Por Camilo Castelo Branco (1862)
Um outro preso emprestou-lhe uma cadeira de pau. Simão sentou-se, cruzou os braços e meditou.
Pouco depois, um criado de seu pai conduziu-lhe o almoço, dizendo-lhe que sua mãe lho mandava a ocultas, e entregando-lhe uma carta dela, cujo conteúdo importa saber. Simão, antes de tocar no almoço, cujo cabaz estava no pavimento, leu o seguinte:
"Desgraçado, que estás perdido!
Eu não te posso valer, porque teu pai está inexorável: As escondidas dele é que te mando o almoço, e não sei se poderei mandar-te o jantar!
Que destino o teu! Oxalá que tivesses morrido ao nascer!
Morto me disseram que tinhas nascido; mas o teu fatal destino não quis largar a vitima
Para que saíste de Coimbra? A que vieste, infeliz? Agora sei que tens vivido fora de Coimbra há quinze dias, e nunca tiveste uma palavra que dissesses a tua mãe!. ."
Simão suspendeu a leitura, e disse entre si:
— Como se entende isto?! Pois minha mãe não mandou chamar o João da Cruz! E não foi e]a quem me mandou o dinheiro?
— Olhe que o almoço arrefece, menino! — disse o criado.
Simão continuou a ler, sem ouvir o criado:
"Deves estar sem dinheiro, e eu desgraçadamente não posso hoje enviar-te um pinto. Teu irmão Manuel, desde que fugiu para Espanha, absorve-me todas as economias — Veremos, passado algum tempo, o que posso fazer; mas receio bem que teu pai saia de Viseu, e nos leve para Vila-Real, para abandonar de todo o teu julgamento à severidade das leis.
Meu pobre Simão! Onde estarias tu escondido quinze dias?! Hoje mesmo é que teu pai teve carta dum lente, participando-lhe a tua falta nas aulas, e saída para o Porto, segundo dizia o areeiro que te acompanhou.
Não posso mais. Teu pai já espancou a Ritinha, por ela querer ir à cadeia.
Conta com o pouco valor da tua pobre mãe e ao pé dum homem enfurecido como está teu pai"
Simão Botelho refletiu alguns minutos, e convenceu-se de que o dinheiro recebido era de João da Cruz. Quando saiu com o espírito desta meditação, tinha os olhos marejados de lágrimas.
— Não chore, menino — disse o criado. — Os trabalhos são para os homens, e Deus há de fazer tudo pelo melhor. Almoce, senhor Simão.
— Leva o almoço — disse ele.
— Pois não quer almoçar?!
— Não. Nem voltes aqui. Eu não tenho família. Não quero absolutamente nada da casa de meus pais. Diz a minha mãe que eu estou sossegado, bem alojado, e feliz, e orgulhoso da minha sorte. Vai-te embora já.
O criado saiu, e disse ao carcereiro que o seu infeliz amo estava doido. D. Rita achou provável a suspeita do servo, e viu a evidência da loucura nas palavras do filho.
Quando o carcereiro voltou ao quarto de Simão, entrou acompanhado de uma rapariga camponesa: era Mariana. A filha de João da Cruz, que até àquele momento não apertava sequer a mão do hóspede. correu a ele com os braços abertos e o rosto banhado de lágrimas. O carcereiro retirou-se, dizendo consigo: — "Esta é bem mais bonita que a fidalga!"
— Não quero ver lágrimas, Mariana — disse Simão. — Aqui, se alguém deve chorar, sou eu; mas lágrimas dignas de mim, lágrimas de gratidão aos favores que tenho recebido de si e de seu pai. Acabo de saber que minha mãe nunca me mandou dinheiro algum. Era de seu pai aquele dinheiro que recebi.
Mariana escondeu o rosto no avental com que enxugava o pranto.
— Seu pai teve algum perigo? — tornou Simão em voz perceptível dela.
— Não, senhor.
— Está em casa?
— Está, e parece furioso. Queria vir aqui, mas eu não o deixei.
— Perseguiu-o alguém?
— Não, senhor.
— Diga-lhe que não se assuste, e vá depressa sossegá-lo.
— Eu não posso ir sem fazer o que ele me disse. Eu vou sair, e volto daqui a pouco.
— Mande-me comprar uma banca, uma cadeira, e um tinteiro e papel — disse Simão, dando-lhe dinheiro.
— Há de vir logo tudo; já cá podia estar; mas o pai disse-me que não comprasse nada sem saber se sua família lhe mandava o necessário.
— Eu não tenho família, Mariana. Tome o dinheiro.
— Não recebo dinheiro, sem licença de meu pai. Para essas compras trouxe eu demais. E a sua ferida como estará?
— Ainda agora me lembro que tenho uma ferida! — disse Simão, sorrindo. — Deve estar boa, que não me dói... Soube alguma coisa de D. Teresa?
— Soube que foi para o Porto. Estavam ali a contar que o pai a mandara meter sem sentidos na liteira, e está muito povo à porta do fidalgo.
— Está bom, Mariana... Não há desgraçado sem amparo. Vá, pense no seu hóspede, seja o seu anjo de misericórdia.
Saltaram de novo as lágrimas dos olhos da moça; e, por entre soluços, estas palavras:
— Tenha paciência. Não há de morrer ao desamparo. Faça de conta que lhe apareceu hoje uma irmã.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.