Por Aluísio Azevedo (1884)
E empurrando-a: — Vai-te, peste! Vocês tão todas a mesma súcia! E ainda há quem de os homens como culpados das patifarias das mulheres! ...
— E são! respondeu Sabina. E são! E fazem elas muito bem! Era do que você precisava para não ser bruto!
O Barroso, que se havia afastado, voltou rapidamente ao ouvir a nova ameaça, e com tal força arremessou um pé contra a mulher, que a fez ir aos trambolhões de encontro à mesa de jantar.
— Bate, danado! bate! que não me hás de tapar a boca!
O pequeno, no quarto, acabava de despertar com o barulho e pôs-se a fazer berreiro.
A mulher correu logo para junto dele e foi lhe assistindo palmadas nas perninhas tenras, a exclamar:
— Tu também, pestezinha? tu também queres entrar no sarilho?! Pois toma! Toma!
E o pequeno redobrava a gritaria na proporção das palmadas.
— Não mates a criança! rugiu o Barroso, puxando a mulher pelo braço e fazendo-a cair por terra. Ela não tem culpa que a acordasses tu com os teus berros!
— Dou! posso dar! retorquiu Sabina, esganiçando-se. É meu filho! não é seu!
— Não é meu, cachorra?!
E a pancadaria recomeçou.
Mas afinal, a desgraçada foi deitar-se, a chorar, a maldizer-se, e o marido daí a pouco fez o mesmo, ao lado dela, resmungando.
Algumas horas depois, dormiam profundamente nos braços um do outro.
— Vivemos como Deus com os anjos! ... balbuciava ele, sonhando, a conversa que tivera com o Borges no Passeio Público. — Meiguice ali!... Mas também podes ver de que maneira a trato!...
Ah! hipócritas! hipócritas!
CAPÍTULO XII
AMOR DE FILOMENA
Por esse tempo, a festa do Borges atingia o seu apogeu.
Chegava ao momento do completo delírio, do prazer sem bordas que embala e arrebata os sentidos, como um vasto oceano de delícias, sem horizontes. Chegava ao ponto em que a gente perde a noção justa das coisas e cai num doce modorrar voluptuoso e alheiado; quando tudo o que nos cerca vai-se confundindo, dissolvendo, perdendo os contornos num esbatimento de sonho; quando todos os hálitos se misturam no ar; quando os perfumes das mulheres, os gemidos das rabecas, e todas as cintilações da carne, e todas as rebrilhações dos diamantes se fundem e confundem numa atmosfera opalina, que nos penetra até os mais íntimos refolhos da alma.
Mas, no meio de tanta delícia, Filomena recebeu em pleno coração uma abalo que ela estava longe de prever.
Este abalo foi causado por uma carta caída do cinto do marido. Filomena apanhou-a, refugiou-se no quarto, abriu-a e leu-a.
Era dirigida por aquela célebre viúva rica, a Chiquinha Perdigão, a mulher de firma comercial, a mesma que em algum tempo tentara seduzir o Borges e que, afinal, a julgar pelo sentido do que vinha escrito, conseguira pouco mais ou menos os seus desígnios.
Eis o que dizia ela, à tinta encarnada, numa pequena folha de papel de seda, rescendente a couro da Rússia:
"Querido barão.
Em data de ontem, recebi a sua amável cartinha e tenho o mais vivo prazer em cumprir com o que ela me determina.
Não sei o que vou ouvir de seus lábios, mas adivinha-me o coração que não será nada de mau.
Durante a sexta quadrilha estarei à sua espera no caramanchão, que fica ao fundo da avenida de bambus.
A essa hora ninguém se lembrará de lá ir, e poderemos então conversar à vontade, sem que D. Filomena, venha a suspeitar de nossa entrevista.
Por mais cautela levarei um dominó escuro, que previamente ficará depositado no gabinete das senhoras, e acho que o barão deve também se disfarçar com outro dominó.
Por conseguinte, não se comprometa com pessoa alguma para a sexta quadrilha e, à hora marcada, esteja no ponto, sem falta. Aquela que o estima e sempre o estimou, C . Perdigão.
— Miseráveis! exclamou Filomena, amarrotando a carta. — Miseráveis!
E, depois que o seu pensamento percorreu num vôo toda a órbita do fato que ali estava provado naquele pedaço de papel, sentiu uma grande indignação pelo marido.
— Trair-me! Trair-me o infame! E logo com quem?... Com a Chiquinha!... uma mulher que pinta os cabelos e usa enchimentos de algodão! Oh! É indigno!
E, sem se poder dominar, deixou-se possuir de um desespero sombrio, de uma aflitiva sede de vingança; mas, caiu logo em si, e circunvagou olhares sobressaltados, como se receasse ser apanhada na intimidade daquele sofrimento. Desconheceu-se.
— Pois que... Teria ela ciúmes do marido?... Seria crível que ela — Filomena Borges! — amasse aquele homem, aquele impostor?! Oh! não! não era possível!
Ergueu-se da otomana, em que se havia prostrado, e pôs-se a passear pelo quarto, rindo nervosamente, a afetar que não ligava "a menor importância àqueles amores ridículos do marido".
— Que amasse! que amasse à vontade a quem melhor entendesse, que diabo tinha ela com isso?!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.