - Para quê?

PEDRO - Nhonhô não sabe? Ela tem paixão forte por Sr. moço Eduardo; quando vê ele passar, coração faz tuco, tuco, tuco! Quer casar com doutor.

JORGE - E mano vai casar com ela?

PEDRO - Pois então! Mas não vá agora contar a todo o mundo.

JORGE - E ele gosta daquela mulher tão feia? Antes fosse com D. Henriqueta.

PEDRO - Menino não entende disto! Sinhá Henriqueta é moça bonita mas é pobre! A viúva é rica, duzentos contos! Sr. moço casa com ela e fica capitalista, com dinheiro grosso! Compra carro e faz Pedro cocheiro!... Leia o verso, nhonhô.

JORGE - Deixa-me; não estou para isto!

PEDRO - Ah! Se Pedro soubesse ler (sentando-se) fazia como doutor, sentado na poltrona, com o livro na mão e puxando só a fumacinha do havana. Por falar em havana. .. (Ergue-se, vai à mesa e mete a mão na caixa dos charutos.) Com efeito! Sr. moço Eduardo está fumando muito! Uma caixa aberta ontem; neste jeito acaba-me os charutos.

JORGE - Ah! tu estás tirando os charutos de mano!

PEDRO - Cale a boca, nhonhô Jorge! É para fumar quando nós formos passear lá na Glória, de tarde.

JORGE - Amanhã?

PEDRO - Sim.

JORGE - Eu vou pedir a mamãe.

PEDRO - Espere, deite sobrescrito neste verso, roxo, não; viúva não gosta desta cor; verde, cor de esperança!

JORGE - Toma!

PEDRO - Pronto!... Agora Pedro chega lá, deita na banquinha de costura, volta as costas fazendo que não vê! Ela, fogo! (Finge que beija.) Lê. E guarda no seio, tal qual como se o Sr. moço mandasse. O pior é se vai perguntar, como outro dia, por que Sr. moço não vai visitar ela; eu respondi que era para não dar que falar; mas viúva não quer saber de nada; está morrendo por tomar banho na igreja para deixar vestido preto!

JORGE - Então tu levas versos a ela sem mano mandar?

PEDRO - Pedro sabe o que faz! Agora veja se vai contar!

JORGE - Eu não!! Que me importa isto!


CENA IX

PEDRO, ALFREDO


ALFREDO - O Dr. Eduardo não está?

PEDRO - Não, senhor; saiu, Sr. Alfredo!

ALFREDO - Então, já entregaste?

PEDRO - Hoje mesmo!

ALFREDO - A resposta?

PEDRO - Logo; é preciso dar tempo. V.Mce. cuida que moça escreve a vapor! Pois não; primeiro passa um dia inteiro a ler a carta, depois outro dia a olhar assim para o ar com a mão no queixo, depois tem dor de cabeça para dormir acordada; por fim vai escrever e rasga um caderno de papel.

ALFREDO - Parece-me que tu me estás enganando; não entregaste a carta a D. Carlotinha, e para te desculpar me contas estas histórias.

PEDRO - Não sou capaz de enganar a meu senhor.

ALFREDO - Pois bem; o que disse ela quando recebeu?

PEDRO - Perguntou quem era V.Mce.

ALFREDO - E tu, que respondeste?

PEDRO - Ora, já se sabe: moço rico bem parecido.

ALFREDO - Quem te disse que eu era rico? Não quero passar pelo que não sou.

PEDRO - Não tem nada; riqueza faz crescer amor.

ALFREDO - Também sabes isto?... Mas depois, que fez ela da carta?

PEDRO - Deitou no bolso. Fui eu que deitei; mas é o mesmo. 

ALFREDO - Como? Foste tu que deitaste...

PEDRO - No bolso do vestido! Ela estava com vergonha. Sr. Alfredo não sabe moça como é, não?

ALFREDO - Bem; olha que espero a resposta!

PEDRO - Dê tempo ao tempo, que tudo se arranja.

 

CENA X

Os mesmos, CARLOTINHA


CARLOTINHA (fora) - Pedro!

PEDRO (puxando ALFREDO para a porta) - É nhanhã!

ALFREDO - Não faz mal!

PEDRO - Este negócio assim não está bom, não!

ALFREDO - Por quê?

CARLOTINHA - Moleque, tu tiveste o atrevimento... (Vendo ALFREDO) Ah!

ALFREDO - Perdão, minha senhora; procurava o Dr. Eduardo.

CARLOTINHA - Ele saiu... Eu vou chamar mamãe...

ALFREDO - Não precisa, minha senhora, eu me retiro já; mas antes desejava ter a honra de...

PEDRO (baixo, puxando-lhe pela manga) - Não assuste a moça! Senão está tudo perdido.

ALFREDO - E não hei de fazer a declaração do meu amor?

PEDRO - Qual declaração! Já não se usa!

ALFREDO - Então julgas que não devo falar-lhe?

PEDRO - Nem uma palavra. Mostre-se arrufado, que é para ela responder. Moça é como carrapato, quanto mais a gente machuca, mais ela se agarra. ALFREDO - Ah! Ela não quer responder-me! (Cumprimenta friamente.)

CARLOTINHA - Não espera por mano?

ALFREDO - Obrigado; não desejo incomodá-la.

(continua...)

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