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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

A carta do Lemos era escrita no estilo banal do namoro realista, em que o vocabulário comezinho da paixão tem um sentido figurado, e exprime à maneira de gíria, não os impulsos do sentimento, mas as seduções do interesse. 

O velho acreditou que a sobrinha, como tantas infelizes arrebatadas pelo turbilhão, estava à espera do primeiro desabusado, que tivesse a coragem de arrancá-la da obscuridade onde a consumiam os desejos famintos, e transportá-la ao seio do luxo e do escândalo. Apresentou-se pois francamente como o empresário dessa metamorfose, lucrativa para ambos; e acreditou que Aurélia tinha bastante juízo para compreendê-lo. 

Quando, no dia seguinte à entrega da carta, notou que a rótula fechava-se obstinadamente à sua passagem, conheceu o Lemos que tinha errado no primeiro tiro, mas nem por isso desacoroçou do projeto. 

- Ainda não chegou a ocasião! Pensou ele. 

O velho rapaz arranjara para seu uso, como todos os homens positivos, uma filosofia prática de extrema simplicidade. Tudo para ele tinha um momento fatal, a ocasião; a grande ciência da vida portanto resumia-se nisto: espiar a ocasião e aproveitá-la. 

Entendeu lá para si que o moral da sobrinha não se achava preparado para a resolução que devia decidir de seu destino. Esse coração de mulher ainda estava passarinho implume; quando lhe acabassem de crescer as asas, tomaria o vôo e remontaria aos ares. 

O que lhe cumpria, a ele Lemos, era espreitá-la durante a transformação, para intervir oportunamente; e dessa vez tinha certeza de que não falharia o alvo. 

O exemplo do velho estimulou os mais animosos. Um deles, confiando na audácia, pôs em sítio a rótula, especialmente à noite, quando Aurélia cosia à claridade do lampião, junto ao aparador. 

Pelas grades ia o conquistador insinuando súplicas e protestos de amor, com que perseguia a moça, insistindo para que lhe acudisse à rótula ou lhe recebesse mimos e cartinhas. Após este seguiam-se outros. 

Conservava-se Aurélia impassível e tão alheia a essas competências, que parecia nem ao menos aperceber-se delas. Algumas vezes assim era. Distraía-se com suas preocupações de modo que ficava estranha aos rumores da rua. 

Todavia aquelas importunações a incomodavam, e sobretudo a insultavam; como não cessassem, acabaram por inspirar-lhe uma resolução em que já se revelavam os impulsos de seu caráter. 

Certa noite, em que um dos mais assíduos namorados a impacientou, ergue-se Aurélia mui senhora de si e dirigiu-se à rótula, que abriu, convidado o conquistador a entrar. Este tomado de surpresa e indeciso, não sabia o que fizesse, mas acabou por aceder ao oferecimento da moça. 

- Tenha a bondade de sentar-se, disse Aurélia mostrando-lhe o velho sofá encostado à parede do fundo. 

O leão quis impedi-la, e não o conseguindo, começava a deliberar sobre a conveniência de eclipsar-se, quando voltou Aurélia com a mãe. 

A moça tornou à sua costura, e D. Emília sentando-se no sofá travou conversa com sua visita. 

As palavras singelas e modestas da viúva deixaram no conquistador, apesar da película de cepticismo que forra essa casca de bípedes, a convicção da inutilidade de seus esforços. A beleza de Aurélia só era acessível aos simplórios, que ainda usam do meio trivial e anacrônico do casamento. 

Este incidente foi o sinal de uma deserção, que operou-se em menos de um mês. Toda aquela turba de namorados debandou em roda batida, desde que pressentiu os perigos e escândalos de uma paixão matrimonial. 

Assim recobrou Aurélia sua tranqüilidade, livrando-se do suplício, que lhe infligiam aquelas homenagens insultantes. 

Agora, quando ficava na janela para satisfazer aos desejos de sua mãe, já não lhe custava essa condescendência tão amargo sacrifício. Sua natural esquivança era bastante para afastar as veleidades dos refratários. Esses ainda não se tinham desquitado ao todo da esperança de inspirar alguma paixão irresistível, das que domam a mais austera virtude. 

 

IV 

 

Seixas ouvira falar da menina de Santa Teresa, mas ocupado nesta ocasião com uns  galanteios aristocráticos, não o moveu a curiosidade de conhecer desde logo a nova beldade fluminense. 

Aconteceu porém jantar na vizinhança em casa de um amigo, e em companhia de camaradas. Veio a falar-se de Aurélia, que era ainda o tema das conversas; contaram-se anedotas, fizeram-se comentos de toda a sorte. 

Depois do jantar, no fim da tarde, saíram os amigos a pé, com o pretexto de dar uma volta de passeio; mas efetivamente para mostrar a Seixas a falada menina, e convencê-lo de que era realmente um primor de  formosura. 

(continua...)

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