Por Aluísio Azevedo (1882)
A vítima de Pedro Ruivo comprazia-se naquela dedicação; achava prazer, conforto, no martírio em que se impusera por um reclamo da sua consciência. E dessa forma não abandonava um só instante a câmara da enferma, pronta sempre a correr ao seu mais leve gemido e a sustentá-la nos braços horas esquecidas, sempre risonha, sempre meiga, sempre consoladora.
Quando a doente, um mês depois, principiou a convalescer, adorava a sua enfermeira. O conde de S. Francisco e o seu amigo da marinha foram encontrá-las nessa situação. Margarida acabava de erguer-se pelo braço de Cecília.
Principiou então uma nova época para todos eles. Os dois rapazes se tinham apaixonado pelas duas belas amigas. O conde pretendia a filha do coronel e o oficial a outra.
Mas Cecília ignorava tudo isso. Uma tarde Margarida tomou-lhe as mãos e disse-lhe que tinha um pedido a fazer-lhe.
— Só um?... perguntou aquela, beijando-lhe na face.
— Só, porém tão sério, que vale por muitos...
— Que é?
— É o pedido de tua mão...
— De minha mão? exclamou Cecília, empalidecendo.
— Sim, e tu já sabes para quem, disfarçada!...
— Para o Leão Vermelho!...
— Justamente; para esse rapaz, que tanto estima teu irmão, quanto te adora...
Cecília não respondeu e deixou-se possuir de um fundo embaraço. A outra insistiu, dizendo-lhe, entre afagos, as vantagens que poderiam vir desse casamento.
Começou então para a filha de Helena uma grande luta interior. Seu caráter leal e generoso revoltara-se contra a mentira e a falsidade; mas o perigo iminente da sua falsa posição, a vergonha que a esperava, sobressalto em que ela vivia, acabaram por lhe sufocar os bons impulsos.
Entretanto Leão Vermelho tinha de partir e precisava de uma resposta definitiva.
— É muito cedo! interveio o coronel, lembrando que Cecília apenas o conhecia havia poucos dias.
— Estas coisas, ou se resolvem assim ou se não resolvem nunca,
respondeu o oficial. Tenho muito em breve de partir para uma viagem longa, talvez a última que faça, e desejo saber se vou feliz e casado, ou se vou triste e consumido pelas saudades que daqui levo!
Cecília concordou finalmente. Daí a dois dias se casava com Leão Vermelho e seguiam juntos.
A sua ausência causou enorme tristeza em casa do coronel, mas o conde procurava suavizá-la do melhor modo possível, o que em grande parte conseguiu.
O médico aconselhara a Margarida uma viagem a bons climas antes do casamento. Partiram os três, os noivos e o coronel, dentro de quinze dias. Atravessaram a Espanha, passaram-se depois a Nice, foram a Nápoles e à Sicília. De volta a Portugal recolheram-se ao antigo castelo da família do conde; reuniramse então os parentes deste e celebrou-se afinal o casamento com muita pompa e com muita alegria.
Entretanto, Leão Vermelho voltava ao Porto com a mulher, que já se achava em adiantado estado de gravidez.
O comandante, como vimos, tratou então de obter a sua reforma, e com ela um lugar que lhe deixasse gozar em terra firme o descanso e a felicidade do lar doméstico.
Conseguiu, enfim, realizar esse desejo, mas por outro lado principiou a sofrer na sua vida íntima com Cecília. A mulher parecia-lhe estranhamente reservada; dir-se-ia dissimular algum segredo que a fazia sofrer constantemente. Embalde, porém, o comandante a espreitou por muito tempo; embalde procurara apanhar-lhe um gesto, uma palavra, qualquer coisa, que lhe indicasse a ponta do mistério. Nada! Um dia, afinal, surpreendeu-a a fazer, com muito empenho, uma carta e, na ocasião em que, pé ante pé, foi espiar o que ela escrevia, Cecília soltou um grito, cobriu o papel com ambas as mãos e empalideceu.
— Deixe-me ver esta carta! disse Leão Vermelho secamente.
Cecília respondeu que tinha vergonha de mostrá-la; era Uma futilidade, uma
tolice!...
— Não faz mal! quero ver!
— Não... objetou a mulher, procurando compor um gesto de meiguice e de sangue frio.
— Pior! exclamou o comandante, encolerizando-se. Dê-me isso por bem, se não quiser dar à força!
— Pois aí a tens!
E Cecília sacudiu os ombros, resignadamente.
Leão Vermelho leu a carta com visíveis sinais de cólera na fisionomia. Os olhos parecia crescerem-lhe debaixo das sobrancelhas crespas e negras, e os lábios contraíam-se-lhe, mostrando cada vez mais os dentes fuliginosos de tabaco.
— A quem era isto dirigido?! perguntou ele, cerrando as pálpebras e atravessando a mulher com um olhar frio e penetrante.
— Para que o queres tu saber?! Não vês, pelo que está escrito, a digna posição que tomava eu para quem me dirigia?.
— Nada tenho a ver com isso! Quero saber para quem era esta carta!
— Mas que lucras tu em saber a quem era ela dirigida?!
— Mau! responda à minha pergunta e guarde as considerações para depois!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.