Por José de Alencar (1870)
Catita a tinha visto, e movida pela curiosidade, sem pensar na indiscrição que cometia, a abrira. A vista do lindo turbante a fascinou; quis experimentar se lhe servia; ajustou-o na cabeça; e começou a faceirar-se pelo alpendre, segurando nas saias em ar de mesura.
Nessa ocupação a veio achar o Canho; dos dois o mais enleado não foi ela, que breve recobrou a sua petulância ordinária e saiu-se com um gracejo.
— Já sei que foi para mim que trouxe este lindo toucado. Fico-lhe muito obrigada, disse fazendo-lhe uma mesura. Serve-me perfeitamente; e até diz com o meu corpinho de belbute!
Em verdade não se podia imaginar um enfeite mais gracioso para aquele rostinho gentil, moldurado pelas tranças aneladas de uns lindos cabelos negros. Catita parecia um anjinho de procissão, como os vestem ainda hoje, com um trajo bem profano.
O olhar aveludado que ela deitava a Manuel e o sorriso que lhe brincava nos lábios, ninguém imagina que brilho, que beleza e sedução davam a esse mimoso semblante.
Manuel, alcançando a mantilha, fugiu sem importar-se com o turbante, e tão depressa que nem ouviu a voz da menina a chamá-lo:
— Moço, tome o seu toucado!
Quando o Lucas Fernandes saiu fora, já o gaúcho sumira-se na estrada; daí induziu o seleiro que fora aquilo um meio de dar o presente a Catita. Ele não acreditaria por certo que um homem tão desempenado como o gaúcho tivesse medo de uma criança de treze anos.
Em Bagé comprou o Canho outro presente para Jacintinha, em substituição do turbante. Desta vez escolheu um indispensável, nome que davam então a uns sacos de seda bordados de miçangas.
XI
MANCEBO
Cresceu o Juca.
Manuel esmerou-se em sua educação. A seiva era ardente e generosa; o exemplo da mãe, assim como os conselhos e desvelos do amigo, desenvolveram com extraordinário vigor aquela natureza impetuosa.
Assistindo a essa expansão de força e instintos nobres, sentia o gaúcho júbilos paternos.
As gentilezas do poldro o faziam palpitar; tinha verdadeiro orgulho, não de possuir, mas de dominar pelo amor como uma criatura sua, o bizarro animal.
Quando ia à povoação e a gente corria às portas para vê-lo passar, montada na linda égua, e acompanhado pelo formoso poldrinho que caracolava ao lado, tinha-se o gaúcho em conta do homem mais feliz e invejado de toda aquela campanha.
Às tardes os dois irmãos, pois Jacintinha fora admitida ao grêmio dessa mútua afeição, passavam a brincar com a Morena e o Juca. Manuel, depois que não era só a querer os seus amigos, perdera aquela nímia suscetibilidade de pudor, que dantes tanto o segregou; o exemplo da menina o animava. Demais, quem somente os olhava era Francisca, sentada no alpendre. Essa não se dava do que faziam os filhos; nem mesmo sentia o isolamento moral em que eles a deixavam.
Todavia, no meio do contentamento destes brincos, tinha Manuel às vezes um soçobro. Vinha sentar-se à parte, silencioso. Admirando o donaire da Morena e os flexuosos contornos de suas formas, suspirava; alguma coisa faltava àquela beleza, que ele não sabia definir. Todas as cordas do coração vibravam com as emoções que nele despertava a companhia desses amigos queridos; mas uma havia, que logo depois de percussa, distendia-se brandamente, sob o mágico influxo de uma saudade que se dilatava além, pelo tempo afora.
O gaúcho não tinha outro passado, além da infância monótona e triste que vivera naquela estância; todas as suas recordações estavam encerradas na casa paterna. Entretanto às vezes sentia ele vagas reminiscências de uma delícia inefável, que lhe invadia os sentidos e se apoderava de toda sua alma. Então errava-lhe ante os olhos uma linda imagem de mulher vaga e indecisa, que talvez já vira, mas não se lembrava quando; e, coisa singular, essa imagem assomava como uma transformação do vulto gracioso da Morena.
Muitas outras vezes, punha-se Manuel a observar a menina e a baia, e inadvertidamente se esquecia ao ponto de compará-las, como se fossem criaturas da mesma espécie: duas raparigas, uma ainda menina, e a outra já moça. Pareciam-lhe mais lindas que os anelados cabelos louros de Jacinta, as clinas negras e crespas da baia. Era alva a menina, alva como o leite derramado sobre uma conchinha de nácar. Ao irmão se afigurava que seria mais sedutora nas faces e pelo colo da mulher, uma tez ardente e voluptuosa como a tinha a Morena. Esbelteza de talhe, mimo de formas e graças titilantes de beija-flor, ninguém as possuía como a filha do Loureiro; e contudo aquela vigorosa carnação das ancas e o esgalgo dos rins, que debuxavam a estampa da baia, Manuel as contemplava com deleite. Devia de ser aquele o tipo da beleza na mulher.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.