Por Camilo Castelo Branco (1862)
Perguntou por Mariana, e o carcereiro lhe disse que a mandava chamar. Veio João da Cruz, e a chorar se lastimou de perder a filha, porque a via delirante a falar em forca e a pedir que a matassem primeiro. Agudíssíma foi então a dor do acadêmico ao compreender, como se instantaneamente lhe fulgurasse a verdade, que Mariana o amava até o extremo de morrer. Por momentos se lhe esvaiu do coração a imagem de Teresa, se é possível assim pensá-lo. Vê-la-ia porventura como um anjo redimido em serena contemplação do seu criador; e veria Mariana como o símbolo da tortura, morrer a pedaços, sem instantes de amor remunerado que lhe dessem a glória do martírio. Uma, morrendo amada; outra, agonizando, sem ter ouvido a palavra "amor" dos lábios que escassamente balbuciavam frias palavras de gratidão.
E chorou então aquele homem de ferro. Chorou lágrimas que valiam bem as amarguras de Mariana.
— Cuide de sua filha, senhor Cruz! — disse Simão com fervente súplica ao ferrador — Deixe-me a mim, que estou vigoroso e bom. Vá consolar essa criatura, que nasceu debaixo da minha má estrela. Tire-a de Viseu; leve-a para sua casa. Salve-a, para que neste mundo fiquem duas irmãs que me chorem. Os favores que me tem feito, já agora dispensa-os a brevidade da minha vida. Daqui a dias mandam-me recolher ao oratório; bom será sua filha ignore.
De volta, João da Cruz achou a filha prostrada na pavimento, ferida no rosto, chorando e rindo, demente em suma. Levou-a amarrada para sua casa, e deixou a cargo de outra pessoa a sustentação do condenado.
Terribilíssimas foram então as horas solitárias do infeliz. Até àquele dia, Mariana, benquista do carcereiro e protegida pela amiga de D. Rita Preciosa, tinha franca entrada no cárcere a toda a hora do dia, e raras horas deixava sozinho o preso. Costurava enquanto ele escrevia, ou cuidava do amanho e limpeza do quarto. Se Simão estava no leito doente ou prostrado, Mariana, que tivera alguns princípios de escrita, sentava-se à banca, e escrevia cem vezes o nome de Simão, que muitas vezes as lágrimas deliam. E isto assim, durante sete meses, sem nunca ouvir nem proferir a palavra amor. Isto assim, depois das vigílias noturnas, ora em preces, ora em trabalho, ora no caminho de sua casa, onde ia visitar o pai a desoras.
Nunca mais o preso, na perspectiva da forca, viu entrar aquela doce criatura o limiar da ferrada porta, que lhe graduava o ar, medido e calculado para que as inteiras horas da asfixia as gozasse o cordel do patíbulo. Nunca mais!
E, quando ele evocava a imagem de Teresa, um capricho dos olhos quebrantados lhe afigurava a visão de Mariana ao par da outra. E lacrimosas via as duas. Saltava então do leito, fincava os dedos nos espessos ferros da janela, e pensava em partir o crânio contra as grades.
Não o sustinha a esperança na terra, nem no céu. Raio de luz divina jamais penetrou no seu ergástulo. O anjo da piedade encarnada naquela criatura celestial que enlouquecera, ou voltara para o céu com o espírito dela. O que o salvara do suicídio não era, pois, esperanças em Deus, nem nos homens; era este pensamento: "Afinal, cobarde! Que bravura é morrer quando não há esperança da vida?! A forca é um triunfo quando se encontra ao cabo do caminho da honra
CAPÍTULO XIII
— E Teresa?
Perguntam a tempo, minha senhoras, e não me hei de queixar se me argüírem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menosporte.
Esquecido, não. Muito há que me reluz e voeja, alada como o ideal querubim dos santos, nesta minha quase escuridade, aquela ave do céu, como a pedir-me que lhe cubra de flores o restilho de sangue que ela deixou na terra. Mais lágrimas que sangue deixaste, ó filha da amargura! Flores são tuas lágrimas, e do céu me diz se os perfumes delas não valem mais aos pés do teu Deus que as preces de muita devota que morre santificada pelo mundo, e cujo cheiro de santidade não passa do olfato hipócrita ou estúpido dos mortais.
Teresa Clementina bem a viam transportada da escadaria do templo onde caíra, à liteira que a conduziu ao Porto. Recobrando o alento, viu defronte de si uma criada, que lhe dizia banais e frias expressões de alívio. Se alguma criada de seu pai lhe era amiga, decerto não aquela, acintemente escolhida pelo velho. Nem ao menos a confiança para tal expansão em gritos restava à afligida menina! Mas um raio de piedade ferira o peito da mulher até àquela hora desafeta a sua ama.
Perguntava-se a si mesma Teresa se aquela horrorosa situação seria um sonho! Sentia-se de novo falecer de forças, e voltava à vida, sacudida pela consciência da sua desgraça. Condoeu-se a criada, e incitou-a a respirar, chorando com ela, e dizendo-lhe:
— Pode falar, menina, que ninguém nos segue.
— Ninguém?!
— As suas primas ficaram: apenas vêm os dois lacaios.
— E meu pai não?
— Não, fidalga... Pode chorar e falar à sua vontade.
— E eu vou para o Porto?
— Vamos, sim minha senhora.
— E tu viste tudo como foi, Constança?
— Desgraçadamente vi...
— Como foi? Conta-me tudo.
— A menina bem sabe que seu primo morreu.
— Morreu?! Vi-o cair quase nos meus pés; mas...
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.