Por Aluísio Azevedo (1884)
— Ficas aqui?
— Fico.
— E os nossos convidados?...
— Que esperem.
— Acho que fazes mal; devias dançar.
— Só dançaria contigo...
— Então, até logo. — Até já.
E ele foi-se.
A mulher, mal o viu pelas costas, correu ao guarda-roupa, abriu-o, sacou um dominó preto, enfiou-o rapidamente no corpo, pôs máscara, tomou o seu chicote de montaria, e, depois de vencer ligeira o segundo andar, ganhou as escadas do fundo e desapareceu.
Atravessou a chácara como um pássaro que foge, entrou na avenida de bambus e dirigiu-se ofegante, trêmula, para o ponto da entrevista.
A fronde compacta de árvores e o tear das trepadeiras acumulavam sombras. Filomena embrenhou-se por entre elas, só diminuiu a força da carreira nas proximidades do caramanchão.
Ao entrar, sentiu dois braços prenderem-lhe o pescoço, ouviu uma voz que se queixava de medo, enquanto um corpo de mulher procurava unir-se ao dela.
Filomena recuou incontinente, e, puxando da chibata, remeteu duas vergatadas contra o dominó que tinha defronte de si.
Este soltou um grito, menos de raiva que de dor e, arrancando a máscara, exclamou:
— Barão!
— Não é o barão, é a baronesa!, respondeu a outra, tirando também a sua máscara.
— A senhora?!
— Sim! A quem queria trair, miserável!
— É falso!
— Nem uma palavra, e some-te daqui, já!
— Mas ouça-me!
— Não quero ouvir nada! Sai já de minha casa! Traidora! Põe-te já daqui para fora, se não queres ser desfeiteada lá em cima, na presença de todos os meus amigos. Rua!
A viúva soltou uma rabanada e fez menção de entrar na avenida de bambus.
— Não! disse a baronesa, cortando-lhe a passagem. Não hás de sair pela frente; passarás por onde sai a gente de tua espécie!
E levou-a aos empurrões até os fundos da chácara, onde havia um portão, que Filomena abriu, dizendo:
— Vai, e quando me vires em qualquer parte, abaixa os olhos!
— Havemos de nos encontrar!... ameaçou a viúva, depois de atravessar a porta. Juro-te que me pagarás tudo isto!
— Rua! insistiu Filomena, fechando a porta com estrondo; e, já de volta ao caramanchão, disse entre dentes: — Agora o outro!...
Ao chegar aí, um calafrio percorreu-lhe o corpo — já lá estava o marido.
Não disfarçado de dominó, como recomendava a carta, mas com a sua camisa cor de rosa, as suas botas de montar e o seu penacho vermelho. E passeava de um para outro lado, cheio de preocupação, as mãos cruzadas atrás, o capacete na nuca, o ar de quem espera no corredor que lhe abram a porta da sala.
Filomena armou a máscara no rosto, conteve, a melhor que pode, a sua cólera, e avançou de braços abertos para o chicard.
Mas qual não foi a sua surpresa ao ver-se repelida brandamente por ele!
— Perdão, disse o Borges, a senhora pelo que parece, compreendeu mal o meu convite.
E oferecendo-lhe lugar num banquinho que havia perto:
— Tenha a bondade de sentar-se. Não levarei muito tempo a dizer o que me obrigou a incomodá-la. Devia ter ido procurá-la em casa, mas é que se trata de um negócio urgente, um verdadeiro aperto! Um aperto sério! Se amanhã não conseguir levantar vinte contos, estou perdido! Não me convém recorrer aos bancos por todo este ano...
E, vendo que a suposta viúva não ia ao encontro de seu pedido:
— Podemos arranjar uma hipoteca — se não lhe convém o n.0 6 das
Laranjeiras, vê-se outro, contanto que...
E já incomodado com o silêncio do dominó:
— Creio que a proposta é razoável!... Que acha?... A senhora pode servirme, se... Não quis falar ao Fontes, o seu sócio, sem saber de antemão se podia contar com o seu apoio.
Novo silêncio.
O Borges, já enfiado, caiu então nas minudências comerciais. Falou de letras, transações, lembrou firmas, com que ele podia contar. Porém o silêncio continuava.
— Então?! Que diz?! perguntou ele, muito desconcertado.
Filomena arrancou a máscara e atirou-se-lhe nos braços desfeita em soluços.
— Tu?! Que significa isto?!
Ela puxou do bolso a carta da viúva e entregou-a ao marido.
— Pois imaginaste que eu seria capaz de... Oh!...
E ferido de súbito por uma idéia:
— E ela?! A viúva Perdigão, que fim levou?!
Filomena contou-lhe o que se havia passado. Borges deixou cair a cabeça entre as mãos:
— Fizeste-a bonita!... exclamou ele. — Vais ver as conseqüências!
— Que queres? Tive ciúmes! balbuciou a mulher. Dizem tanta coisa de Chiquinha, que...
— Tolinha! interrompeu o marido, abraçando-a de novo.
— E por que não me falaste com franqueza?... acrescentou ela.
— Temia afligir-te...
— Fizeste mal! Se me tivesses prevenido, nada disto sucederia!...
E notando o acabrunhamento do esposo:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.