Por Aluísio Azevedo (1884)
E chorava muito aflitivamente, sem saber porque. No outro dia, eram suspiros e mais suspiros, queixas, tristezas, e um fastio e um tédio de causarem dó.
A mãe caía-lhe em cima, a ralhar, a aconselhar. "Filomena que se deixasse de bobagens, que os tempos não davam para isso!" E dizia-lhe tintim por tintim o que lhe convinha praticar, como devia proceder. Ensinava-lhe os segredinhos de agradar a todos, de prender, de "prometer sem dar, de negar, sem desistir".
— Agüenta-te, minha filha' Agüenta-te como vais, e um belo dia, quando menos o esperares, cai-te do céu um noivo "dos bons", que nos indenizará de todos estes sacrifícios.
O belo dia chegou com efeito, e o Borges caiu.
— Heim? que te dizia eu?... perguntou a velha, abraçando-se à filha, com as lágrimas nos olhos. — Chegou ou não chegou a tua vez?
Filomena abaixou o rosto e fez um gesto de descontentamento.
— Ora, deixa-te dessas coisas, minha filha! Observou mãe, apanhando no ar a intenção daquele desgosto. Quem dera a muitas a tua fortuna!
A outra soltou um grande suspiro.
— Que mais querias tu, então?!... volveu D. Clementina entre meiga e repressiva. — Quem sabe se preferias por algum bonifrates, que nos viesse atrapalhar ainda mais capítulo? ...
A filha emplumou-se com altivez, franziu o nariz, e estalou um muxoxo desdenhoso.
— Então?! prosseguiu a viúva do conselheiro. — Borges não é de certo nenhum Adónis; mas é um marido que vale quanto pesa!
E engrossando a voz, respeitosamente:
— Muito benquisto, muito bem relacionado... não é nenhum pé de boi. tem sua educaçãozinha... e, olha, filha que aquilo tudo é sólido!
— Ora, faça-me o favor! ... disse a rapariga, impacientado-se — sólido será, mas não me venha dizer, que o Borges tem educação!... É um bruto! É mesmo um "João Touro"!
— Não é tanto assim, menina!
— E o que fez ele outro dia aqui em casa?! Aquilo é quem tem educação?! Um homem que come com a faca! Ora minha mãe!...
— De acordo de acordo, mas tu também deves fechar olhos a umas certas coisas, oh!... Os bons maridos fazem-se, preparam-se — os diamantes não se encontram já lapidados! E, então, aquele, coitado! que a gente o leva para onde quer... Ali, é teres um pouco de paciência e o porás a teu jeito!
— Não acredito que daquele lorpa se possa fazer alguma coisa! retrucou a menina com desdém.
— Parece-te agora, verás depois que é justamente o contrário!... Em questões de casamento, minha filha, as aparências quase sempre enganam muito! Em geral os maridos que nos parecem mais fáceis de tragar, são justamente os ma amargos; ao passo que os outros, os tipos, os "Borges", esses são os bons, os doces! Cá por mim, nunca aconselharia mulher alguma a unir-se a um homem, que julgasse o seu espírito superior ao dela. Nada! Para haver perfeito equilíbrio num casal, é sempre indispensável que o marido conheça alguma superioridade na mulher; seja essa superioridade de fortuna, de inteligência, de educação ou mesmo de forca física. Desgraçada da tola que não pense sobre isso antes do casamento — não será uma esposa, será uma escrava!
E D. Clementina, depois de dar uma pequena volta na sala terminou, batendo com ternura no ombro da filha: — Não te queixes da sorte, ingrata! O que no Borges agora se te afigura defeitos, são justamente qualidades muito aproveitáveis! Não avalias o tesouro que ali está! Digo-te com experiência! E, se duvidas, deixa correr o tempo, e dir-me-ás depois!
Filomena não se decidiu logo; porém, daí a poucos dias, a morte inesperada da mãe obrigou-a a tomar uma deliberação. Seis meses depois, voltava ela de uma igreja, casada com o Borges.
Seguiram logo para Botafogo, onde iam morar, segundo exigira a noiva. João Touro não poupara esforços para festejar o seu casamento, e, como sujeito considerado, que era, conseguiu reunir uma sociedade bem escolhida. Só o Barroso não quis comparecer: — tinha lá a sua opinião sobre o fato e não havia quem o demovesse daí.
Os convivas, não obstante, estavam todos de acordo em que o Borges não poderia encontrar mulher mais formosa e mais simpática.
Filomena, com efeito, apesar dos dissabores, já não lembrava aquela rapariga seca e descorada de outros tempos. Toda ela se carneara: a pele, atufada pela gordura, estendeu-se numa transparência macia e provocadora: o colo abriu-se em deliciosas curvas; a garganta enformou-se completamente; os braços encheramse; os quadris ampliaram-se; a voz acentuou-se, e os olhos amorteceram com os cruentos mistérios da puberdade.
— E que ar de inocência! comentavam em voz baixa, a contemplá-la no seu rico vestido de chamalote branco — que candura!...
— Não! dizia o Borges, que estava perto. — Não! nisso não tenho que invejar ninguém! — fui feliz!...
E esfregando as mãos:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.