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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

Já não podia haver dúvida! Era ela! Era minha mulher! Era Margarida.

Quando voltei a mim da última revelação do carregador, este já não estava em minha presença, ao passo que a Francesa, que lhe servira de comparação para me dar idéia do tamanho da sujeita, permanecia ao meu lado e observava-me de um modo estranho.

Eu, porém, não me sentia disposto a prestar-lhe atenção e corri a tomar o bonde das Barcas Ferry.

Eram cinco e meia; ainda tinha tempo talvez de encontrá-los nas ruas de Niterói. Entrei na estação como um louco, procurando descobrir em todas as pessoas, em todas as coisas um indício que me pudesse elucidar naquela conjuntura.

Nada! nada!

Fui para bordo, assentei-me ao canto de um banco no tombadilho, e confesso que nunca achei que as Barcas Ferry caminhavam tão devagar. Sentia ímpetos de atirar-me ao mar; uma vontade dolorosa de chorar estrangulava-me a garganta. Não podia estar quieto, ergui-me, dei algumas voltai pelo tombadilho e afinal desci.

Imagine, Sr. Redator, qual não foi a minha surpresa quando, na primeira fisionomia que meus olhos descobriram, reconheci a mesma Francesa que servira de comparação ao homem do ganho.

“Será talvez uma coincidência...” pensei, e resolvi não mais cuidar disso.

Mas a Francesa se havia levantado e, vindo ter comigo, disse em meia-língua.

- Se quiser saber o que foi feito deles, acompanhe-me, quando chegarmos.

Quis pedir mais algumas explicações, mas a Francesa, como se a coisa não fosse com ela, afastou-se e retomou na barca o lugar que havia abandonado e a leitura de um livro que tinha interrompido. Sou de V.Sª.

Atº. Crº. Ven.or

Novas Revelações

Terceira Carta

Mal a barca abicou na ponte da estação de Niterói, saltei de um pulo, só cuidando seguir a misteriosa Francesa que me havia prometido informações sobre o casal fugitivo.

Mas, qual não foi a minha decepção, quando, volvendo em torno os olhos ávidos, não encontrei a estrela em que baseara as minhas melhores esperanças.

Ela havia desaparecido, como por feitiço, visto que, apesar das pesquisas que empreguei,. não lhe descobri sequer o rastro.

- “Estaria se divertindo à minha custa?”- perguntei aos meus botões, que, naturalmente para me serem agradáveis, não quiseram opinar comigo.

- Bem! — deliberei: — Não pensemos nisto!

E fui cuidar de obter novas informações. Dirigi-me logo para o buffet próximo à

ponte e perguntei a um criado que servia a um canto da sala um grupo de rapazes, se ele tinha visto saltar um sujeito de suíças, polainas, chapéu branco, de braço dado a uma dama vestida de preto, com um chapéu de palha.

O criado olhou para mim, coçou o queixo e resmungou:

- Homem! Eu lhe digo... Saltar, saltaram, até mais de um par, o negócio porém é que não reparei se algum deles era esse de que fala o senhor...

- E uma Francesa que chegou justamente nesta barca? — perguntei. — Uma Francesa de estatura regular, cabelos loiros e vestido de ramagens. Também não saberá dar-me notícias dela?...

Mal acabei de proferir estas palavras, um dos rapazes do grupo ergueu-se de improviso e, estacando defronte de mim, e ferrando-me um olhar muito atrevido, interrogou-me:

- Que deseja o senhor dessa Francesa?

Confesso que não encontrei logo o que responder a similhante tipo. Ele, porém, acrescentou:

- Vamos! Estou às suas ordens! Os negócios dessa senhora tratam-se comigo.

- O senhor é seu marido?

- Não tenho que lhe dar explicações. Sou da Francesa o que bem entendo ou quero ser! Apenas não admito que nenhum sujeito, seja lá quem for, tenha com ela qualquer negócio particular!

- Pois então, dê-lhe lembranças! — repliquei eu, voltando-me vivamente e muito disposto a dar às de vila-diogo.

O tipo não me deixou tempo para isso e cortou-me o caminho, indo postar-se à saída do buffet. Os outros rapazes seus companheiros, que eram em número de quatro, haviam-se erguido já e estavam incorporados ao meu adversário.

- O senhor não me sairá das unhas enquanto não explicar o que deseja da mulher que procura!

E, voltando-se para um dos companheiros:

- É uma questão a respeito da Jeannite! Sempre ela! Sempre as mesmas maçadas por causa daquela sirigaita!

Os rapazes, que se haviam levantado por último, olharam-me então de alto a baixo e depois puseram-se todos a observar os pés, e a chuparem os competentes charutos, muito sérios e muito tranqüilos.

A questão ia estoirar definitivamente por parte do meu provocador, quando este soltou um formidável “Ah!” e então vimos todos assomar à porta do buffet a causadora de todo aquele alvoroço.

Fez-se um grande silêncio, no meio do qual a Jeannite atravessou a sala, foi ao encontro do meu formidável agressor e, depois de apontar para mim, lhe disse com a voz firme e resoluta:

(continua...)

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