Por Aluísio Azevedo (1884)
E, sentindo um novelo enrodilhar-se-lhe na garganta, foi à janela e abriu-a bruscamente de par em par.
Sua fantasia fugiu logo noite fora, como ave ominosa e amiga das trevas e do silêncio. E ela ficou, ficou a olhar, a olhar para o espaço, como se acompanhasse com a vista o doido remigiar do pássaro fantástico e agoureiro.
A noite era calma e de uma transparência azul. Sentiam-se no ar emanações balsâmicas que se despediam do jardim, onde ainda bruxuleavam tristemente os últimos balõezinhos venezianos; ao passo que das salas do primeiro andar, em um tom cansado e arquejante, subiam de rastros longos gemidos de outras valsas alemãs.
Filomena apoiou os cotovelos no balcão da janela, cobriu o rosto com as mãos e pôs-se a chorar.
Nisto, a lua, afastando a cortina de nuvens que a velava, entornou da concha de prata a sua luz tranqüila e misteriosa, que é, como um doce orvalho refrigerante para os corações abrasados na febre do amor.
Então, uma infinidade de considerações veio grupar-se no espírito magoado de Filomena Borges.
Agora, que pela primeira vez o esposo lhe aparecia capaz de esquecê-la por outra, é que ela o desejava e queria como nunca. As palavras da viúva enchiam-na toda de um amor inesperado e punham-lhe no espírito o sobressalto de quem dá de repente pela falta de um objeto precioso que trazia consigo; enquanto a pontinha sorrateira de um nascente remorso aproveitava a perturbação em que ela estava para ir desfibrando, um por um, todos os véus que escondiam as qualidades simpáticas do marido.
E o vulto do Borges, à proporção que se descobria aos olhos da mulher, ia crescendo, crescendo, e tomando dimensões extraordinárias.
Filomena já o via generoso, bom, intrépido e apaixonado. — Sim!...
murmurou ela, como se despertasse de um longo entorpecimento. — Sim!... Ele era digno de muito mais amor! É um homem completo, um coração enorme, um caráter sublime! Eu, só eu, fui a culpada de o haver perdido: nunca o apreciei devidamente! nunca lhe paguei em amor bastante tudo que a sua dedicação punha aos meus pés! Imprudente que fui!... Mas ele?!... Ele! como pôde esquecer-se de mim por aquela mulher detestável?! Oh! Eu detesto-o! Eu abomino-o!
E, escondendo de novo o rosto, abriu de novo a chorar.
Estava agora mais formosa na sua fantasia espanhola: toda vergada sobre o balcão da janela, os quadris empinados, suspendendo um pouco mais a saia de seda amarela, guarnecida de rendas pretas; as pernas cruzadas, os ombros vagamente iluminados pela lua, faziam estranha harmonia naquela expressão de angústia, casada com o salero de seu tipo a Fortúnio.
Mas um beijo à queima-roupa, recebido em cheio no pescoço, fê-la soltar um grito e voltar-se rápida como uma espada em duelo.
A seu lado tremulava o irrequieto penacho vermelho do marido, cujas mãos lhe haviam já empolgado a cinta e a puxavam brandamente sobre ele.
Filomena, em vez da costumada resistência, passou-lhe os braços em volta do pescoço e começou a disparar-lhe beijos por todo o rosto, com um tal ardor e com uma tal obstinação, que o pobre homem, pouco habituado àqueles ataques, esteve a perder o fôlego.
— Upa! exclamou ele afinal, atordoado e cheio de espanto.
A mulher fitou-o por alguns segundos e, de repente, atirou-se-lhe de novo nos braços como uma descarga. O Borges, ainda desorientado com a primeira, hesitou entre a resolução de fugir ou implorar graças. Daquela forma a mulher davalhe cabo do canastro!... Que menina!
— Tu amas-me Borges?! interrogou ela, segurando-lhe as mãos com transporte.
— Ora, que pergunta! Pois ainda tens alguma dúvida a esse respeito?...
— Não sei! Quero que respondas! Quero que digas se me amas, se és só meu!
— Oh! Tu até me ofendes com isso, filhinha! Bem sabes que sim... Mas, anda daí. Há meia hora que estou à tua procura. — alguns dos nossos convidados já se querem raspar. Anda, vem daí!
— Não! Espera, espera um instante! Desejo ter-te ainda algum tempo nos meus braços! Não me fujas! Vem cá!
O Borges, cada vez mais surpreso, não teve forças para resistir, e os dois, assentados no mesmo divã abraçados como dois amantes de quinze dias, juravam e tornavam a jurar uma afeição eterna, quando, no fim de meia hora, o sinal da sexta quadrilha os foi interromper.
— Ouviste? exclamou ele, pondo-se de pé. — Vão tocar uma quadrilha; não devemos ficar aqui. A caminho!
— É' a sexta, disse Filomena.
— É! é a sexta... repetiu ele.
— Pois vamos. Serás o meu par; ainda não dançaste hoje comigo...
— Impossível, balbuciou o Borges, já tenho par. Dançaremos a seguinte.
— Não quero! Quero esta!
— Mas meu amor, se te estou dizendo que...
— Quem é o teu par?!
— É...
— A Chiquinha... Aposto!
— É exato, é justamente a Chiquinha, disse o marido enrubescendo.
— Pois vai! Vai!, respondeu a mulher repelindo-o. Eu fico.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.