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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Descoberta da Índia

Por Coelho Neto (1898)

N'esse ponto do dia os sinos da capella repicaram com mais alacridade e logo correu um murmurio entre os do povo e foram-se as alas alargando porque, á portaria santa, entre os veneraveis freires do convento de Thomar e entre os officiaes da frota, todos com cirios accesos e contrictos, appareceu o valoroso capitão mór da expedição.

Era homem de vulto e de aspecto magestoso, firme como uma torre; a barba farta descia-lhe ao peito que uma couraça luzida forrava e os olhos tinham tanto imperio que só de os ver humilhavam-se quantos os buscavam.

As vozes dos clerigos subiram no silencio, ao sol, entoando a ladainha que o povo acompanhava com devoto acatamento e a procissão lenta, grave, foi descendo á praia pelas hervas de cheiro com que haviam juncado o caminho.

O sino passara dos repiques alegres aos dobres compassados e tristes, e atravez do canto sacro e do farfalhar cadenciado dos passos vagarosos, ouvia-se o pungitivo lamento dos parentes que seguiam os seus naquella hora amarga e contristada do adeus.

Os mesmos homens que alli haviam chegado por simples curiosidade, tocados por tamanha lastima, sentiam-se commovidos. O Gama, emtanto, sem dar mostras de tristeza, antes, d'olhos ao longe, nas suas velas, parecia querer encurtar o espaço que d'ellas o separava para abril-as, quanto antes, e sair n'aquelle vento pondo-se de rumo ao mar.

Já os bateis balouçavam-se junto á lingueta com a guarnição a postos esperando os que deviam seguir para as naus fundeadas em mais agua, ao largo, quando o cortejo parou ajoelhando-se todos os mareantes e os do povo. Então os clerigos cantaram profundamente e o vigario da capella, estendendo as mãos brancas, com os olhos no céu puro, fez, em voz alta, uma confissão geral e aquelles homens de guerra que se iam abarbar com o desconhecido, intrepidos para as luctas a ferro e fogo, curvados, batendo nos peitos com verdadeira e intensissima fé, escutavam as palavras do ministro de Deus que os ia absolvendo para que os não tomasse a morte em culpa no caso de ella sair adiante da Fortuna com a qual todos, por verem o Gama, seguramente contavam.

Finda a ceremonia quizeram todos beijar a mão do sacerdote e, emquanto assim procediam, sempre prosternados, na turba multa mulheres desmaiavam e o pranto corria copioso dos olhos dos que ficavam. Só o velho, na pedra em que jazia, tinha calma de coração para aquelle espectaculo e, quando Vasco da Gama, com um derradeiro e

extremoso olhar á ermida, avançou para o batei que o devia conduzir, o velho acenou lentamente com a mão encarquilhada despedindo-se:— « Que vades bem! Que vades bem!» E os sinos repi-caram em festa como se já saudassem um triumpho.

Os remos afundaram n'agua e, um a um, foram-se todos os bateis em demanda das naus que arfavam, douradas pelos raios do sol. O povo, sem arredar se do Restello, queria ver a partida. Ao refrescar da tarde quando os rouxinóes saíam da espessura cedendo o lugar ás cotovias, foram-se os pannos abrindo.

As naus balouçavam-se brandamente, arfando; as proas, de manso, abriam as aguas lustrosas, depois, n'uma lufada, tufaram-se as velas mostrando os grandes cruzeiros que n'ellas iam estampados, desfraldaram-se as bandeiras arvoradas, soaram vibrantes charamellas mas, a um tempo, em todas, largaram-se cutellos e varredouras e, rio abaixo, com a brisa propicia, foram singrando as naus fugindo á Patria para engrandecel-a e honral-a. O povo se foi dispersando porque o rio ficou solitario e o velho, com o seu cão, deixou-se estar, d'olhos perdidos e, só então, em soledade e silencio, uma lagrima molhou a sua face rugosa. E a lua grande, subindo, estendeu um alvo clarão sobre a cidade quieta.

MONTANDO O CABO

III

Já a vista pouco e pouco se desterra

D'aquelles patrios montes que ficavam:

Ficava o caro Tejo e a fresca serra

De Cintra, e n'ella os olhos se alongavam;

Ficava-nos tambem na amada terra

O coração que as magoas lá deixavam;

E já depois que toda se escondeo,

Não vimos mais em fim que mar e ceo.

(CAMÕES — Os Lusiadas; canto V.)

Foram-se as naus amarando a todo panno, nem tão dispersas que se não avistassem, nem tão chegadas que abalroassem a uma volta dos ventos desencontrados, e, seguia-as, de conserva, uma naveta da carreira do trafico, ao mando de Bartholomeu Dias, que obtivera permissão para chegar, ao longo da costa africana, até S. Jorge da Mina, em commercio, não só pelo muito que fizera descobrindo e transpondo o Cabo como tambem pelo empenho com que se portara na fiscalisação dos serviços quando ainda as naus jaziam na envasadura dos estaleiros.

Receoso o Gama de que, por assalto dos ventos, houvesse algum desvio, entrou em concerto com os capitães para que uns aos outros esperassem á vista das Ilhas do Cabo Verde, em caso de extravio, e assim ficou ajustado.

(continua...)

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