Por Aluísio Azevedo (1884)
Contudo ainda se lhe reconhecia a mocidade e ainda se alcançavam os vestígios desbotados dos encantos, que a moléstia foi pouco a pouco devastando
Só de pois de assentada, Nini desmanchou o ar aflito que fazia, pelo esforço de andar.
— Ah! respirou, quase sem fôlego. E coreu os olhos em torno de si, abstratamente, como se despertasse de um desmaio. Ao dar com Amâncio, ficou a encará-lo com insistência de criança; depois, contraiu os músculos do rosto e espalhou a vista, vagarosamente, a tomar longos sorvos de ar.
Um silêncio formou-se em torno de sua chegada; percebia-se que pensavam nela.
— Queres sopa, Nini? Perguntou afinal Mme. Brizard, com ternura. E, como as filha fizesse um movimento afirmativo de cabeça, passou-lhe um prato cheio.
Nini sorveu-o todo, a colheradas seguidas, e pediu mais
A mãe aconselhou-a a que comesse antes outra qualquer coisa.
Nini largou a colher no prato, sem dizer palavra, e pôs-se de novo a encarar para Amâncio, com um olhar tão dolorido e tão persistente, que o rapaz ficou impressionado.
E não lhe tirou mais a vista de cima. O estudante remexia-se na cadeira, importunado por aqueles dois olhos grandes, rasos, de um azul duvidoso, que se fixavam sobre ele, imóveis e esquecidos.
Disfarçava, procurava não dar por isso, nada, porém, conseguia. Os dois importunos lá estavam, sempre assentados sobre ele, a lhe queimar a paciência, como se fossem dois vidros de aumento colocados contra o sol.
— Que embirrância! Dizia consigo o provinciano.
Entretanto o jantar esquentava. A conversa explodia já de vários pontos da mesa com mais freqüência; ouviam-se tinir os garfos de encontro à louça, e os copos esvaziavam-se e de novo se enchiam, sem ninguém dar por isso.
Mme. Brizard não se descuidava um segundo de Amâncio. Apontava-lhe os pratos preferíveis, puxava as garrafas para junto dele, sempre a falar da salubridade da casa, do bem que se ficava ali, da simpatia que toda a família parecia lhe dedicar, desde o primeiro momento em que o viu.
— Pois se até a pobre Nini não se fartava de olhar para o Sr. Vasconcelos!... Amâncio sorriu.
O Lambertosa atirou-lhe diretamente a palavra sobre o Maranhão. Tratou com respeito dessa “judiciosa província, a qual merecia de justiça o honroso título que lhe fora conferido de — Atenas Brasileira!” E, depois de citar nomes ilustres, dispôs-se a contar as façanhas de um tal Maranhense, célebre pelas suas espertezas.
— Perdão! Acudiu Amâncio.— Esse cavalheiro de indústria, além do nome, nada tem de comum com a minha província!
— Ah! fez o gentleman — Pois eu o julgava filho de lá...
— Felizmente não é, respondeu o outro, ferido no seu bairrismo.
— E ainda que fosse!...observou Lúcia — que mal havia nisso?
— Certamente , confirmou Coqueiro a encher o prato.
— Pois meu amigo, volveu o Lambertosa, dirigindo-se a Amâncio, — eu o felicito! E levou o copo à boca. Eu o felicito, porque, francamente, considero um padrão de glória ver a luz do dia em uma província tão...
Faltou-lhe o termo.
— Tão, tão gigantesca! Estude, caminhe, caminhe, que tem uma grande estrada aberta defronte de si!
E engrossando a voz:
— Assiste-lhe uma responsabilidade enorme! É caminhar e caminhar firme! Ah! terminou ele com um gesto lamentoso. — Quem me dera a sua idade, meu amigo! Quem me dera a sua idade!
Continuou a falar sobre o Maranhão. Lúcia quis informações; Amâncio voltouse logo para ela, solicitamente, e na febre de falar de sua terra, começou, sem reparar que mentia, a pintar coisas extraordinárias. O Maranhão segundo ele dizia, era um viveiro de talentos; os grêmios e os jornais literários brotavam ali de toda a parte; cada indivíduo representava um gramático de pulso; as senhoras ilustradíssimas; os homens — poços de instrução; as crianças saíam da escola bons poetas e prosadores.
Coqueiro afetava acompanhá-lo naquele entusiasmo, mas ria-se por dentro.
O outro lhe parecia cada vez mais tolo.
Lúcia perguntou se Amâncio tinha algumas produções dos seus comprovincianos, que lhe pudesse emprestar. Ele prometeu que traria as que tivesse em casa. E recomendou Entre o Céu e a Terra de Flávio Reymar.
— Há em sua província um poeta que eu adoro, disse ela, cortando em pedacinhos os uma fatia de carne assada que tinha no prato.
O Franco de Sá perguntou o maranhense.
— Não, refiro-me ao Dias Carneiro.
Amâncio sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Nunca em sua vidas ouvira falar de semelhante nome.
— É, disse entretanto, — É um grande poeta!
Enorme! Corrigiu Lúcia, levando à boca uma garfada. — Enorme! Conhece aquela poesia dele, o…
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.