Por Aluísio Azevedo (1884)
Como para contrastar com toda essa suavidade de tons e sons, havia no fundo do salão principal um enorme tímpano de metal polido, em forma de quadrante de relógio, que servia para marcar as várias peças da dança. Era bastante que o regente da orquestra tocasse, lá do seu esconderijo, num botãozinho elétrico, que tinha ao lado, para que o grande tímpano, nem só com um ponteiro, mas em badaladas sonoras, anunciasse por toda a casa a quadrilha ou a valsa que se ia dançar.
Um terraço, iluminado à luz elétrica, estabelecia comunicação entre as salas e a chácara, onde pequenos quiosques transparentes, como gigantescas lanternas de papel pousadas sobre a grama, ofereciam aos convidados a mais completa variedade de vinhos e refrescos.
Com efeito! disse o Barroso, olhando com um ar de censura para tudo aquilo. Com efeito! É até onde pode chegar a maluquice de um homem!...
E não conseguiu reprimir a sua indignação ao ver o Borges aproximar-se dele aos saltos, agitando o irrequieto e escandaloso penacho do seu ofuscante capacete cor de prata:
— Que diabo é isso?!... exclamou, deste para maluco! Pois não vês, homem, que já não te ficam bem essas coisas?!... Queres acabar num hospício?!... Ora, o que parece um marmanjão da tua idade a pular no meio da casa, vestido de princês?!...
— Que queres, meu amigo?... o amor! o amor! disse o Borges, procurando ser grave e conseguindo apenas ficar mais cômico debaixo da sua cabeleira a Luís XV.
— Qual o amor, nem qual carapuça! retrucou o outro, ralhando.— Eu amo muito minha mulher, e, ai dela se me viesse para cá com pantominices dessa ordem!
— É por que não estás nas minhas condições! Fosses tu casado com Filomena e dir-me-ias depois!...
— Qual o que!, contradisse o Barroso. Tu o que precisavas era de um cáustico na nuca!
— Mas, com a breca! querias então que eu contrariasse minha mulher?!...
repontou o Borges, perdendo a paciência. Que diabo! eu desejava estar casado de outro modo!... juro-te que preferia uma esposa como dizes ser a tua! ... Mas a sorte não quis assim; que lhe hei de eu fazer? ... Agora é levar a cruz ao Calvário! Se eu não a estimasse, bem! mas eu adoro-a, como já te confessei um milhão de vezes; e ela, meu amigo, formosa, querida, desejada como é, vendo-se contrariada, seria, em represália, muito capaz de fugir dos meus braços para os de outro qualquer!
— Pois que fugisse! É boa!
— Que fugisse, não! bradou o Borges encolerizando-se. Vai para o diabo com o teu agouro! Prefiro tudo a ver-me privado da sua companhia! Serei um louco, um libertino, um criminoso, se preciso for, contanto que a tenha sempre ao meu lado, que a veja, que a sinta, que a ame, que a possua! Deixá-la ir! E nesse caso de que me serviria a vida?!... Sem ela de que me serviria a posição social, a estima pública e todas as grandezas da terra?!
— Não era dessa forma que me falavas há poucos dias... observou o Barroso, deveras surpreso com a transformação rápida que se acabava de operar no amigo.
— É que então não me aconselhavas que a deixasse fugir de meus braços!... respondeu o marido de Filomena.
— O que te afianço, acrescentou o outro, é que, se desconfiasse que havias de mudar tão depressa, não teria vindo à tua casa...
— Estás arrependido?...
— Não, filho! não estou arrependido... mas é que ainda há tão poucos dias tu te queixavas daquela forma de tua mulher, e hoje saltas-me com três pedras na mão, só porque eu...
— Ah! tornou o Borges, passando o braço na cintura do amigo e procurando falar-lhe em segredo. Ah! ... é que nesse momento eu estava longe de Filomena, fora do alcance de sua fascinação, do perfume de seus cabelos, do eco de sua voz, da reflexão de seus olhos!...
O Barroso fitou-o assombrado, e fez um gesto para fugir-lhe do braço. Que diabo de palavrório era aquele?!...
O outro não fez caso e segurou-o melhor.
— Vê!... disse-lhe entusiasmado apontando para a mulher, que atravessava a sala próxima. Olha! Vê como vai formosa! Contempla aquela garganta de mármore, aquele porte de rainha egípcia, aqueles olhos mais formosos que as estrelas! Contempla-a toda, e dir-me-ás depois, desgraçado! se há no mundo coisa alguma que valha a posse de todo aquele tesouro vivo e palpitante!... se há coisa alguma, seja ela a doçura do lar, as glórias do talento, a consolação do trabalho, as honrarias sociais, o respeito, o acatamento de seus semelhantes, o amor de uma geração inteira — se há alguma coisa que possa corresponder à suprema ventura de ser seu escravo!...
— Tu bebeste demais! exclamou o Barroso, conseguindo afinal arrancar-lhe dos braços.
— Ainda não bebi demais! respondeu o barão, fazendo um gesto dramático.
— Mas lembraste a propósito: Champanhe! exclamou para um criado. Champanhe! Depressa!
E depois, erguendo a taça, que se lhe entornava sobre os dedos: — Ao amor, Barroso! Ao sempre belo! ao sempre novo! ao nunca vencido! ao amor!
— Estás insuportável! resmungou o amigo, pensando já em escamugir-se na primeira ocasião.
E mal pilhou uma escapula, foi-se.
Em casa, a mulher, que ainda estava de pé, admirou-se de o ver entrar tão cedo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.