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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Quando isto se soube em Vila-Real, todas as pessoas ilustres da terra foram a Montezelos, a fim de obrigarem brandamente o pai a empregar o seu valimento na salvação do filho condenado. De Lisboa vieram alguns parentes protestar contra a infâmia, que tamanha ignomínia faria recair sobre a família, Meu pai a todos respondia com estas palavras: — A forca não foi inventada somente para os que não sabem o nome do seu avô. A ignominia das famílias são as más ações. A justiça não infama senão aquele que castiga.

Tínhamos nós um tio-avô, muito velho e venerando, chamado Antônio da Veiga. Foi este quem fez o milagre, e foi assim: Apresentou-se a meu pai, e disselhe: — Guardou-me Deus a vida até aos oitenta e três anos. Poderei viver mais dois ou três? Isto nem já é vida; mas foi-o, e honrada, e sem mancha até agora, e já agora há de assim acabar; meus olhos não hão de ver a desonra de sua família. Domingos Botelho, ou tu me prometes aqui de salvar teu filho da forca, ou eu na tua presença me mato. — E, dizendo isto, apontava ao pescoço uma navalha de barba. Meu pai teve-lhe mão do braço, e disse que Simão não seria enforcado.

No dia seguinte, foi meu pai para o Porto, onde tinha muitos amigos na Relação, e de lá para Lisboa.

Em principio de março de 1805, soube minha mãe, com grande prazer, que Simão fora removido para as cadeias da Relação do Porto, vencendo os grandes obstáculos que opuseram a essa mudança os queixosos, que eram Tadeu de Albuquerque e as irmãs do morto.

Depois..."

Suspendemos aqui o extrato da carta para não anteciparmos a narrativa de sucessos, que importa, em respeito à arte, atar no fio cortado.

Simão Botelho vira imperturbável chegar o dia do julgamento. Sentou-se no banco dos homicidas sem patrono nem testemunhas de defesa. As perguntas respondeu com o mesmo ânimo frio daquelas respostas ao interrogatório do juízo. Obrigado a explicar a causa do crime, deu-a com toda a lealdade, sem articular o nome de Teresa Clementina de Albuquerque. Quando o advogado da acusação proferiu aquele nome, Simão Botelho ergueu-se de golpe, e exclamou:

— Que vem aqui fazer o nome de uma senhora a este antro de infâmia e sangue? Que miserável acusador está ai, que não sabe, com a confissão do réu, provar a necessidade do carrasco sem enlamear a reputação duma mulher? A minha acusação está feita: eu a fiz. Agora a lei que fale, e cale-se o vilão que não sabe acusar sem infamar.

O juiz impôs-lhe silêncio. Simão sentou-se, murmurando:

— Miseráveis todos!

Ouviu o réu a sentença de morte natural para sempre na forca, arvorada no local do delito. E ao mesmo tempo saíram dentre a multidão uns gritos dilacerantes. Simão voltou a face para as turbas, e disse:

— Ides ter um belo espetáculo, senhores! A forca é a única festa do povo! Levai dai essa pobre mulher que chora: essa é a criatura única para quem o meu suplício não será um passatempo,

Mariana foi transportada em braços à sua casinha, na vizinhança da cadeia. Os robustos braços que a levam eram os de seu pai, Simão Botelho, quando, em toda a agilidade e força dos dezoito anos, ia do tribunal ao cárcere, ouviu algumas vozes que se alteravam deste modo:

— Quanto vai ele a padecer?

— É bem feito! Vai pagar pelos inocentes que o pai mandou enforcar.

— Queria apanhar a morgada à força de balas!

— Não que estes fidalgos cuidam que não é mais senão matar!...

— Matasse ele um pobre. e tu verias como ele estava em casal — Também é verdade!

— E como ele vai de cara no ar!

— Deixa ir, que não tarda quem lha faça cair ao chão!...

— Dizem que o carrasco já vem pelo caminho.

— Já chegou de noite, e trazia dois cutelos numa coifa.

— Tu viste-o?

— Não; mas disse a minha comadre que lho dissera a vizinha do cunhado da irmã, que o carrasco está escondido numa enxovia.

— Tu hás de levar os pequenos a ver o padecente?

— Pudera não! Estes exemplos não se devem perder.

— Eu cá de mim já vi enforcar três, que me lembre, todos por matadores.

— Por isso tu, há dois anos, não atiraste com a vida do Amaro Lampreia a casa do diabo!...

— Assim foi; mas, se eu o não matasse, matava-me ele.

— Então de que voga o exemplo?!

— Eu sei cá de que voga? O frei Anselmo dos franciscanos é que prega aos país que levem os filhos a verem os enforcados.

— Isso há de ser para o não esfolarem a ele, quando ele nos esfola com os peditórios.

Tão desassombrado ia o espírito de Simão, que algumas vezes esvoaçou nos lábios um sorriso, desafiado pela filosofia do povo, à cerca da forca,

Recolhido ao seu quarto. foi intimado para apelar, dentro do prazo legal. Respondeu que não apelava, que estava contente da sua sorte, e de boas avanças com a justiça.

(continua...)

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