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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Pois então declaro que te não digo coisa alguma!

Leão Vermelho segurou Cecília pelo braço e repetiu a sua pergunta, mas ainda assim nenhuma resposta obteve.

— Bem! disse ele, saberei por outro lado!

Todavia a carta, longe de depor contra a mulher, dizia o seguinte:

"Caro senhor. — Se como diz, é cavalheiro, peço-lhe que não insista na sua perseguição; se é meu amigo, como também o diz, poupe-me a inquietação a que me obnegam os seus mal-entendidos protestos de amor. Lembre-se de que sou casada e procuro todos os dias esquecer-me do passado, desse passado que me acabrunha, não pelo remorso, mas pelo desgosto e pela aflição. Já sofri em demasia por sua causa, pague-me agora de tudo isso, deixando-me em paz; não queira aumentar os motivos de queixas que tenho contra o Sr. Se supõe que algum laço ainda nos une, está completamente iludido, porque meu..."

Leão Vermelho guardou a carta consigo, e principiou desde então a desconfiar de Cecília. Foi por esse tempo que lhe apareceram as ameaças de perder o emprego e que ele se viu obrigado a seguir para Lisboa, a ir entender-se com o ministro da marinha.

Sabe já o leitor qual foi o resultado da sua viagem e da má vontade do governo português. Leão Vermelho demitiu-se e, depois de ir ter com a mulher e o filho, resolveu dar velas para o Brasil em um navio mercante. Sabe também que ele, na ocasião de seguir, já no beliche, fez ao seu fiel servo recomendações especiais a respeito de Cecília e lhe entregou uma boa navalha de marujo.

O marinheiro, como vimos depois, ficou deveras impressionado pelas palavras do comandante. Não lhe saíam elas da cabeça; parecia-lhe estar ainda a ouvir Leão Vermelho dizer-lhe com a voz engrossada pela comoção: "Não te descuides, meu amigo! o horizonte anda turvo; cheira-me que teremos borrasca! Olho na bússola e mão no leme! Se desconfiares da senhora, comunica-me qualquer sinal, e, se descobrires coisa séria, já sabes, não precisas esperar por mim... dá-lhe duas naifadas e manda-a de presente aos melros!"

Tubarão não queria ligar muita importância às suspeitas do comandante, mas a cena do jardim, aquela entrevista fora de horas com um vulto mais que suspeito, vieram justificar no ânimo do bom marinheiro a recomendação de Leão Vermelho.

Quem o havia de acreditar?... dizia ele consigo. Uma pessoa tão séria e tão meiga, que era mesmo a imagem de Nossa Senhora do Socorro!... Ah! mas, tanto ela como aquele maldito papa-figos, que tenham paciência; se os pilho, trabalha a faca!

E nunca mais se descuidou, a respeito da patroa, nas suas observações e na sua espionagem.

Entretanto Cecília não era absolutamente culpada do que presenciara Tubarão: Pedro Ruivo saíra do Porto com o intento de seguir para o Brasil, como dissemos, mas, chegando a Lisboa, recolheu-se à casa de uma família que fora muito da amizade de seu pai, e aí se deixou ficar ao saber que Cecília afinal havia casado, e que ele por conseguinte não seria perseguido. De volta ao Porto, dois anos depois daqueles acontecimentos, Pedro Ruivo, certa manhã em que passeava pelo jardim das Virtudes, encontrou Cecília acompanhada de uma bela criança loura.

Ela não o viu; ele porém reconheceu-a logo e começou de segui-la a distância.

Cecília, depois de fazer o seu passeio, recolheu-se a casa, e Pedro Ruivo ficou sabendo ao certo onde residia a sua noiva de outro tempo.

— E não é que o demônio da rapariga está ainda mais bonita do que era?!...

considerou ele ao voltar pelo mesmo caminho. E, possuído de estranhas comoções, principiou desde então a sentir-se pender para Cecília, por esse estimulo traiçoeiro que aos homens comuns faz desejar as coisas proibidas Ela nunca lhe pareceu tão desejável, tão bela, tão digna de ser gozada. Dantes a extrema inocência, a franca confissão do seu amor sem cálculos e sem artifícios, a candura de suas palavras quase infantis, faziam de Cecília um tesouro tão fácil de alcançar, que Pedro Ruivo nunca se lembrara de calcular-lhe o valor.

Procurou um pretexto para poder aproximar-se dela. Mas a coisa não seria assim tão fácil, pensou ele. Cecília devia guardar fundo ressentimento da sua desgraça; não era natural que a presença de Pedro Ruivo lhe fosse muito agradável. Foi então que o miserável se lembrou do filho.

— Ora esta! exclamou, abrindo os braços com entusiasmo; tenho o melhor condutor que se pode desejar e não me lembrava disso!... Nem há de ser preciso grande esforço; ela será talvez até a mais interessada em me tornar a ver!

(continua...)

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