Por Aluísio Azevedo (1882)
— Pois não! respondeu o interrogado. Seja quem for esse Conde, ardentemente desejo entender-me com ele. Diz-lhe que estou absolutamente à sua disposição.
Pouco depois penetrava o conde no quarto. Gregório mediu-o de alto a baixo, sem se poder furtar a certa impressão de respeito cansada pelo ar do fidalgo.
— Muito boas noites, disse este entrando.
— Obrigado, respondeu o outro, curvando-se com delicadeza; mas, se me permite uma pergunta, tenha a bondade de dizer com quem tenho a honra de falar...
— Fala com o conde de S. Francisco, irmão da desvairada Cecília, falecida há quinze anos no convento de Santa Clara no Porto.
— Minha mãe?!
— Justamente, Sr. Gregório de Souto Maior; antes porém de lhe explicar as estranhas ocorrências desta tarde, tenho de declarar-lhe que foi para seu interesse que o constrangeram a entrar nesta casa. Era preciso evitar a todo transe o seu casamento com a menina Clorinda...
— Mas, por que, senhor?
— Ouça-me primeiro, e depois compreenderá tudo.
O conde puxou duas cadeiras, e convidou Gregório a assentar-se defronte dele.
— É natural que não lhe seja agradável ouvir a maior parte do que lhe vou relatar, principiou o velho, dando uma expressão benévola às suas palavras; como é natural também que nunca o fizesse, se a isso não fosse eu agora forçado pelas circunstâncias; mas cumpro um dever, e tanto me basta para completa tranqüilidade da minha consciência...
Gregório fez um gesto de assentimento e ouviu a escandalosa narração do seguinte:
CAPÍTULO II
CONFIDÊNCIAS
"Tinha eu apenas dez anos de idade, principiou o conde, quando meu pai, cinco anos depois de enviuvar, recolheu em casa, nas suas terras do Alto Douro, uma senhora ainda moça, gentil de maneiras, cultivada no trato e no espírito, mas totalmente desamparada de recursos pecuniários.
"O marido, pois que era casada, havia-se de tal modo incompatibilizado com ela, que a infeliz resolveu abandoná-lo e procurar, só por si, com o que sabia de música, desenho, inglês e francês, os meios de viver modestamente em qualquer província de Portugal ou do Brasil.
"Chamava-se Helena.
"Era uma criatura loura, franzina de corpo, feições muito expressivas e olhar inteligente. Parece que ainda estou a vê-la!
"Meu pai, que a principio só lhe confiara a educação primária dos filhos mais novos, foi, à proporção que se deixava tomar de simpatias pela professora, resignando em suas mãos primeiro a direção espiritual de minhas irmãs, depois o governo da casa, e afinal o governo absoluto do seu próprio coração. Escravizou-se.
"Desse cativeiro nasceu uma filha, que se converteu nos últimos encantos do pobre velho. E a contar de então, meu caro hóspede, se Helena já era senhora absoluta de todo o palácio, que não ficaria sendo com o nascimento da filha?... Sua vontade, incisiva e nervosa, conquistou e dominou desde o conde até ao último dos nossos lacaios.
"As desavenças e os desgostos entre a família não se fizeram esperar:
minhas duas irmãs, que se tornavam mulheres, foram as primeiras a reagir contra a ditadura que lhes queriam impor. Uma casou logo, para fugir ao jugo da falsa madrasta; a outra exigiu que a metessem em um convento, donde só saiu para unirse ao homem que a tomou por esposa.
"Meu pai não pôde sobreviver por muito tempo à ausência de minhas duas irmãs e à desorganização da sua casa, agravaram-se-lhe os padecimentos de que sofria, e faleceu pouco depois, legando à amante e à filha ilegítima uma boa parte dos seus bens.
"Eu que por esse tempo fazia meus estudos em Coimbra, corri à casa paterna e tratei do inventário de meu pai.
"Helena havia-se afastado já com a filha, que nessa ocasião teria quinze anos, e veio a casá-la alguns anos depois com um capitão de marinha, conhecido pela alcunha de "Leão Vermelho".
— Meu pai! exclamou Gregório.
— Sim, confirmou o conde; o senhor é filho desse casal. Sua mãe, porém, foi abandonada na cidade do Porto pelo marido, ficando-lhe apenas do matrimônio, além dos desgostos de uma viuvez forçada, um filho de dois anos. O fim dessa pobre mulher já o senhor conhece naturalmente: foi o convento e a loucura.
— Sim, disse Gregório.
— Mas o que talvez não saiba, acrescentou o conde, é que, antes disso, teve ela ocasião de salvar a vida da pessoa com quem depois me casei.
— Ah!
— Foi a enfermeira incansável e desvelada da filha de um velho amigo de meu pai, a qual sem dúvida teria sucumbido sem a dedicação e os sacrifícios de Cecília.
— E o filho, a criança de que o senhor falou?
— Essa criança, logo que a mãe perdeu a razão, foi reclamada pela família de minha noiva, e, depois do meu casamento, veio em companhia de minha mulher para o Brasil, onde foi entregue aos cuidados de certa senhora. — A senhora que me educou, D. Florentina de Aguiar...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.