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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Causou no Porto e no Minho grande espanto a toda a gente o saber que o pai de Pedro Ruivo, em vez de deixar ao filho uma boa fortuna, apenas lhe deixara algumas dívidas. D. Helena não o queria acreditar, e só se capacitou da verdade, quando a ouviu narrada entre lágrimas pelo próprio órfão.

— Com que o Sr. ficou inteiramente pobre?! exclamou ela, com um ar que nunca até então lhe vira o futuro genro.

— É verdade! respondeu este, sacudindo muito triste a cabeça; infelizmente, é verdade!...

— Ora essa!... resmungou a professora, pálida de raiva. Há coisas neste mundo!...

— É a sorte, D. Helena... acrescentou o Ruivo, limpando os olhos.

— E agora?! interrogou ela.

— Resta a resignação! Eu por mim saberei conformar-me com o destino!

— Mas é que nem todos pensam como o senhor! Há de permitir-me observar-lhe que era do seu dever de cavalheiro prevenir-nos em tempo da desgraça que o ameaçava. Ora essa!

— Mas se eu não sabia de coisa alguma, D. Helena...

— É impossível, senhor!

— Mas se lhe digo que é a verdade, minha senhora?!

— Diga o que quiser... eu não acredito!

— Pois não acredite, exclamou Pedro Ruivo, perdendo a paciência. Ora pílulas!

— Faltar-me ao respeito! bradou Helena, possuída de cólera... Ainda bem que o senhor mostrou as unhas antes do casamento. Olha do que escapamos!

— Sim! agora tenho eu todos os defeitos, mas quando me supunham rico, era "um Santo Antoninho onde te porei!" Pois se não me quiser dar a mão de Cecília, não dê! Só lhe afianço é que não serei eu só a perder com isso!...

— Hein?! Que quer dizer na sua?!...

— Não posso dar explicações, minha senhora! Sua filha quem está mais no caso de esclarecer o assunto...

— Minha filha?! Mas o Sr. graceja, com certeza!

— Pode ser! V. Exa. falará com Cecília. E já agora declaro que não me casarei sem ser eu o requestado! Até logo. Quando precisarem de mim, que me chamem; antes disso não voltarei!

E Pedro Ruivo afastou-se, no firme propósito de não voltar sem ser chamado. Aquele desespero de Helena com a notícia de sua pobreza estava previsto há muito tempo.

— Olha se não trato com atividade do negócio!... Achava-me a estas horas posto à margem! disse ele consigo, quando se viu na intimidade do seu quartinho de rapaz solteiro.

Entretanto, ao que Helena ouvira de Pedro Ruivo, sobreveio-lhe uma grande febre; aquelas ameaças lhe perturbavam o espírito. A viúva procurou inteirar-se do que havia e, com facilidade, chegou a um resultado. Cecília estava desonrada.

A desesperada mãe não pôde resistir ao golpe, e caiu fulminada por uma terrível congestão cerebral. Nada lhe valeu, nem a dedicação de Cecília, nem os socorros médicos. Expirou no dia seguinte, às duas horas da tarde.

Foi então que Pedro Ruivo se apresentou de novo à órfã, oferecendo-lhe, com um gesto heróico a sua mão de esposo. Cecília recebeu-o entre soluços.

— Ele era a última felicidade que lhe restava!

— Pelo menos farei o possível de merecê-la, Cecília! Amo-a ardentemente, e todo meu sonho dourado é possuí-la como esposa!

— Casaremos quanto antes, disse ela; será um casamento de luto, mas assim é necessário! Só ele me poderá salvar!

No dia seguinte, porém, Pedro Ruivo chegou ao conhecimento de que Helena apenas legara à filha uma pequena nesga de terra herdada de seu pai no Alto Douro.

— Raios me partam! exclamou o Ruivo, quando recebeu esta notícia.

E preparou logo as malas, fugindo no mesmo dia para Lisboa, com a intenção de passar ao Brasil.

Cecília oprimida de desgostos, de remorsos e de sofrimentos, foi recolhida à casa daquele velho amigo de seu avô, de quem fala o começo deste romance. Aí teve ela ocasião de servir de enfermeira à filha do seu benfeitor, como dissera o conde de S. Francisco a Gregório, quando este se achava detido no palacete da Tijuca.

Mas a desgraça não podia ficar tranqüila: o fruto do crime de Pedro Ruivo teria que patentear-se, mais cedo ou mais tarde, aos olhos de todos, e por conseguinte só na morte ela encontraria refúgio!

CAPÍTULO XII

A VÍTIMA DE PEDRO RUIVO

O velho conde de S. Francisco, o pai putativo de Cecília, na ocasião em que se sentiu ir resvalando para a sepultura, estava desacompanhado de sua família legítima e completamente desprovido das consolações e dos confortos de qualquer afeto. A ausência das filhas e a desorganização da sua casa, dantes tão metódica e bem dirigida, haviam lhe emborcado no coração esse amargor, espesso e lúgubre, que nos dá, aos últimos dias da existência, um estranho antegosto da morte e nos conduz a sonhar com uma outra vida feita de paz e de esquecimento.

(continua...)

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