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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Desde esse momento, Hermano não teve mais segredos para Amália; e esta, durante as suas longas confidências, pôde ler nas recordações do marido, como nas páginas de um livro inédito, toda a história do homem a quem se unira. 

 

Hermano contou-lhe uma e muitas vezes as menores circunstâncias de sua vida com Julieta. As impressões nessa alma opulenta eram profundas. A efígie da mulher amada ficara ali fundida como uma estátua ideal. 

 

Amália passava as horas nos aposentos, que tinham pertencido, e ainda pertenciam, à sua rival. Aí coligia todos os traços, todos os vestígios, deixados pela pessoa que os habitara; e com esses indícios esforçava-se em recompor a mulher que ela não conhecera, e que mal vira de longe com olhos de criança. 

 

Ao cabo de uma semana, sabia os gostos de Julieta, os seus perfumes prediletos, os moldes de que ela mais gostava, as cores de seu agrado, as músicas favoritas; todas essas simpatias que formam a originalidade de um caráter. 

 

Amália tinha o mesmo corpo de Julieta com alguma diferença das formas, que nela eram mais ricas e harmoniosas. Vencendo a repugnância que a princípio sentira, a moça chegou a trajar-se completamente com as roupas e enfeites da morta. 

 

Pensava acaso que esses objetos lhe transmitiriam pelo contato alguma coisa da pessoa a quem haviam servido. Ou buscava apenas criar uma semelhança que favorecesse a ilusão de Hermano? 

 

Ela própria não sabia que tenção era a sua. Não calculava: cedia à influência de um desejo intenso. 


Queria ser a mulher que Hermano amava, como Julieta fora antes dela. Nos livros que achou na pequena estante do toucador, também Amália colheu muitas idéias, de que se apropriou para imitar o misticismo do original que ela se propunha copiar. 

 

Um dia disse a Hermano: 

 

— Eu acredito que Julieta me quer bem. Quando estou aqui, no seu quarto, tenho um contentamento, como se estivesse em sua companhia. Às vezes parece que ela me abraça. 

 

Outro dia, no meio de uns idealismos romanescos, teve esta inspiração: 

 

— O amor uniu a alma de Julieta à sua, Hermano. Por que não poderá unir da mesma forma a alma dela à minha, que também o ama? 

 

A transformação de Amália já era tão perfeita, que enganava Hermano e até o Abreu, sobretudo quando ela disfarçava com uma renda preta os seus lindos cabelos louros, ou mesmo tingia com algum cosmético. 

 

O velho criado habituou-se a ver nela a imagem de Julieta, e desde então envolveu-a na afeição que votara à sua filha de criação. Estimou-a, como se estima um retrato de pessoa a quem se quer. 

 

Quanto a Hermano, tinha momentos de completa ilusão, em que supunha-se transportado aos tempos de seu primeiro casamento. Apagava-se então de sua memória todo o tempo que vivera depois da morte de Julieta; e ele era feliz como se ainda tivesse a seu lado a mulher a quem amava. 

 

De repente, porém, uma circunstância qualquer, um incidente mínimo, que Amália não percebia, talvez um volver dos olhos, uma inflexão de gesto, o contato das mãos, rompia o encanto; e ele recuava como o homem que vê abrir-se por diante um abismo. 

 

Fugia então; e ia abrigar-se daquela sedução no quarto de Julieta, perto da estátua, que para ele representava o despojo material da alma de sua primeira mulher. 

 

Amália recomeçava então com a mesma energia e perseverança aquela indução paciente, que terminava em nova decepção. Crescia-lhe a esperança, porque a sua fascinação aumentava a cada instante; ela não podia duvidar. Hermano resistia ainda mas chegaria o momento em que se deixaria vencer, e então ele lhe pertenceria e seriam felizes. 

 

Se adivinhasse o efeito que essa luta produzia no ânimo do marido, e o extremo a que o arrastava, ela decerto a abandonaria, cheia de horror. 

 

Com efeito Hermano, quando libertava-se da fascinação que Amália exercia sobre ele, enchia-se de pavor pelo perigo que o ameaçara. Estivera a ponto de cometer esse crime que era para ele o mais indigno, por ser o roubo da honra e da vida. 

 

Via-se já réu de um adultério infame! 

 

Ter enganado a moça a quem se unira em segundas núpcias, sacrificando a sua felicidade, que ele não podia dar-lhe; era já uma vilania de que se envergonhava, e da qual decidira resgatar-se com a morte. Que nome teria essa indignidade, se a agravasse com a mácula da virgem pura e ingênua que se confiava de sua lealdade? 

 

(continua...)

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