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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Qual era, porém, essa mulher assim reproduzida? Amália não duvidara um instante que fosse Julieta, embora as figuras não lhe avivassem no espírito a lembrança vaga que tinha da primeira esposa de Hermano. 

 

Mas o retrato de Julieta ali estava, suspenso à parede do toucador, em um grande quadro a óleo, que representava a moça em corpo inteiro. Pela data via-se que fora tirado um ano depois de seu casamento. 

 

Entre a estátua e o retrato havia muita afinidade de expressão; mas nos traços e contornos das feições, a diferença era sensível. Poderiam ser duas irmãs; não eram, porém, a mesma pessoa. 

 

Hermano amara então outra mulher depois de Julieta? Amália repelia essa conjetura, que repugnava com o culto do marido pela esposa a quem primeiro se ligara. 

 

A caixa de carvalho com preparos de flores artificiais tinha embutido na tampa o nome de Julieta. O lenço e as roupas das figuras de cera estavam marcadas com três iniciais J. S. A.; e da mesma forma o livro que Hermano lia à noite, um volume de Spirite de Teófilo Gautier. 

 

A perturbação que a descoberta de tais particularidades lançou no espírito de Amália cresceu com a leitura salteada de alguns trechos daquela obra fantástica. Uma luz sinistra, como a do relâmpago, feriu o seu pensamento; compreendia enfim! 

 

O amor de Hermano era uma demência. Não fora uma mulher que ele havia adorado, e adorava ainda; mas um fantasma, um ente de sua imaginação. Esse ideal, ele o tinha encarnado em Julieta, desde o primeiro momento em que a vira. 

 

Por que misteriosa relação se havia operado essa transfusão, ninguém  o poderia explicar, senão por uma afinidade moral. 

 

Morta Julieta, o ideal se tornara outra vez fantasia ou sonho, até que pela mesma ignota afinidade se encarnara de novo na imagem de painel do Veronese, Ester ou Suzana, como dissera o Teixeira, referindo a visita ao Louvre. 

 

Estas figuras, pensava Amália, são a cópia daquela imagem, a que Hermano dera o nome de Julieta, por ser o da primeira encarnação viva de seu ideal. Mas elas não tinham nada de comum com a morta senão essa misteriosa relação, que transparecia em uns longes da fisionomia. 

 

Julieta não era formosa; e toda a sua graça estava unicamente na expressão. A mulher reproduzida em cera era uma beleza estatuária que ofuscava inteiramente o retrato. Como pois tinha Hermano identificado  essas duas imagens tão diversas? 

 

Este fenômeno só podia explicar-se por um modo. Hermano não idolatrava a forma, embora a admirasse quando ela realizava a sua imaginação . O que ele amava era uma larva, um espírito, um duende de beleza imaterial, que transportara a princípio para uma mulher, depois para urna imagem e afinal para uma estátua. 

 

Estes pensamentos trabalhavam na mente de Amália, quando já recolhida a seu toucador, e atirada em uma poltrona baixa, ela cogitava sobre a cruel revelação que se fizera em sua consciência. 

 

“ — Achou em mim alguma coisa que recordou Julieta ou antes o seu ideal. Foi minha voz cantando a ária da Lucia que o atraiu; mas falta-me esse encanto, essa fascinação misteriosa que um momento supôs encontrar.”  

 

Lançando um olhar ao espelho, onde se refletiam as suas formas esplêndidas, ela suspirou: 

 

“ — De que vale minha beleza? Ele não a vê, não a percebe. Julieta não era bonita: seu retrato está muito parecido; agora recordo-me bem dela, de quando passeava no jardim. Entretanto ele a amou. Eu podia ser feia e muito feia, que também me amaria se eu fosse a mulher que ele criou em sua imaginação.”  

 

Mas por que não seria ela essa mulher? 

 

Seu amor cheio de abnegação inspirou-lhe então uma resolução generosa. Sua existência, que já não tinha sedução, nem fim, ela a dedicaria à felicidade do homem a quem amava. Adivinharia o segredo dessa criação ideal da mente enferma de Hermano e a realizaria em si. 

 

Deus lhe daria forças para operar essa nova encarnação. Dominando então o espírito do marido, o restituiria à razão, ao mundo, ao verdadeiro amor; e seriam felizes. 

 

Para isso era preciso, ela bem o compreendia, fazer um sacrifício de sua personalidade; sacrifício doloroso para as almas superiores, que têm uma individualidade e que não podem, a exemplo das outras almas de estalão, despir o seu eu, e receber como a cera o molde da vulgaridade. 

 

Ser outro, negar-se a si mesmo, suprimir-se moralmente, não se pode imaginar mais terrível suplício para uma consciência altiva; e foi a este que Amália se condenou no intento de salvar o marido ou perder-se com ele. 

 

(continua...)

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