Por Camilo Castelo Branco (1882)
O Veríssimo foi admitido aos camarins, onde estavam sentados, em caixas de milho e na salgadeira, os figurantes à espera da sua vez, já vestidos. Viam-se os personagens do entremez. Matilde, amante de Alménio, uma ingénua, a protagonista da peça, a doente namorada, que levou o pai a trazer-lhe a casa o amante, o médico fingido. Este papel fora confiado a um latagão oficial de carpinteiro, com os pulsos cabeludos e os nós dos dedos com umas protuberâncias calosas que pareciam castanhas piladas antigas. Nas maçãs do rosto mascarrara duas zonas de carmim, que pareciam a distância umas chagas de mendigo de romaria aperfeiçoadas. Trajava um vestido de cetim branco da fidalga velha de Rio Caldo, feito em 1824 para um baile que houve em Braga aos anos de D. João VI. O peito chato do carpinteiro ficava à altura dos quadris da fidalga, e as clavículas espipavam as ombreiras do corpete, prendendo os movimentos ao desgraçado Matilde. Posto que a cena fosse a Casa de Astolfo, pai da doente fingida, a velhaca estava de chapéu de palhinha com enorme telha enconchada e plumas brancas muito amarelecidas do mofo. O vestido era-lhe curto, mas lucravam com isso as pernas, que se deixavam ver até acima do jarrete, cingidas de fitas cruzadas que subiam de uns sapatos de duraque sem tacões, feitos de propósito e em concordância com os ângulos reentrantes e salientes dos pés. Era o grotesco do horror. A criada de Matilde, a Laberca, também vestia de cetim azul-ferrete, um pouco menos antigo, empréstimo das senhoras de S. Crau, que o assoalhavam de vez em quando para os entremezes. Não tinha chapéu nem sapatos de duraque: obedecia mais à caracterização natural. Na cabeça usava touca de folhos com laços de fita escarlate e nos pés os butes do amo com ponteira de verniz; ele era o criado do juiz de direito substituto; gozava créditos de representar papéis de lacaia fazendo rebentar a gente.
O Veríssimo fez os seus cumprimentos às duas damas, e manteve uma seriedade verdadeiramente real. O Alménio era o filho do estalajadeiro da Póvoa de Lanhoso, o Relhas. Calças brancas, quinzena de veludilho, bengala de castão de prata, chapéu branco de castor e óculos. Disse ao Veríssimo que punha os óculos para fingir de médico. Estava a um canto o galego, o Gonçalo, aguadeiro da casa. Como não havia em Calvos o costume rigoroso dos aguadeiros, o trolha ensaiador vestiu-o de almocreve, com as botas refegadas, faixa branca e em mangas de camisa, com uma monteira comprada em Tui. A cara era ao próprio, de uma verdade típica. O Pantufo, um saloio rico que queria casar com Matilde, e foi bigodeado pelo fingido médico, vestia a melhor andaina de fato do presidente da câmara, um apaixonado pelos entremezes, que a gravidade idas suas funções impedia de representar; mas emprestava a roupa e a inteligência dramatológica. Havia mais duas figuras, o Falsete, e o Astolfo, que se estavam vestindo lá dentro, por detrás de um ripado, que os deixava ver em camisa enfiando as pernas sujas nas pantalonas, enquanto o trolha lhes rebocava de vermelhão as caras.
O Nunes atravessara a eira, e endireitara para o palheiro, quando lhe disse o Gonçalves que estava lá dentro um fidalgo de longe. Encostou-se ao batente da porta, trocou um lance de olhos com o Veríssimo, e saiu apressadamente, arranjando pelo caminho uma fisionomia cheia de alvoroço, de surpresa.
Entrou pela residência, muito esbofado:
– O abade, já esteve na eira do Gonçalves?
– Não; estou a acabar de jantar, e lá vou ver essa borracheira de comédia. Você vem aganado!
– Vinha perguntar-lhe se conhece um sujeito de fora que lá está na eira.
– Aqui veio um rapazola da Póvoa pedir-me uma cadeira há coisa de meia hora para um fidalgo que tinha vindo com ele. Perguntei-lhe quem era o fidalgo. Diz que não sabe. Esta canalha em vendo um bigorrilhas de casaco chama-lhe fidalgo.
– Venha já daí comigo. Por quem é, não se demore... O abade, lembra-se de ver el-rei em Braga há treze anos?
– Ora se lembro!... Beijei-lhe a mão três vezes.
– E, se o vir agora, conhece-o?
– Parece-me que sim – o padre limpava à pressa os beiços amarelos dos ovos do arroz-doce. – Mas isso que quer dizer? Você está doido, ou temos carraspana, amigo Nunes?
– Homem! venha comigo, e depois chame-me doido ou borrachão, lá como quiser; mas não se demore que eu estou em brasas vivas.
– Aí vou, aí vou, não se atrigue. Vai uma pinga do choco?
– Venha de lá isso. – Bebeu de um trago, e pediu outro: – Agora, à saúde de el-Rei! à saúde daquele que talvez esteja bem perto de nós! a cem passos!
– Toque! – exclamou o abade.
Pelo caminho, disse-lhe o Nunes que era preciso o maior disfarce, não olhar muito de frente para ele, e só deviam falar-lhe se a ocasião viesse muito a jeito.
– Você está a sonhar, homem!
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.