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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- O que me aflige é não ver-te casada. Mais nada. 

Quando lembravam-se que o dinheiro deixado por Pedro Camargo e a esmola do fazendeiro haviam de acabar-se um dia, ficando elas na indigência, acudia a viúva:

- Ah! Se eu te visse casada! 

Aurélia é quem suportava todo o peso da casa. Sua mãe, abatida pela desgraça e tolhida pela moléstia, muito fazia, evitando por todos os modos tornar-se pesada e incômoda à filha. Envolvera-se ainda em vida em uma mortalha de resignação, que lhe dispensava o médico, a enfermeira e a botica. 

Os arranjos domésticos, mais escassos na casa de pobre, porém de outro lado mais difíceis, o cuidado da roupa, a conta das compras diárias, as contas do Emílio e outros misteres, tomavam-lhe uma parte do dia; a outra ia-se em trabalhos de costura. 

Não lhe sobrava tempo para chegar à janela; à exceção de algum domingo em que a mãe podia arrastar-se até a igreja à hora da missa e de alguma volta à noite acompanhada pelo irmão, não saía de casa. 

Esta reclusão afligia a viúva, que muitas vezes lhe dizia: 

- Vai para a janela, Aurélia. 

- Não gosto! Respondia a menina. 

Outras vezes, ante a insistência da mãe, buscava uma desculpa:

- Estou acabando este vestido. 

Emília calava-se, contrariada. Uma tarde porém manifestou todo o seu pensamento. 

- Tu és tão bonita, Aurélia, que muitos moços se te conhecessem haviam de apaixonar-se. Poderias então escolher algum que te agradasse. 

- Casamento e mortalha no céu se talham, minha mãe, respondia a menina rindo-se para encobrir o rubor. 

O coração de Aurélia não desabrochara ainda; mas virgem para o amor, ela tinha não obstante, a vaga intuição do pujante afeto, que funde em uma só existência o destino de duas criaturas, e completando-as uma pela outra, forma a família. 

Como todas as mulheres de imaginação e sentimento, ela achava dentro de si, nas cismas do pensamento, essa aurora d'alma que se chama o ideal, e que doura ao longe com sua doce luz os horizontes da vida. 

O casamento, quando acontecia pensar nele alguma vez, apresentava-se a seu espírito como uma coisa confusa e obscura; uma espécie de enigma, do seio do qual se desdobrava de repente um céu esplêndido que a envolvia, inundando-a de felicidade. 

Em sua ingenuidade não compreendia Aurélia a idéia do casamento refletido e preparado. Mas a insistência da mãe, inquieta pelo futuro, fez que ela se ocupasse com esta face da vida real. 

Reconheceu que não tinha direito de sacrificar a um sonho de imaginação, que talvez nunca se realizasse, o sossego de sua mãe primeiro, e depois seu próprio destino, pois que sorte a esperava, se tivesse a desgraça de ficar só no mundo? 

O golpe que sofreu por esse tempo, ainda mais a dispôs ao sacrifício de suas aspirações. 

Emílio, reconhecendo-se muito fatigado, uma tarde de excessivo calor, cometeu a imprudência de tomar um banho frio. A conseqüência foi uma febre de mau caráter que o levou em poucos dias. 

Aurélia não deixou a cabeceira do leito desse irmão, a quem ela amava com desvelo maternal. Os cuidados incessantes e os extremos de que o cercou, bem como a necessidade de acudir a tudo, foi talvez o que a salvou de ser fulminada por essa desgraça. 

A viúva que mal resistira ao golpe da perda do filho, ainda mais se aterrava agora com o isolamento em que ia deixar Aurélia. Se Emílio não prometia à irmã um arrimo, em todo o caso era uma companhia, e podia dar-lhe ao menos a proteção material, quando não fosse  senão de sua presença. 

Redobraram pois as insistências da pobre viúva; e Aurélia ainda coberta do luto pesado que trazia pelo irmão condescendeu com a vontade da mãe, pondo-se à janela todas as tardes. 

Foi para a menina um suplício cruel essa exposição de sua beleza com a mira no casamento. Venceu a repugnância que lhe inspirava semelhante amostra de balcão, e submeteu-se à humilhação por amor daquela que lhe dera o ser e cujo pensamento era sua felicidade. 

 

III 

 

Não tardou que a notícia da menina bonita de Santa Teresa se divulgasse entre certa roda de moços que não se contentavam com as rosas e margaridas dos salões, e cultivam também com ardor as violetas e cravinas das rótulas. 

A solitária e plácida rua animou-se com um trânsito desusado de tílburis e passeadores a pé, atraídos pela graça da flor modesta e rasteira, que uns ambicionavam colher para a transplantar ao turbilhão do mundo, outros apenas se contentariam de crestarlhe a pureza, abandonando-a depois à miséria. 

(continua...)

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