Por Aluísio Azevedo (1882)
Mas é tão difícil morrer, pelas próprias mãos, naquela idade!... é tão difícil abandonar a vida, quando ainda temos o coração cheio de ilusões!... Se aceitasse, porém, como suportar a exibição da sua falta?... como patentear o corpo de delito, que mais tarde lhe avultaria nas entranhas? como conseguiria justificar-se de tamanha criminalidade?! Se ao menos pudessem avaliar, julgava a infeliz consigo, quanto nós, as mulheres, somos escravas do coração; quanto a natureza nos fez passivas e crédulas! se pudessem avaliar o modo pelo qual sucumbimos à primeira falta; se soubessem como acreditamos no homem que nos assalta o coração pela primeira vez! Mas não! ninguém criminará o sedutor e todos amaldiçoarão a vítima! ninguém se lembrará de que minha culpa vem da minha inocência, da minha própria virgindade e da singela espontaneidade do meu amor! Todos escarnecerão de mim, todos rirão da minha desgraça, só porque não fui tão friamente calculada, tão previdentemente refletida, que soubesse empregar as astúcias e artimanhas necessárias para equilibrar o amor do meu noivo, de modo que este não me fugisse por uma vez desesperançado, nem tampouco me abandonado por haver conseguido já o que desejava. E porque não tive o talento de ser hipócrita, de fazer negaças e de tirar partido da minha mocidade e da minha beleza, hei de passar por uma criatura ruim, por uma mulher de maus instintos, por um ente desprezível e perverso, a quem a sociedade fecha as suas portas!
Mas se assim é, continuava ela a considerar, por que singular capricho criou a natureza o amor com toda a sua cegueira, com toda a sua boa fé e com todos os seus irremediáveis perigos?... Se tínhamos de fazer calar todas as vozes interiores, para que então inventaram na natureza outras tantas vozes que às nossas correspondem, e que nos ensinam a descobrir no pecado o objeto dos nossos primeiros sonhos de mulher?...
E Cecília revoltava-se de antemão contra a injustiça que pressentia à sua espera. Na própria consciência e no próprio coração nada a acusava; ela não sentia apetites de vingança contra ninguém. Se tinha algum desejo, era de perdoar o homem a quem se barateou tão ingenuamente e pedir-lhe que não amaldiçoasse o filho.
Resolveu seguir imediatamente para a casa do coronel.
Morava este retirado da cidade, em uma bela e simples vivenda campestre, na companhia de uma irmã, tão velha como ele, e de uma filha, que era o encanto de seus olhos já amortecidos e o sol da sua longa viuvez.
Chamava-se a moça Margarida. Um sonho de vinte e dois anos: olhos azuis, de uma grande doçura ingênua, cabelos louros, quase sempre enastrados em uma trança solitária que lhe caía singelamente ao comprido das costas.
Contradizia um tanto do seu sorrir triste, de mulher. o doce ar de menina enferma, que obrigava o velho soldado a constantes sobressaltos pela saúde da filha. Receava que ela não tivesse forças para viver: Margarida fora sempre propensa às moléstias pulmonares; em pequenina os médicos a desenganaram, e, desde então, sua vida era tratada como objeto delicadíssimo que se pode quebrar com o menor abalo. E seria isso o que sem dúvida teria sucedido se, com a viuvez do coronel, não se apresentasse a irmã deste, disposta a servir de mãe a Margarida.
O coronel enviuvara quando a filha tinha apenas cinco anos, e desde então nunca mais D. Germana, sua irmã, os desamparou. Pode-se, por conseguinte, calcular o estado em que ficou o coronel, sabendo, ao chegar à casa, que Germana estava perigosamente enferma, e que Margarida não lhe abandonava a cabeceira e passava em claro noites consecutivas.
Mas não tinha de ficar aí a sua amargura. Dias depois morria a mãe adotiva de Margarida, e esta por sua vez caía seriamente prostrada pela moléstia. Foi então que, de volta dos estudos, apareceu em casa do coronel o conde de S. Francisco. Ia agradecer os últimos obséquios prestados pelo veterano a seu pai. Levava de companheiro um capitão de marinha ainda bastante moço, com quem travara relações no mar e de quem se tornara muito amigo.
O conde ofereceu à irmã bastarda os seus serviços e apresentou-lhe o oficial de marinha com as palavras mais lisonjeiras que encontrou para este. Esse oficial de marinha era o Leão Vermelho.
Tencionavam os dois amigos, uma vez desempenhados da obrigação delicada que os levara ali, voltar imediatamente, cada um para o seu destino. Mas assim não sucedeu. Os desvelos de Cecília à cabeceira de Margarida, o modo carinhoso, a abnegação, o amor com que ela disputava a amiga às garras da morte, foram laços que os seduziram e prenderam.
Cecília com efeito havia, desde logo, tomado muito interesse pela enferma. Uma certa afinidade de temperamentos, e como que uma estranha necessidade de padecer pelos outros, a jungiam à cabeceira de Margarida. Suas dores escondidas, talvez já o seu arrependimento de ter sido tão crédula e tão fraca, pediam-lhe aqueles trabalhos penosos, como o remorso pede ao criminoso a dura expiação dos seus delitos.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.