Por Aluísio Azevedo (1884)
Novo calafrio, desta vez, porém , acompanhado de suores. E não lhe acudia um título para apresentar, um título qualquer, ainda que não fosse verdadeiro.— Ora, como é mesmo? Insistia a senhora. – Tenho o nome debaixo da língua! E, voltando-se com superioridade para o marido: — Como se chama aquela poesia, que está no álbum de capa escura, escrita a tinta azul? O Pereira abriu os olhos e disse lentamente:
— O Cântico do Calvário.
És um idiota!respondeu a mulher.
A resposta do Pereira provocou hilaridade. Amâncio consultou logo a opinião de Lúcia sobre o Varela. Mme. Brizard falou então dos versos do marido, prometeu que os mostraria depois do jantar.
Amâncio soltou uma exclamação de espanto:
— Ignorava que o Coqueiro também fizesse versos!
— Faço-os, confirmou este — mas só para mim, publiquei já alguns com pseudônimo. Receio a convivência dos literatos que formigam por aí, esfarrapados e bêbados. Não me quero misturar com eles! Faço versos, é verdade, mas tenho a presunção de escrevê-los como devem ser e não acumulando extravagâncias e disparates para armar ao efeito! Faço versos, mas não tomo parte nessas panelinhas de elogio mútuo e nesses grupos de imbecis escrevinhadores!
E, com muito azedume, com durezas de inveja, principiou a dizer mal dos rapazes que no Rio de Janeiro se tornavam mais conhecidos pelas letras.
— Pedantes! Resmungava. — Súcia de idiotas! Hoje, todos querem ser escritores; sujeitinhos que não sabem ligar duas idéias, arrogam-se, da noite para o dia, os foros de literatos! Uma cambada!
E ria-se com um gesto amargo de desgosto.
Lúcia e Lambertosa defendiam timidamente alguns nomes.— Ora o quê, senhores! Replicava Coqueiro furioso e pálido. — Qual é aí o tipo da tal “geração moderna” que se possa aproveitar?...Não me apontam nenhum! São todos umas bestas!
— Coqueiro!...repreendeu Mme. Brizard em voz baixa. — São todos umas nulidades, uns zeros!...
Era a primeira vez que Amâncio via o colega sair de si. Não o supunha capaz daquelas explosões.
Mme. Brizard compreendeu o pensamento do provinciano e apressou-se a dizer-lhe ao ouvido:
— Também é só o que o faz sair do sério...a literatura!
Amélia indagou se Amâncio também, escrevia. Ele disse que sim, a sorrir, a desculpar-se com os outros.
— Quem neste mundo não rabiscava mais ou menos?...
Ela mostrou logo empenho em lhe conhecer as produções.
— Não vale a pena! Disse o moço. — Não vale a pena!
— Ai, ai! suspirou Nini, que parecia adormecida com olhos abertos.
Mme. Brizard que já conhecia o alcance daquele suspiro, perguntou à filha o que desejava. Nini apontou melancolicamente para uma prato, onde fatias transparentes de abacaxi nadavam em calda de vinho.
— Não senhora, volveu a mãe, — isso não pode ser, faz-te mal.
Nini suspirou de novo e ficou a olhar para Amâncio, resignadamente, o semblante muito pesaroso, a cabeça vergada para o lado.
— Serve-te antes de doce, aconselhou Mme. Brizard.
O Lambertosa apressou-se a passar a Nini a compoteira.
— Pouco, Sr. Lambertosa, dê-lhe pouco!
Veio o café. César levantou-se da mesa e foi brincar a um canto da sala. Mme. Brizard queria saber se estavam todos satisfeitos; ela, quanto a si, — jantara perfeitamente, confessava.
E, com um aspecto regalado, deixava-se ficar prostrada na cadeira, entorpecida no bem-estar do seu estômago.
O copeiro, um preto alto de pernas compridas, levantou a toalha, acendeu o gás e trouxe curaçau e conhaque. Amélia bebericou o seu cálice de licor e levantouse logo para ir à janela. Afastaram-se as cadeiras da mesa, e a conversa reapareceu com mais força.
O Lambertosa, Mme. Brizard e Coqueiro formaram grupo, a discutir o preço excessivo e a falsificação dos gêneros alimentícios.. O gentleman reclamava uma junta de higiene, rigorosa, que mandasse lançar à praia todos os gêneros deteriorados que encontrasse. “Era assim que se fazia na Europa!”
Lúcia, do outro lado da mesa, continuava a falar com Amâncio sobre literatura. Já estavam em Theóphile Gautier, Theodore de Banville e Baudelaire, depois de haverem tocado de passagem em alguns escritores de Portugal. Agora sentia-se mais eloqüente o provinciano; acudiam-lhe opiniões e juízos perfeitamente armados; percebia que as suas palavras causavam bom efeito; ia bem.
Pereira e Nini conservavam-se um defronte do outro, igualmente concentrados e mudos; ela, porém com os olhos muitos abertos sobre Amâncio. O outro, afinal ergueu-se, atravessou, lentamente, como um sonâmbulo, a sala de
jantar, e foi e foi estender-se em uma preguiçosa que ficava junto à janela Vibrou então o piano no salão de visitas.
— É melhor irmos todos para lá, alvitrou a dona da casa.
O marido e o Lambertosa aceitaram logo a idéia, e Amâncio, sem interromper a sua conversa com a mulher do Pereira, a esta deu o braço e segui o exemplo daqueles.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.