Por José de Alencar (1870)
Sua voz era cheia e sonora. Apesar de um tanto áspera, não deixava de haver doçura nas notas vibrantes que se desprendiam de seus lábios; mas era a harmonia agreste dos lufos do vento no descampado, ou do canto da seriema na macega do banhado.
Começou ele atirando o mote de seu descante, neste rápido estribilho:
Livre, ao relento,
Pobre, sem luxo, N’asa do vento Vive o gaúcho.
A atenção geral foi vivamente excitada. As pessoas presentes fizeram roda e ficaram suspensas dos lábios do Canho, cuja fisionomia torva de ordinário, brilhava nesse momento iluminada por lampejos de inspiração.
X
O TURBANTE
Depois de uma pausa, o Canho feriu de novo as cordas da viola. A roda se apoderara do estribilho, que repetiu em coro, respondendo Manuel alternadamente ao mote com uma das coplas da cantiga.
Livre, ao relento,
Pobre, sem luxo,
N’asa do vento
Vive o gaúcho.
Quanto possui, traz consigo,
Dorme no chão sobre a grama,
Serve-lhe o poncho de abrigo,
A xerga da sela é cama.
Livre, ao relento, etc.
No banhado, na coxilha,
Onde pára, chega em casa;
Dá-lhe o churrasco a novilha,
Dos ossos arranja a brasa.
Livre, ao relento, etc.
Ainda não rompe a aurora,
Já no rancho o mate chupa;
Por estes campos afora,
Sempre a correr. Upa!… Upa!…
Livre, ao relento, etc.
No rio é barco, navega,
Montado no seu cavalo;
No campo faísca e cega
Saltando por sanga e valo.
Livre, ao relento, etc.
Ponteiro como o tufão,
Rompendo os montes d’areia,
Pincha a manopla da mão
Que o touro feroz boleia.
Livre, ao relento, etc.
Vence o ginete ligeiro
Na caça o veado arisco.
Tem as asas do pampeiro,
Tem o fogo do corisco.
Livre, ao relento, etc.
A ema veloz alcança,
Como um gigante, seu braço,
Que rijo meneia a trança
E longe arremessa o laço.
Livre, ao relento, etc.
Arreda! Arreda!… No campo
Lá vem roncando a borrasca.
Não é trovão, nem relampo,
Mas sim a fúria dum guasca.
Livre, ao relento, etc.
Senhor de todo este pampa
Que tem o céu por dócil;
Rei do deserto, ele campa
No trono do seu corcel.
Livre, ao relento, etc.
S’está na vila ao domingo,
Na toada da viola
As saudades de seu pingo
Cantando, o peito consola.
Os aplausos que por diversas vezes tinham interrompido o trovador, prorromperam afinal. Onde aprendera o gaúcho letra tão bonita? Era tirada de sua cabeça, ou tomada de alguma cantiga que ouvira nas cidades?
Soltando a última nota, Manuel afastou-se rapidamente e sentou-se na outra ponta do alpendre onde lhe trouxeram almoço. A roda a pouco e pouco se foi dispersando; e instantes depois já não restava senão um ou outro amigo da cachaça, que não podendo bebê-la por falta de cobres, ao menos queria sentir-lhe o cheiro consolador.
De repente sentiu o Canho cingir-lhe o pescoço um colar macio e tépido; eram os braços da Catita que ela tinha enlaçado como uma cadeia. Voltando o rosto surpreso, viu o gaúcho um rostinho mimoso, banhado em um sorriso provocador, e esclarecido por um olhar lânguido e fagueiro.
— Você me dá aquele poldrinho, sim? dizia a voz, doce como um favo de mel.
Manuel desatou secamente o enlace que o prendia, e desviou-se da menina aborrecido. Aquele pedido lhe parecia uma ofensa; e o modo por que fora feito ainda mais o contrariava.
Arredando-se do lugar onde estivera sentado, procurou esquecer-se da menina; acabado que foi o almoço, acendeu o cigarro, ajustou os arreios, e cuidou de pôr-se a caminho.
Ia montar quando sentiu que lhe faltava alguma coisa: era a boceta que deixara ficar sobre o banco onde a princípio estivera sentado. Voltou a procurá-la.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.