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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Seu tipo indeciso, de cearense do interior, uma dessas fisionomias confusas e duvidosas, nas quais o fulvo castanho dos cabelos quase que não se distingue do moreno da pele e do pardo verdoengo dos olhos, seu tipo transformava-se na febre da eloqüência e parecia acentuar-se por instantes.

E, já de pé, com uma das mãos apoiada nas costas da cadeira, jogava freneticamente com a outra, ora espalmando-a em cheio sobre o peito, ora apontando terrível para o teto, ora indicando o chão, horrorizado, como se ai estivesse um abismo, ora dando com o indicador ligeiras e repetidas facadinhas no ar; ao passo que a voz, pelo contrário, se lhe arrastava em trêmulos prolongados, como as notas graves de um harmonium.

Enquanto ele parolava, outros hóspedes se recolhiam aos competentes quartos, atravessando a varanda pelo fundo na ponta dos pés, com medo da “caceteação”.

Aquele homem era o terror da casa. Às vezes, depois do jantar, quando ele abria as torneiras da loquacidade, iam todos, um por um, fugindo sorrateiramente, até deixá-lo a sós com o Pereira que, afinal, adormecia.

Amâncio principiava a sentir cansaço. Quis retirar-se; não lho consentiram.

— Passava já de meia-noite; a casa do Campos devia estar fechada àquela hora. — O melhor seria ficar, observou a francesa.

— Que diabo, acudiu Coqueiro. — Fica, não incomodarás ninguém...Estás tudo providenciado; a cama feita. Além disso, olha! E mostrando o céu pela janela: — Vamos ter chuva!

Com efeito sopravam os ventos do sul. Amâncio ainda opôs algumas razões, mas finalmente cedeu.

* * *

Era mais de uma hora quando se dispersou a roda e cada um, depois de novos protestos e oferecimentos se recolheu à competente alcova.

Mme. Brizard recomendou muito a Amâncio que ficasse à vontade; que não tivesse escrúpulos em reclamar qualquer coisa de eu sentisse falta. Supunha, porém, não haver ocasião disso, porque fora ela própria e mais a Amelinha quem lhe arranjara o quarto.

Coqueiro acompanhou-o até a cama, examinou rapidamente se estava tudo no seu lugar e depois, dando mais luz aso bico de gás, e tirando um folheto da algibeira disse-lhe com um sorriso: Sempre te vou mostrar os versos...

Amâncio, já meio despido, estremeceu, mas não opôs a menor consideração, e meteu-se debaixo dos lençóis.

O outro em pé ao lado da cama, folheava amorosamente o seu caderno de versos, à procura do que deveria ler em, primeiro lugar

Descobriu afinal e, com a voz clara e sonora , principiou: “ Estamos em plena Roma. Os Césares devassos...”

CAPÍTULO VII

Amâncio sentiu um grande alívio, quando se achou afinal inteiramente só; a porta do quarto bem fechada e a luz do bico de gás quase extinta.

Estava morto de fadiga.

As enfadonhas conversas de Coqueiro e Mme. Brizard, o jugo inquisitorial das cerimônias, a pândega da véspera, tudo isso dava àquela caminha fresca, de lençóis limpos, um encanto superior ao que houvesse de melhor no mundo. Seu corpo quebrado de impressões diversas e na maior parte consumidoras e lascivas, bebia aquele repouso por todos os poros, voluptuosamente, como um sequioso que se metesse dentro da água..

Aninhou-se , encolheu-se, abraçado aos travesseiros, ouvindo com uma certa delícia esfuziar o vento nas portas e, lá fora, desencadear-se o temporal, arremessando água aos punhados contra telhas e paredes.

E deixava-se arrebatar pelo sono, como se deslizasse por uma ladeira interminável de algodão em rama.

Os acontecimentos d dia começaram a desfilar em torno de sua cabeça, em procissões fantásticas de sombras duvidosas e fugitivas. Dentre estas, era o vulto de Lúcia o que melhor se destacava, com o seu andar quebrado e voluptuoso, a remexer os quadris, atirando a barriga para frente. Chegava a distinguir-lhe perfeitamente os grandes olhos amortecidos e a sentir-lhe o perfume que ela trazia essa tarde no lenço e nos cabelos. Em seguida, vinha a outra, a Amelinha, mas não com a lucidez da primeira. E logo depois Mme. Brizard, com o seu todo pretensioso; Nini, a fitá-lo, muito aflita, as mãos inchadas e sem tato, o cabelo escorrido sobre a cabeça, cheirando a pomada alvíssima, bata e lã, escura e sinistra como um burel. E, depois, numa confusão vertiginosa, — o Coqueiro a berrar versos, dançando no ar e a sacudir em uma das mãos um punhado de feijões pretos; e o Paula Mendes a jogar os murros com a mulher; e o Dr. Tavares a discursar com os braços erguidos para ao ar; e o César, o menino prodígio, a esgarafunchar o nariz freneticamente; e o Pereira, de olhos fechados, a andar como sonâmbulo; e o ...

Mas os vultos de todos se confundiam e desfibravam, como nuvens que o vento enxota. Amâncio já os não distinguia.

Acordou às oito horas do dia seguinte, meio inconsciente do lugar onde se achava. Logo, porém, que caiu em si, levantou-se de um pulo e abriu a janela de par em par. Um jato de luz dourada invadiu-lhe a alcova.

(continua...)

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