Por José de Alencar (1870)
Atravessando a Banda Oriental, o gaúcho passou a fronteira em Jaguarão. Queria ver Bento Gonçalves e falar-lhe. Depois do que fizera, carecia para viver tranqüilo da aprovação de seu padrinho. O coronel era para ele o símbolo da coragem, da honra, da justiça, da virtude. Aquilo que ele achasse bom devia merecer a graça de Deus.
Bento Gonçalves tinha em Camacã duas propriedades: a chácara do Cristal, residência habitual de sua família, e a estância de São João, distante daquela quatro léguas. O serviço militar porém o retinha constantemente em Jaguarão, onde aquartelava o 4º regimento de cavalaria, cujo comando reunia ao da fronteira.
Muitas vezes o chamavam fora da vila as necessidades do serviço, ou visitas às próximas estâncias, nas quais havia de ordinário jogo forte de parada. Como todo o homem habituado a uma existência cheia de perigo e agitações, o coronel carecia das emoções desse passatempo.
IX
A VIOLA
Em caminho da fronteira, que ele acabava de transpor para a vila, teve Manuel a fortuna de encontrar o coronel. O comandante oriental, D. Frutuoso Rivera, o convidara para uma tertúlia.
— Pois agora é que voltas, rapaz? exclamou o coronel, reconhecendo o afilhado. Já te supunha estaqueado!
— Ainda não, meu padrinho! disse o gaúcho a rir.
— É que os tais amigos são da pele do cão; o cuchillo não lhes cochila na mão, replicou o coronel fazendo um trocadilho com o nome castelhano de punhal.
— Desta vez, cochilou e está dormindo, que só há de acordar no dia do juízo.
— Então?…
Esta pergunta do coronel foi acompanhada de um revés da mão direita estendida, figurando o bote de uma espada.
— Nada; plantei-lhe no coração a lança que ele deixara lá em casa há doze anos.
— Conta-nos isso, rapaz. Quero ver como te saíste.
O coronel suspendeu a perna no estribo, e descansando sobre o quadril, dispôs-se a ouvir a narração do Canho.
O gaúcho referiu tudo o que passara entre Barreda e ele; mas simplesmente, sem encarecer a sua intrepidez e destreza nem desfazer no adversário. O gaúcho tinha consciência, mas não orgulho de seu valor. Para um rio-grandense, e especialmente para o filho de João Canho, ser bravo, tanto como o mais bravo, era obrigação. Não havia mérito nisso.
— Muito bem, Manuel.
— Então, meu padrinho, acha que não me saí mal?
— Caramba! Desafiaste sozinho teu inimigo e o mataste em combate leal, escapando à traição! Melhor do que isso não há! Até serviste de médico e enfermeiro ao sujeito; e o puseste são para a viagem do outro mundo.
Acompanhou o coronel estas palavras com uma grande risada. Nesse momento excitoulhe a atenção um salto da égua. O lindo animal, vendo a comitiva do comandante, parara em distância; mas a pouco e pouco se fora aproximando. Como tentasse um camarada pôr-lhe a mão na espádua, ela relanceou dum pulo, saltando uma touceira de cardos.
— Oh! Que lindo animal trazes tu, Manuel! exclamou Bento Gonçalves com satisfação de picador. É para negócio? Abre preço, rapaz!
— Não, senhor, esta não se vende.
O gaúcho hesitou balbuciando:
— Mas se meu padrinho…
— Nada, Manuel; sei o amor que a gente toma a estes brutos. Aposto que lhe queres tanto bem como à tua namorada.
Na despedida, quando o gaúcho lhe beijava a mão, o coronel deixou-lhe na palma uma onça de ouro.
— Em Jaguarão comprarás uma mantilha de ponto real, e um turbante de plumas: a mantilha é para minha comadre, o turbante para tua namorada.
E dando de rédeas ao ginete, sumiu-se em uma nuvem de pó.
Era dia de Nossa Senhora da Conceição.
A vila tinha ares domingueiros; acabara a missa havia pouco tempo; ainda as ruas estavam cheias de grupos de mulheres com mantilha e homens em trajo de cidade.
Apeou-se Manuel Canho a uma loja, onde se vendiam fazendas, chá, rapé e quinquilharias. Escolheu a mantilha para sua mãe, e um turbante de plumas escarlates para Jacintinha. Naquela época esse toucado era uma das últimas novidades da moda; consistia em uma faixa de cetim bordada a ouro, cingindo a cabeça em forma de coifa, e ornada com duas ou três plumas que se anelavam pelos cabelos.
Acomodados os dois objetos na boceta de folha de pinho, que ele ocultou debaixo do poncho, Manuel encaminhou-se à venda, onde da vez passada tinha pousado.
Junto do balcão estava uma grande roda de peões e gente do povo a beber genebra e a parolar. No alpendre, que seguia em continuação à queda da taberna, via-se também outra roda de peões; estes já haviam molhado a garganta e se entretinham em descantes ao som da viola, a qual ia correndo de mão em mão, à medida que passava ou acudia a inspiração.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.