Por Aluísio Azevedo (1884)
Em seguida via-se o marido. Um homenzinho gordo, de barba por fazer e pequeno bigode castanho, em parte lourejado pelo fumo. A fronte abria-lhe para o crânio em dois semicírculos constituídos na ausência do cabelo. Fisionomia inalterável, de uma tranqüilidade irracional e covarde. Fechava de vez em quando os olhos, por um sestro antigo, e então parecia dormir profundamente.
Percebia-se que ele e a mulher estiveram, antes de vir para a mesa, empenhados em alguma discussão desagradável, porque, mal se furtaram às apresentações e aos cumprimentos da chegada, Lúcia pôs-se a falar-lhe em voz baixa, com azedume disfarçado. Ele, porém, não dava resposta, e, quando a mulher insistia, cerrava os olhos como se fugira para dentro de si mesmo.
César, ao lado, acompanhava-lhe os movimentos com persistência tão grosseira que a outro qualquer constrangeria.
Defronte perfilava-se o gentleman. Teso, o pescoço imobilizado no rigor de uns grandes colarinhos; as sobrancelhas franzidas diplomaticamente; o olhar grave, de que medita coisa de alta importâncias; a boca engolida por um farto bigode grisalho; o queixo escanhoado, formando largas pregas, sempre que Lambertosa voltava o rosto com amabilidade para responder ao que lhe diziam da direita ou da esquerda. Bonita figura, bem apessoado, fronte espaçosa, cabelo branco , puxado de trás sobre as orelhas.
Entre ele e o Coqueiro, Amelinha, cheia de piscos de olhos e de gestozinhos passarinheiros, recebia do irmão os pratos de sopa e passava-os adiante.
— E Nini?...perguntou Mme. Brizard com interesse.
E, como Amâncio a fitasse, quando lhe ouviu aquela pergunta, ela explicou que Nini era uma filha sua, “muito doente, coitadinha...!” E contou logo toda a história da pobre menina — a viuvez, a dolorosa morte do filhinho “que lhe havia ficado como extrema consolação”, e, afinal, falou daquela “maldita moléstia que sobreviera a tantas calamidades e que parecia disposta a não abandonar mais a infeliz”.
— Não dá idéia do que foi! Disse após um suspiro. – Era uma beleza e tinha o gênio mais alegre deste mundo! Ah! Está muito mudada! Muito mudada! Impressiona-se com tudo, tem exigências pueris, caprichos, coisas de uma verdadeira criança! E ninguém a contraria, que aparecem as crises, os ataques! Uma campanha! — Ainda outro dia, porque não lhe deixaram ver um desenho que meu marido achou na chácara...
E, voltando-se rapidamente para Amâncio:
— O Sr. Vasconcelos não se serve de vinho?...— Um desenho indecente; pois ficou prostrada e eu tive sérios receios de a ver perdida para sempre! Desde então está nervosa que se lhe não pode dizer nada! É preciso não insistir com ela em coisa alguma: se a chamam duas vezes para a mesa, começa a chorar e não vem; se a querem constranger a pôr um vestido melhor, um penteado mais decente, são gritos, soluços, repelões, e agarra-se à cama, que não há meio de tirá-la! Eu já não sei que faça!...
— Por que, Madame, não experimenta os banhos de mar? Perguntou o gentleman, limpando energicamente o seu grosso bigode no guardanapo que atara ao pescoço.
— Qual! Não produzem efeito nenhum! Ela já tomou quarenta seguidos. Acho até que ficou pior.
É estranho!... volveu o gentleman, franzindo o sobrolho e passando a Lúcia a corbelha de farinha. — É estranho porque, segundo Durand Fardel, não há enfermidades nervosas que resistam a um bom regime de banhos marítimos; mas aconselha também o uso interno de água salada, e prova que a mineralização desta é muito mais rica em cloreto de sódio do que a das águas minerais da fonte.
— Não sei Sr. Lamber...
Mme. Brizard não se lembrava do nome dele.
— Lambertosa, Mme., Lambertosa!
— Não sei, Sr. Lambertosa, não sei...O caso é Nini não consegue melhorar.
—Temos experimentado de tudo, tudo!
E, mudando de tom, bateu no braço de Amâncio, segredando-lhe com um sorriso:
— Não se esqueça de provar daqueles camarões. São especiais!...E descreveu uma olhadela entre ele e Amélia.
— O casamento talvez a restabelecesse!...observou o provinciano, servindose dos afamados camarões. — Dizem que há muitos exemplos de ...
Amélia afetou um sobressaltozinho, e olhou para ele, procurando disfarçar o mau efeito de sua proposição, citou Le Bom.
— O doutor acha então que o histerismo se pode curar com o casamento?...perguntou Lúcia da direita.
— Parece, minha senhora, a dar crédito aos fisiologistas...
A sonoridade desta palavra consolou-o.
— E é exato...confirmou o Pereira, marido de Lúcia.
— Tu mesmo entendes disto!...respondeu-lhe a mulher desdenhosamente.
O Pereira fechou os olhos e não deu mais palavra.
Lambertosa havia já limpado o bigode para emitir a sua conceituosa opinião, mas teve de renunciar a essa idéia, porque Nini acabava de assomar à porta do quarto, arrastando-se dificilmente ao peso de suas inchações.
Vestia uma bata de lã parda, enxovalhada e se cinta. A gordura balofa e anêmica tirava-lhe o feitio do corpo; as suas costas formavam-se de uma só curva e os quadris pareciam duas grandes almofadas.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.