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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Lúcia caminhava toda reclinada sobre ele, falando-lhe em tom mui vagaroso, com acentuações finas de boa educação.

A sala iluminada tinha um caráter imponente. O gentleman encaminhou a conversa geral para a música, aconselhou a Amâncio que solicitasse da Sr.ª D. Lúcia um pouco do Guarani, que ela tocava admiravelmente.

Lúcia queixou-se de que ultimamente sofria de certa fraqueza nos dedos e não tocava com a mesma expressão , mas sempre foi pelo braço de Lambertosa tomar ao piano o lugar que Amélia deixara nesse instante. E logo as primeiras notas da introdução do Guarani encheram a sala com a sua corajosa e dominadora solenidade.

Fizeram silêncio.

Ela tocava bem, com muita energia e destreza. Amâncio encostara-se sozinho ao canto de uma janela e sentia-se ir a pouco e pouco arrastando pela irresistível corrente daquelas frases musicais Seu estômago, perfeitamente confortado, dava-lhe ao corpo um bem-estar beatífico e predispunha-lhe o espírito para as vagas concentrações e para os místicos arrebatamentos da fantasia. Um profundo langor, muito voluptuoso, apoderava-se de todo ele, e os vapores duvidosos de um princípio de embriaguez, acamavam-se em torno de sua cabeça, anuviando-lhe os objetos exteriores.

E ali, da janela suspenso ainda pelas novas impressões que lhe deparavam os novos aspectos de sua existência, abstrato e perdido em cismas indefinidas, enxergava, por entre as névoas do seu enlevo, o vulto melancólico de Lúcia, assentada defronte do piano, a picar o teclado com os dedos, num frenesi delicioso.

Depois da música principiou a simpatizar com ela; já gostava de a ver, misteriosa e pálida, arrastando a vida com a languidez de uma convalescente.

Estava todo embevecido a pensar nesta simpatia, quando voltou por acaso o rosto e deu com os olhos de Nini, que o fitavam sem pestanejar. – É birra, não tem que ver! Pensou ele aborrecido..

Duas horas depois tornavam à sala de jantar. Serviam-se as torradas. Pereira, com o César adormecido sobre as pernas, ressonava profundamente na mesma preguiçosa em que o tinham deixado.

Mme. Brizard chamou o copeiro e ordenou-lhe que recolhesse o menino. Pereira espreguiçou-se, abriu vagarosamente os olhos, mas tornou a fechá-los, bocejando.

Já estavam à mesa, quando os hóspedes principiaram a chegar.

Veio o Paula Mendes e mais a mulher. Ele de pequena estatura, grosso, os movimentos acanhados, a voz branda e a fisionomia triste; ela muito alta, cheia de corpo, despejada de maneiras e com feições de homem.

Chamava-se Catarina, estava sempre a implicar com as coisas e tinha muita força de gênio. Entrou como uma fúria; o marido atrás. Cumprimentou a todos com um — ”boas-noites” terrível, e, atirando-se a uma cadeira, declarou , a bater com a mão na mesa, que vinha desesperada! — Pois, se em vez de piano, lhe haviam dado um tacho, um verdadeiro tacho, para executar um noturno de Chopin!

Dificílimo!

— Pouca vergonha! Exclamava ela, rangendo os dentes. — canalhas!

E voltando-se para o marido com um furor crescente: — Mas o culpado foste tu, lesma de uma figa! — já devias conhecer melhor aquela súcia!

— Mas... ia responder o marido.

Cale-se, berrou ela.— Não me dê uma palavra, que não estou disposta a lhe ouvir a voz! Diabo do basbaque

Fez uma pausa, estava arquejante, mas continuou logo:

— Também ali, acabou-se! Cruz na porta! Nunca mais! Nunca mais! Nem admito que me falem na rua! Corja!

E, levantando-se com ímpeto, cumprimentou a todos com um arremesso, e subiu para o segundo andar, levando o marido na frente, aos empurrões Safa, disse Amâncio consigo.

O Dr. Tavares é que vinha satisfeito. Estivera em casa de um amigo, pessoa de muita consideração, onde se reunia a mais fina sociedade.

E, necessitado de expandir o seu bom humor, entabulou conversa com Amâncio. Falou-lhe a um só tempo de mil coisas diferentes; tratou muito de si; das suas pretensões na Corte que apenas conhecia de alguns meses; das suas esperanças de obter o que desejava; do que lhe dissera tal ministro; do que prometera tal conselheiro ,e, afinal , da sua profissão de advogado, profissão que ele exercia com entusiasmo, com delírio, porque, desde pequeno, toda a sua queda fora sempre para falar em público, para dominar as massas.

E, esquentando-se ao calor de suas próprias palavras, discursava, como se já estivesse no tribunal. Armava posições; recorria aos efeitos da tribuna, vergava para trás. a cabeça, ameaçando espetar o auditório com a ponta de sua barba triangular.

Sentia-se radiante por ver que todos os mais não abriam a boca, enquanto ele estivesse com a palavra.

(continua...)

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