Por Camilo Castelo Branco (1882)
O Torcato expôs a sua teoria do conto de réis, desfez atritos, removeu dificuldades, convenceu afinal. Tinham de partir para o Alto Minho, os dois. Libânia iria para Ramalde trabalhar nos teares da Grainha, que lhe dava comida, cama e doze vinténs por dia. Venderiam a um adeleiro da Rua Chã os trastes para o Veríssimo se enroupar de pano piloto, quinzena e calças com alguma decência, roupa branca, reforma das botas cambadas, chapéu de feltro e um paletó de agasalho.
Na quinta -feira gorda, a Libânia, com exemplar coragem, foi para Ramalde. A Grainha negociava em teias, ia vendê-las ao Douro, tinha visto em Gouvinhas o limpo trabalho da rapariga, e quando a encontrou no Porto:
– Olhe, moça, quando quiser ganhar a vida honradamente, lá estamos em Ramalde. Uma de doze, comer como eu e lençóis lavados na cama.
O Nunes e o Veríssimo foram juntos até perto de Braga. Aí, o de Calvos seguiu para casa, e o outro no sábado gordo partiu para a Póvoa de Lanhoso.
XI
O Torcato, antes de entrar em casa, foi à residência. Ia misterioso, circunvagava uns olhares cautelosos: – se ninguém o ouviria? – perguntava ao abade Mairos.
E o abade, entrepondo as cangalhas nas páginas do breviário: – Pode falar, que estou sozinho. Que é?
– D. Miguel I está em Portugal – disse, curvando-se-lhe ao ouvido, com uma voz gutural.
– Você que me diz?! Como sabe isso? Pataratas!
– Chego agora do Porto; estive com o escrivão fidalgo, o Ferreira Rangel, e com o abade Gonçalo Cristóvão. El-rei está nesta província. Desconfia-se que é em Braga, e o José Alvo Balsemão disse-me que talvez eu o visse brevemente no nosso concelho, porque o levantamento há-de começar por aqui.
– Que me diz você, amigo Torcato? – sacudia os braços, fazia estalar os dedos como castanholas, tinha gestos mudos de exultação extática – que ia escrever ao abade de Priscos, que indagasse, que aparecesse... – É preciso trabalhar, preparar os ânimos...
– Chitão! – acudiu o Nunes com o dedo a prumo sobre o nariz. – Nada de espalhafato! Não ferva em pouca água, abade. Se der à língua, esbarronda-se o negocio. O rei só há-de aparecer aos seus amigos quando os generais entrarem pela Galiza. Não fala a ninguém; não se dá a conhecer. Diz que só falara em Lisboa com o conde de Pombeiro e com o Bobadela, e no Porto com o José António, o morgado do Bom Jardim, e mais com o padre Luís do Torrão... O abade conhece.
– Pois não conheço? como as minhas mãos; é o vice-rei nas províncias do norte... o nosso bom padre Luís de Sousa, que pelos modos está nomeado patriarca de Lisboa... Que pechincha, hem?
– É esse mesmo... Bem! até logo; vou ver a mulher e os filhos a casa, que ainda lá não fui. Um abraço, amigo abade! Parabéns! A choldra vai cair! Vida nova! Daqui a um mês está todo esse Minho em armas, e ei rei à frente dos seus vassalos. Outro abraço, e viva el-rei!
Lágrimas jubilosas, como contas de vidro sujas, tremeluziam nas pálpebras inflamadas do abade.
– Jante comigo, Nunes, jante comigo! Vai-se abrir uma de 1815, à saúde de el-rei!
– Parece que me estoira a pele! Não estou em mim! — Que ia ver a mulher e que voltava já.
Na noite de sábado para domingo de Carnaval, o Veríssimo pernoitou na Póvoa de Lanhoso, na estalagem do Relhas.
Disse ao estalajadeiro que era de longe e andava a viajar pela província. Perguntou se por ali não se festejava o Entrudo. O bodegueiro informou que na Póvoa havia guerra de laranjadas e às vezes pancadaria de Senhor Deus misericórdia; mas que na freguesia de Calvos havia comédias nos três dias de Entrudo, por sinal que o seu filho, um barbado que ali estava, com uma cara angulosa muito alvar, fazia de namorado no Médico Fingido, um entremez, coisa rica, que era de um homem malhar de costas naquele chão a rir – que se ele quisesse ver as comédias, podia ir com o seu rapaz, que lhe arranjava lá una cadeira de casa do abade.
O cenário para a representação do Médico Fingido arranjou-se na eira do Gonçalves, muito espaçosa e ajeitada, porque as figuras entravam e saiam, conforme a rubrica, do palheiro que tinha três portas. O palco, barrado de ferro, ainda húmido, estava ao abrigo de cobertas de chita alinhavadas umas nas outras, retesadas nas pontas por postes de pinho que rematavam em forquilhas para receberem uns varais lançados transversalmente. Havia dois mastros de castanheiro descascados, afestoados de buxos, alecrim e camélias, coroados por bandeiras vermelhas esburacadas. Parte dos mastros tinha uma lista em ziguezague pintada a zarcão, que se ia espiralando pelo pau acima, com cercadura de cruzinhas: – era obra de Cheta, um trolha inspirado que já tinha pintado um painel das Alminhas, onde havia almas do sexo fraco com grandes tetas lambidas por labaredas, e um rei coroado com a boca aberta ao acto de berrar queimado, e tamanha boca que só cedia à de um bispo mitrado, muito empertigado, com o seu báculo. O trolha ensaiara o entremez, e não entrava, porque lhe tinha morrido o pai, havia quinze dias, contava ele a um senhor de fora, desconhecido, que tinha vindo com o galã, o filho do estalajadeiro da Póvoa.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.