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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

– E de quase toda a nação portuguesa, senhor! D. Miguel I nunca deixou de reinar nos corações do seu povo. Eu tenho na minha alma o retrato dele desde que o vi há treze anos em Braga e lhe beijei as suas reais mãos! – Escandecia-se o entusiasmo, punha as mãos, chamejavam-lhe nos olhos reflexos do fogo interno; e o Veríssimo continuava a folhear o Punhal dos Corcundas.

– Então viu-o, abade?

– Sim, meu senhor, vi-o com estes olhos, toquei-lhe com estas mãos.

– Ainda se recorda das suas feições?

– Perfeitamente.

– Ah! se o visse hoje, decerto o não conhecia... Está muito acabado.

– Conhecia, conhecia..

O abade sentiu um raio de dramatização que o vibrou todo. Eriçaram-se-lhe os cabelos, e coou-lhe pela espinha uma faísca eléctrica. Fez um passo atrás, e quando o Veríssimo repetiu: , o padre pôs um joelho em terra, estendeu o braço direito, e com o dedo indicador em riste, exclamou:

– Ei-lo! ei-lo!

– O abade! o senhor está alucinado! Por quem é, levante-se! Eu não sou quem pensa!

– Estou como devo estar diante do meu rei! – teimou o abade, com os dois joelhos no sobrado. – Levante-se que vem gente! – dizia o outro, ouvindo passos na escada.

Era o Nunes.

– Entre, amigo! – disse o abade, respondendo ao vizinho que pedia licença.

Torcato encontrou o abade de joelhos e o Veríssimo esforçando-se por levantá-lo.

– Ajoelhe a meu lado, Nunes! que eu estou aos pés de el-rei! – exclamou o padre.

E o outro, ajoelhando:

– Eu já o sabia, Real Senhor!

Foi assim que se inaugurou a corte de D. Miguel I em São Gens de Calvos, segunda-feira de Entrudo de 1845, às 3 horas da tarde.

XII

Depois, bem sabem, senhores, como aquele padre Rocha despenhou abruptamente o desfecho da farsa, cuidando que vingava a moral e punia com degredo o celerado que infamava o sacratíssimo nome de el-rei D.

Miguel. No trânsito para a Relação, a meia légua, na estrada do Porto, o Veríssimo, com delicadas maneiras e o seu aspecto venerável, obteve que o sargento da escolta lhe permitisse alugar a mula de um almocreve que seguia a mesma direcção. Cavalgou na albarda da mula arreatada com chocalho, sem estribos; empunhou a corda do cabresto, e ladeado de doze praças do 8, entrou ao cair da tarde em Famalicão.

O Torres de Castelões, o administrador, legitimista no fundo, bom lavrador, mandou-lhe cama para a cadeia e permitiu-lhe que ceasse com uni amigo que o seguira de longe. Era o Nunes, o Pílades das horas certas e incertas.

Orestes estava desanimado; queixava-se das fantasias do outro, considerava-se perdido.

– Pobre Libânia! – deplorava – quando ela souber que eu estou na Relação!

Como tinha alguma prática do foro criminal, o Nunes consolava-o: que não havia matéria para pronúncia; e, quando fosse pronunciado, a Relação o despronunciaria.

– Eu é que vou ser o teu procurador, se me não prenderem – acrescentava, muito confiado na lei e na sua actividade. – Quanto à fantasia do conto de réis, já não falta tudo, porque tens as cem peças das Botelhas. Se te deixam ser rei mais um dia ou dois, tinhas nesta santa hora 3750$000 réis.

– Tu gracejas e eu vou esperar na cadeia uma sentença de degredo – atalhou o Veríssimo, naquela estranha situação, nunca experimentada, de ouvir os passes da sentinela rentes com a grade do seu quarto.

Às oito da noite, fechara-se a porta da cadeia, e Nunes saíra triste, com um pungitivo arrependimento de meter o amigo naquela rascada.

Ao escurecer do dia seguinte, o preso foi conduzido do Governo Civil do Porto para a Relação com um mandado do carcereiro na baioneta do sargento. Quando saía do Governo Civil, já Libânia e o Munes, que se antecipara a procurá-la em Ramalde, o esperavam. A Libânia era uma forte mulher para os trabalhos da vida. Fitouo com um semblante aceso de coragem, um sorriso afoito, e disse-lhe muito animosa:

– Alma até Almeida e de Almeida p'ra diente alma sempre!

Veríssimo ocupou o quarto de malta nº 2, com uma rasgada janela sobre o Douro, um quarto cheio de luz e de sol, de onde tinha saído o Gravito para a forca – elucidou o carcereiro, e mostrou-lhe no grosso alisar da porta as iniciais de alguns padecentes com a data de 1829.

(continua...)

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