Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Felizes os que plantam previdentemente na mocidade os colmos com que mais tarde terão de cobrir seus derradeiros dias. e à sombra afetuosa dos quais lhe será permitido abrigar o coração contra os ventos frios da velhice e contra os primeiros sobressaltos da morte. Desgraçados dos que descem deste mundo sem calor de beijos, que lhes aqueçam as mãos enregeladas, e sem ter um peito amigo que lhes recolha o último gemido e a última palavra!

O conde de S. Francisco foi um desses desgraçados. Helena era mãe, mas não era esposa. Só estas sabem ligar heroicamente o seu destino ao destino do pai de seus filhos; só estas sabem resistir às grandes tempestades do lar e às extremas provações do amor. Para morrer abraçado ao navio é preciso ser legítimo comandante: é preciso que a dignidade do seu cargo e a responsabilidade moral da posição o prendam ao seu posto de honra. O falso capitão não está na altura desses sacrifícios e dessas abnegações.

Foi justamente o que sucedeu com Helena. Quando rebentaram as primeiras desavenças no seio da família do amante, ela puxou a filha para si e afastou-se, deixando que o apaixonado velho tragasse, no segredo do seu desespero, as dores lancinantes da soledade.

Vieram logo os padecimentos do corpo, a agravação das enfermidades adormecidas até aí; e o conde caiu prostrado no leito em que tinha de expirar. O filho em Coimbra; as filhas, uma casada e longe com o marido; a outra recolhida ao convento; só lhe restavam fâmulos e enfermeiros de aluguel.

Lembrou-se então de escrever a um seu velho amigo, que noutro tempo fizera com ele a campanha contra os franceses. Era um veterano reformado com a patente de coronel, e que há seis anos descansava em terras que possuía no Porto.

Foi um espalhafato a sua chegada ao castelo do conde. Os dois velhos precipitaram-se nos braços um do outro e começaram a chorar como duas crianças. O conde não podia pronunciar palavra; as lágrimas corriam-lhe em borbotão pelas barbas brancas. E, todo trêmulo, a soluçar, humilhado pela nimiedade daquela comoção, sentiu faltarem-lhe as derradeiras forças e caiu agonizante.

O coronel, estonteado pela situação, maldizendo a idéia de apresentar-se tão de surpresa, procurava consolar o amigo. Pedia-lhe que sossegasse um instante e jurava não abandoná-lo tão cedo.

— Sim! sim, meu velho camarada, preciso de alguém que me ajude a morrer na fé em que me criei! Não te roubarei muito tempo! és o único que ainda vive dos nossos belos tempos da mocidade! Bem dizia eu cá comigo que não faltaria à entrevista da minha morte! Obrigado! obrigado, meu bom amigo!

Mas o coronel pouco tempo teve que ficar ao lado do seu velho camarada: o conde morreu quatro dias depois de chegar ele ao castelo. Assistiram-lhe os sacramentos; o moribundo, após as palavras do confessor, parecia confortado e disposto a deixar o mundo em paz.

Antes porém de morrer, conversou largamente com o amigo a respeito dos seus que deixava:

— Meus filhos legítimos, disse ele, estão abrigados por natureza, têm o que herdar e não lhes faltará lugar na sociedade. Mas eu tenho uma filha natural, uma filha que adoro e que, apesar da ingratidão com que ela e a mãe me deixaram neste isolamento, não me sai da memória um só instante. Tu já sabes de quem falo! Pois bem; pensa um pouco em Cecília; a infeliz pode algum dia vir a precisar dos teus socorros. Guarda bem estas minhas recomendações! bem sei porque tas faço .. Deixo-lhe alguma coisa, mas receio que a mãe não queira que isso aproveite à filha. Por conseguinte, meu velho amigo, segue-a com a tua experiência; e este o único serviço que te imploro para depois da minha morte!

— Descansa, respondeu o coronel; prometo, sob palavra, fazer o que me recomendas!

— Bem! posso então fechar os olhos em paz. Cecília era o meu último cuidado.

— Não te aflijas! Eu velarei pelo seu destino. — Obrigado! muito obrigado!

E o conde morreu no dia seguinte, repetindo ao coronel as suas recomendações.

Foi desta forma que, por ocasião da morte de Helena e da miserável fuga de Pedro Ruivo, Cecília recebeu em casa a visita do velho coronel.

A figura austera e encanecida do veterano, a calma resolução do seu porte marcial, e a singela energia das suas palavras, inspiraram à órfã imediata confiança. Ela, porém, não se podia furtar a certa estranheza que lhe causava semelhante visita, principalmente depois de saber que o velho ia resolvido a levá-la para a companhia de sua família. O coronel compreendeu a surpresa da menina e acrescentou:

— Cumpro um dever sagrado, minha filha; seu pai recomendou-me que a não desamparasse quando a visse carecedora de algum auxílio. Creio que chegou a ocasião: está órfã e sem arrimo... Cumpre-me ampará-la; serei seu pai de hoje em diante!

Cecília aceitou comovida a generosa mão que se lhe estendia; mas a idéia dolorosa do seu estado perturbava-lhe o espírito e a fazia recear de qualquer conseqüência má de tudo aquilo. Entretanto, que remédio tinha ela senão aceitar de olhos fechados aquele recurso ou voltar então à primitiva idéia do suicídio?...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3435363738...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →