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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Decerto, naquela moça travessa, risonha, incrédula e leviana, que antes enchia de sua alegria as salas e os divertimentos, ninguém pensara encontrar um ano depois a mulher dominada pela paixão mais sublime, e capaz de um heroísmo de amor raro na vida ordinária. 

 

Semelhante aberração não era senão aparente. Aí nesse contraste manifestava-se o efeito de uma evolução psicológica muito natural. A insensibilidade de Amália fora apenas a infância prolongada de uma alma extremosa que só muito tarde conheceu a paixão. 

 

Em vez de gastar-se nos ensaios precoces de amor, com que as meninas antecipam a adolescência, exalando os perfumes de sua flor, Amália preservara o coração dessa babugem e quando amou foi com todas as energias e arrojos da mulher. 

 

Este romance de Amália, a incompreensível encarnação  do delírio de um cérebro enfermo, essa admirável intuição, é que me propus contar; e agora sinto que não o conseguirei. 

 

Como descrever a paciente eliminação de uma alma a despojar-se de sua individualidade para infundir em si o ser imaginário, filho de uma alucinação? 

 

Hermano voltara da cidade. Encontrando-se com ele à hora do jantar, Amália notou a sua expressão esquiva e o olhar suspeitoso que lhe perscrutava a fisionomia. O Abreu sem dúvida contara que ela estivera no gabinete; e o marido receava-se dos efeitos dessa investigação. 

 

O modo expansivo e natural com que o tratou a mulher foi dissipando as suspeitas de Hermano, que por vezes mostrou um contentamento sincero. 

 

Quando se levantaram da mesa, Amália disse ao marido com meiguice: 

 

— Eu tinha tanta vontade de conhecer Julieta! 

 

Hermano disfarçou por delicadeza; mas insistindo a mulher e reiterando perguntas sobre as feições de Julieta, ele foi ao gabinete, donde voltou com uma fotografia colorida. Era a mesma imagem do retrato a óleo. 

 

— Como é bonita! exclamou Amália com um entusiasmo que o seu amor a obrigava a simular. 

 

— Isso é apenas a sombra de sua beleza. Falta-lhe o olhar, o gesto, a voz. 

 

— De que cor eram os olhos? 

 

— A cor... Não sei; mas o olhar ainda o sinto; era como o seu agora, Amália. 

 

A moça corou e as pálpebras rosadas vendaram os seus belos olhos cheios de luz. 

 

Continuaram a conversar acerca de Julieta. 

 

Mais tarde Hermano ficou distraído, absorto. Amália sabia agora o motivo. Eram os sintomas da alucinação que, em certa horas e ocasiões, desvairava o espírito do marido. 

 

A moça foi sentar-se ao piano e abriu a ária do Fausto. Hermano lhe dissera um momento antes que era uma das peças favoritas de Julieta. 

 

Ela cantou; e o marido, que já se tinha retirado, veio sentar-se outra vez a seu lado, e ficou ali preso de sua voz. 

 

À última nota ele estremeceu e partiu. Esse canto era de Julieta, que o chamava. 


Capítulo 19 

 

Caía a tarde 

 

Amália e Hermano, sentados no jardim, contemplavam em silêncio as esplêndidas decorações, que os arrebóis desfraldavam no horizonte sobre as encostas da montanha. 

 

A moça afinal curvou a fronte e cerrando a meio os cílios para concentrar-se disse ao marido: 

 

— Ainda havia neste mundo uma felicidade para mim, Hermano; e essa não lhe custaria o menor sacrifício. 

 

O olhar do marido interrogou-a; ela respondeu com a voz súplice: 

 

— Não me pode dar o seu amor; bem o sei, e não o exijo; mas a sua amizade, sua confiança, por que motivo a recusa a quem não tem outro pensamento senão a sua felicidade? Não lhe mereço nem esta prova de estima? 

 

Hermano quis interrompê-la; ela não consentiu: 

 

— Não poderíamos viver como dois irmãos que se querem, e se amparam mutuamente nas suas tristezas e infortúnios? Por que há de ter segredos para mim que nada lhe oculto do que se passa em minha alma? Cuida que tenho ciúmes de Julieta? Engana-se. 

 

Vendo pintar-se a dúvida no semblante do marido, Amália apressou-se em desvanecê-la: 

 

— Quer uma prova? Estive ontem no toucador de Julieta; e entretanto, quando voltou da cidade, ainda achou-me nesta casa, onde me conservo. Se eu não o amasse e a ela também, com amor de irmã, sofreria essa preferência, que era uma humilhação cruel para a esposa? 

 

(continua...)

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