Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

Principiava a chuviscar. O abade ofereceu a sua casa ao forasteiro, enquanto não estiava a chuva. Veríssimo aceitou por momentos, visto que não se prevenira com guarda-chuva – um traste que detestava. Os aguaceiros repetiram-se com pequenas intercadências, varejados pelo sul; por fim, as cristas da serrania empardeceram, as nuvens rolavam pelos declives como escarcéus a despenharem-se, fechou-se o horizonte sem uma nesga, e a chuva não parava. O abade não permitiu que o hóspede saísse com tal tempo e já perto da noite.

Durante a ceia, apareceram algumas raparigas mascaradas com lençóis, abraçando a Senhorinha que servia à mesa, e dizendo em falsete pilhérias ao Nunes, a quem chamavam Trocatles e précurador de causas perdidas. Veríssimo mostrava-se contente e dizia:

– Bom povo! excelente povo! Este Minho é o bom coração de Portugal, e os seus habitantes, segundo me consta, possuem os melhores corações do reino. Eram dignos de ser mais felizes do que são, carregados por tributos, esmagados pelo peso dos empregados públicos, que são o flagelo de Portugal..

O padre escutava-o com religiosa atenção; o Nunes beliscava a coxa do abade, que tomam a presidência da mesa e pusera o hóspede à sua direita.

No fim da ceia, o padre Marcos, com o copo na mão, e de pé, disse que fazia uma saúde ao seu hóspede, porque lhe parecia que tinha a honra de beber à saúde de um realista, de um partidário de Sua Majestade o Sr. D. Miguel I, que Deus guardasse! O hóspede agradeceu, declarando que mesmo numa roda de liberais não negada os seus sentimentos políticos: que era realista, e como tal brindava à saúde de todos os amigos do príncipe proscrito.

O Nunes dava canelões inteligentes e às vezes dolorosos no abade, que o encarava de esconso como quem diz: – percebo; não faça de mim asno; sei que estou falando com el-rei.

A criada deu parte que estava pronta a cama.

– Quando Vossoria quiser – disse ela ao hóspede.

Veríssimo sorriu-se agradavelmente:

– Que incómodo estou dando a esta excelente família... Irei descansar, Senhor Abade, e Sr. Torcato... parece-me que lhe ouvi chamar Torcato.

– Nunes Elas, um criado de vossa... – e susteve-se.

Dizia-lhe depois o abade no quinteiro:

– Você ia-se estendendo, Nunes! Esteve por um triz a dizer, um criado de Vossa Majestade, não esteve?

– Por um triz, abade, que me estendia! Tal é a certeza de que está el-rei nesta casa! – E com transporte, olhando para as janelas: – Onde está pernoitando o Sr. D. Miguel I! o rei amado dos Portugueses, na pobre residência de São Gens de Calvos! Isto parece um sonho!

A segunda-feira de Entrudo foi uni chover desabalado. Não houve entremez nem se via viva alma no cruzeiro. O abade não consentiu que o hóspede se retirasse; e, aconselhado por Nunes, mandou à Póvoa buscar a bagagem. Era um baú de lata amolgado na tampa, com um cadeado roído de ferrugem. O legitimista ainda não tinha dado nome algum, nem os outros ousavam abrir ensejo a que ele tivesse de o inventar. Seria indelicadeza obrigado a mentir. Além de que, o padre Marcos, tratando-o sempre por senhor – o senhor isto, o senhor aquilo –, entendia que se aproximava do tratamento que se deve aos reis, e ao mesmo tempo ia insinuando ao real hóspede que já o conhecia.

– Bom é que ele se vá persuadindo que não somos pategos – dizia o abade ao Nunes. – Sim, bom é que se persuada... você percebe. – E piscava com esperteza.

– Ora, se percebo! O abade tem andado com uma cábula muito fina. Eu é que me custa a ter mão em mim. A minha vontade era deitar-me de joelhos aos pés dele, e dizer-lhe:

– Deixe estar – acomodava o padre – deixe estar, Nunes. As coisas não vão assim... Quando for tempo, eu lhe direi... Nada de espantar a caça.

O Veríssimo pediu ao abade algum livro para se entreter, e não o obrigar a aturálo. O padre levou-o ao seu quarto, onde havia uma estante de pinho com três lotes de livros. Mostrou-lhe o Punhal dos Corcundas, a Defesa de Portugal, do padre Alvito Buela, a Besta Esfolada, os Burros, e o Novo Príncipe. O Veríssimo levou-os para o seu quarto, excepto os Burros; disse que não gostava de poesia. Falou com louvor do padre José Agostinho e de Frei Fortunato de S. Boaventura – colunas do altar e do trono, que tinham deixado dois vácuos impreenchíveis na falange realista. Perguntou-lhe o abade se os tinha conhecido pessoalmente. – Que sim, com as suas mãos... E sorria, como o príncipe proscrito, se lhe fizessem semelhante pergunta.

– Que prazer teria o padre José Agostinho, se hoje vivesse e pudesse ver el-rei!... – meditou o abade com a sua grande perspicácia observadora.

– Decerto. – concordava o Veríssimo indolentemente. – Mas quem tem agora esperanças de ver D. Miguel em Portugal?

– Eu, senhor, eu! – respondeu o padre, batendo na arca do peito com as mãos ambas. – Eu!

O Veríssimo folheava o Punhal dos Corcundas, e parecia não perceber a veemência do padre.

– Bons desejos, bons desejos do caro abade..

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3637383940...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →